domingo, 16 de outubro de 2016

impertinência


em outra encarnação
eu quero ser mulher

          mas daquelas antigas
          que acertavam na loto

bom marido, seis filhos
          empregados nos quartos
a mobília da moda
          passeios, festas, brindes

e a amante do meu homem
se esquivando de mim

*

Esse poema integra uma nova etapa do meu trabalho, já em alguns pontos diferente dos poemas que reuni para o próximo livro (subversos), a ser lançado em novembro. 

domingo, 4 de setembro de 2016

Assombração




Aí sim, rimos todas, não das histórias, mas de como nos assustávamos com essas tolices trinta, quarenta anos atrás. Então, a luz voltou, as vizinhas saíram e eu dispensei a carona de Márcia; voltei a pé pra casa, tomando a fresca como em oito e pensando nas constelações. Lavei os pés, pulei na cama e caí no sono. 
É aqui que eu queria chegar. 

*

Trecho de de Assombração, conto meu publicado na edição de agosto/16 do Correio das Artes, suplemento literário do jornal A União.

sábado, 16 de julho de 2016

(anti)programa



eu também estou bem farto

do lirismo



                        que sai do ventre qual vômito

                        sem processo digestivo



                        que rima fezes com lâmina

                        mas não fere a própria entranha

                       

                        que se arma em placa metálica

                        sem cordas ou o que equivalha



eu desejo e quero agora

o lirismo

            que toma uns goles

                        de cachaça

            passeia trôpego

                        mas não ronca

            em quaisquer motes

                        sempre arrisca

            o som preciso

                        mas alonga

            do peito o grito

                        como magma

            descompassado

                        ou trompete

            de agudo mahler

                        que faz duo

co’a viola grave

            a caminho

e sem chegada

                        do lirismo



que venha à luz rasgando o próprio hímen

e aprenda engatinhando a pôr-se em pé


*

domingo, 8 de maio de 2016

repasto


sacode a juba
e senta
..........o rei da selva

e mira
o preto em branco
..........(e ruge
..........se não lhe estende
..........o braço
..........com gestos de
..........caçado)
fareja o tinto
e ordena
o bife assim
e assado
belisca o mato
abana
a calda e espia
em torno
e brinda e morde
a língua
saliva e come
..........depois
..........das oito
exibe os dentes
se retrata
..........arrota
no instagram

*

Um dos poemeus rejeitados, que sai já já em livro. Só mais um ou dois mesezinhos.

domingo, 13 de março de 2016

idos de março


no calor deste março barroco

daqui a pouco
eu vou mostrar
minha bravura
 

..........partir pro mato
..........matar a cobra
..........postar o pau


de selfie, basta
que agora a moda
é renda justa

..........e quem for reto
..........sacuda o gato
..........do seu quintal

*

daqui a pouco
eu vou mostrar
que tenho classe

..........partir pra luta
..........contra o que é reto
..........provar que o vaso

de ruim, perdura
por isso quem
for justo marque-se

..........não é mais hora
..........de assar coxinha
..........em fogo brando

*

daqui a pouco
eu vou mostrar
minha lisura

..........sair da sombra
..........subir a rampa
..........tomar o palco

e se preciso
eu mudo até
de assinatura

..........contanto que
..........não mais nos levem
..........os bens a jato

*

daqui a pouco
eu vou mostrar
minha candura

..........armar a rede
..........pra ver o bem
..........bater o mal

de cá, os sãos
sairemos fortes
e sem fraturas

..........quem duvidar
..........digite a senha
..........no meu portal

*

daqui a pouco
eu vou sair de casa
correr na praça
e ver voar pardal

..........se eles brigarem
..........não meto o bico não

daqui a pouco
a arenga cessa, passa
e eles me deixam
bem mais magoada a mão

*

domingo, 27 de dezembro de 2015

selfie



não subo
em pau
de sebo
nem monto
em bode
guisado
não calço
chinela
de couro
nem durmo
em rede
de renda
não danço
forró
e frevo
nem canto
repente
na feira
não pago
promessa
pra padre
nem rezo
pra virgem
santíssima
não trago
peixeira
nos cós
nem mato
cachorro
no grito
mas se
preciso
eu subo
até
           em pau
           de selfie


*

Mais, no livro, se a saga por uma boa editora terminar bem.

sábado, 28 de novembro de 2015

o exemplo da barba



às vezes deixo a barba estar na cara
dizendo “queira ou não, o tempo passa
a tinta seca e cai, o piso racha
a telha quebra e o mato engole a casa”


quem passa perto e vê o estado fala
“é bom ter mais cuidado na fachada
passar uma mão de cal, limpar a casca
senão ladrão se achega e o bem se afasta”


em outros tempos, eu fazia sala
ouvia a ladainha e até deixava
pitaco rolar solto no que usava
de creme e lâmina à loção pós-barba


porém cansei de dar a cara às aspas
e agora digo a quem a mim se atraca
que a casa é minha e cuido eu da calha
— se não gostar, que bata em retirada!


*

poemeu recente, entre outros exemplos que estão por vir pra deixar mães, sogras e avós de cabelo em pé.

domingo, 18 de outubro de 2015

noturno em Ottawa


são tantas horas que não sei se volto
ao quarto, que me aguarda quente e limpo
          ou vago pela rua como o esquilo

          que fuça o lixo e volta sujo o rosto

hesito como sempre não decido
até que a sorte e o azar de um dado louco
terminem de dançar e em branco sopro
sussurrem soma e seta ao pé do ouvido

esquerda esquerda esquerda e torno a ver
à luz que ainda há pouco me aquecia
o esquilo – noz na boca, dá no pé

a sorte vai com ele e o azar, na esquina
sorrindo mais hediondo que Voltaire
convida a ver o que é que sempre fica

*


Primeiro de uma série - a ver.

sábado, 25 de julho de 2015

desabafo para uma letra de música


para Ingrid e Lais


escute aqui, garota
eu quero lhe dizer
sua mãe pisou na bola
achando que o seu ex
não era bom pra sogra
apenas porque usava
uma calça saint-tropez



escute aqui, garota
eu quero lhe dizer
você também deu fora
achando que nem eu
podia lhe dar bola
apenas porque uso
bengala e pince-nez




escute aqui, garota
eu quero lhe dizer
e já não é de agora
quem vê cara não vê
que por dentro da roupa
somos todos iguais
e as mãos todas são bobas




escute aqui, garota
eu quero lhe dizer
que agora Inês é morta
tou fora e até mais ver




*

sexta-feira, 12 de junho de 2015

soneto do amor perdido




o amor que tive – se perdi, não sei
se espera ainda como quem o nega
ou nega a espera em letra morta, lei
bem sei que existe apenas uma – brecha

que amor jamais se perde, se conserva
ainda que a espera não pareça lei
e negue a brecha como quem à espera
declara morta a letra agora – sei

que tive o amor e se o perdi a pena
é minha, que de mim perdi – a lei
agora morta cumpre a lei, condena

à espera em letra morta, ou – não sei
se o amor que tive apenas finge a cena
e à espera nega a brecha, que eu bem sei

*

Outros poemeus, em breve, no livro quase saindo.

domingo, 17 de maio de 2015

Facecrônic@s


Blogue parado, literatura não. Andei ocupado com a costura do próximo livro de poemas, que já foi enviado à avaliação de editoras; passei a cuidar dos contos com mais atenção. Entre uma agulha e outra, fui levando a sério a história de fazer do status no Facebook a coluna de jornal que não assino. E vão brotando por lá algumas croniquices. Para que não naufraguem na linha do tempo, criei novo blogue, só para elas. A quem interessar: Crônic@s.

*

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Além do Arriscos



1) Saiu um conto meu na edição do Correio das Artes  do último dia 1o. de fevereiro. Para quem não o conhece, trata-se do suplemento cultural do jornal A União. Título: O sonho do pardal. Um trecho...


Passei o restante da tarde preocupado. Será que estava ficando igual ao meu irmão e logo mais começaria a tomar comprimidos? Corri ao quarto do meu pai, escondi de volta o livro debaixo do cobertor, tomei banho mais cedo do que de costume e resisti com bravura às investidas do pessoal da casa para descobrir o que havia acontecido ou estava para acontecer de tão grave. “Menino em silêncio, sinal de tumulto.”


... da história completa nas bancas, nas bibliotecas ou, quando chegar a hora, no livro.



*



2) A revista Flaubert publicou em sua edição #12 o meu conto Triunfo.


Atenção #1: embora esteja tudo certinho no sumário e no rodapé, o conto saiu na p. 78 como de autoria de Rodrigo Forte.


Atenção #2: o conto é dedicado a João MATIAS, e não Martins.


A quem interessar, um trecho...


Ela quis mudar de assunto, voltar aos planos do pós-doutorado na Europa, mas eu insisti. Não vai me deixar na curiosidade, né? Afinal, encontrou ou não encontrou o dito cujo? Esfregou ou não esfregou a tese nas fuças dele? E ela, só risos acanhados – tergiversando. Bati o pé: me conta, em nome dos velhos tempos.

Ela contou.


... da história completa aqui.


*


3) Bruno Gaudêncio e José Edmilson Rodrigues organizaram em 2014 o Inventário Lírico da Rainha da Borborema, uma antologia de poemas em homenagem aos 150 de emancipação política de Campina Grande, publicada pela Editora A União. Meu poema pedregal (de poesia natimorta e versos sobreviventes) foi escolhido pelos organizadores para integrar o livro. A dupla também preparou uma antologia de contos, que está para sair, contendo o meu Dente por dente.

*

domingo, 11 de janeiro de 2015

A blasfemadíssima trindade





Então foi que Alá, ao ter notícia de que seu nome estava correndo os quatro cantos do mundo, encarnou em um dromedário no deserto da Arábia e se dirigiu a Meca para inteirar-se da situação.
Chegando lá, ouviu a conversa de um grupo de peregrinos que comentavam preocupados a atuação dos vingadores de Maomé em Paris e, sentindo pesar a corcova, exclamou:
— Maldito seja o dia em que me revelei aos humanos!
Então, metamorfoseando-se num melro, voou às pressas em direção à França para repreender os seguidores que usaram seu nome em sangue. E cantava pelos ares: “antes mil humoristas que matam de rir / que um amigo da onça que mata e não ri”.
Quando sobrevoava a Itália, encontrou um trinta-réis-ártico que voava em direção ao norte e pensou consigo: “deve ser Deus que retorna de alguma vistoria no sul, vou chamá-lo e ouvir seu conselho”.
— Ó, colega Deus, se fores tu que me cruzas a rota, plana um pouco e pousa comigo sobre aquele monte abaixo para que te peça um conselho, pois és mais velho e estás no ramo há mais tempo que eu.
Ouvindo isso, o trinta-réis-ártico foi ao encontro do melro e lhe disse:
— Ó, divino Alá, assim seja se é da tua vontade. Como deves presumir, já estou sabendo de tudo que houve e de tudo que haverá. O teu problema de hoje já foi e ainda é meu também.
As aves pousaram no grande e alvo monte abaixo. E Deus prosseguiu:
— Agora mesmo, estou voltando de uma visita ao Brasil. Vi hoje cedo que lá haviam estabelecido um culto relaxado a mim, que não dava muita trela para os padres, e decidi visitar o país.
— És feliz, se tens adeptos que não escutam as sandices dos imanes.
— Bem vejo que ainda és ingênuo. Quando cheguei lá, já se havia passado metade do meu dia, o que são quinhentos anos aqui. Descobri que meus seguidores estão ficando avessos ao riso e levando a sério as tolas proibições.
— Então, choremos juntos a nossa desventura, pois que nossos piores inimigos são nossos melhores amigos.
Mas Deus propôs a Alá que voassem juntos até o Neguev para recarregar os poderes em sua terra natal e ouvir o que Javé, mais velho e experiente que os dois, tinha a dizer.
Assim fizeram. Chegando ao deserto, encontraram a estátua de Javé soterrada e um riacho de lágrimas escorria de sua face, afluindo para um rio de leite e mel que desaguava no Mar Morto.
— Ó, divino Javé, tu que és mais velho e estás no ramo há mais tempo que nós, tu que tudo sabes e conheces a nossa desventura antes mesmo que dela falemos, diz-nos uma palavra de sabedoria.
— Bem vejo que vós ainda sois ingênuos. Pois eu vivia em meu templo com outros deuses e deusas celebrando a fertilidade até que aqueles loucos que cercavam Josias me apartaram do meu corpo, destruíram minhas companhias e sepultaram meu espírito na tinta de uma esdrúxula lei a que até hoje muitos dão cabimento.
Os três caíram então em silêncio, um silêncio que fez murchar toda a vida que lhes cercava num raio de mil e um quilômetros. Até que, sem nenhuma palavra pronunciar, pensaram consigo entre si ao mesmo tempo:
"Deixemos esse planeta e abandonemos essas criaturas à sua própria sorte. Conosco ou sem nós, meterão sempre os pés pelas mãos até que lhes sobrevenha a mesma desgraça que abateu os dinos. Eis a nossa maldição!" 
Pensando isso, fundiram-se numa só bola de fogo que a terra cuspiu em velocidade indescritível por medidas humanas. E a bola desapareceu no vasto vácuo sem deixar rastro no céu. 

*