sábado, 26 de fevereiro de 2011

O achado de Borges



Eu tenho poucas idéias e sempre as expresso várias vezes.
Jorge Luis Borges, em ‘Sobre os sonhos e outros diálogos’


Há quem afirme serem três os elementos da narrativa: a personagem, o enredo e a idéia. O enredo faz a narrativa ser o que ela é – uma sucessão de fatos; a personagem permite a identificação do leitor com a estória narrada; a idéia é o significado subjacente, ou seja, aquilo que o autor quis dizer. Do mesmo afirmador, lê-se que a narrativa contemporânea caracteriza-se pelo predomínio da personagem complexa em detrimento do enredo simplificado, em uma inversão do que costumava ocorrer em tempos pretéritos – os de Dom Quixote, por exemplo: enredo complicado, personagem simples. E as idéias, onde foram parar?!    
Sou um obcecado por idéias; procuro-as em todo lugar, aprecio as alheias e cultivo minhas próprias ramas. Diante de qualquer conto ou romance, chego a descuidar do enredo e ignorar as personagens; perscruto as idéias, desejo-as, persigo-as com a volúpia de um noivo que desbraga o vestido de sua donzela na noite de núpcias. Se não as encontro, subo as paredes e mato cachorro a grito. Mas, se as detecto e as possuo com fúria, o que tenho? O prazer, o gozo de acrescentar às minhas ramas um novo caixilho, com o qual dou panos para as mangas e prossigo na fabricação de outras idéias, novas idéias, sempre as idéias!
Eis por que Jorge Luis Borges tem me desnorteado desde o primeiro contato. Dois amigos investigam o mistério de uma enciclopédia e descobrem uma civilização imaginária; um espião da Alemanha foge da morte na Inglaterra e descobre que a realidade pode consistir em vários planos temporais distintos e entrecruzados; o universo é uma biblioteca infinita, composta de galerias hexagonais em cujas prateleiras se encontram todos os livros possíveis... E assim por diante, a cada conto de Borges, aflora a exuberância das fabulações, com suas personagens e tramas de dar coceira nos dedos; entretanto, as idéias... onde estão?
O que Borges quer dizer com a fantasia de um livro sem princípio nem fim? Há metafísica por trás de um ponto que contém todo o espaço-tempo do universo? Existe política nas reflexões de um prisioneiro de guerra alemão cuja carne sente mede – mas ele próprio não – diante da morte iminente? A crítica literária serve como pando de fundo para a apresentação da obra de um escritor que se propõe a reescrever o Quixote tão igual quanto diferente do engenhoso fidalgo de Cervantes? Quanta filosofia moral alimenta o testemunho do próprio Minotauro acerca de sua existência no labirinto e seu encontro mortal com Teseu?
Procurei as idéias de Borges em suas ficções até encontrar a transcrição de seus fascinantes diálogos com Osvaldo Ferrari. Ali, o argentino explica a si mesmo e faz entender por que remou contra a corrente de seu próprio tempo. Borges sustenta que a literatura é essencialmente fantástica e o realismo (aí incluídos os romances de costume e os protestos sociais) consiste em uma crise passageira com início no século XIX e prolongamentos no XX. Para ele, a literatura é alheia a qualquer utilidade política ou social, uma vez que seu princípio – assim como seu fim – é um só: a beleza.
Nesse contexto, onde ficam as idéias de Borges? Ele próprio esclarece:

[...] é muito comum que venham jornalistas e perguntem: ‘qual é a sua mensagem?’. E eu respondo que não tenho nenhuma mensagem – as mensagens pertencem aos anjos, já que anjo significa mensageiro em grego – e eu não sou, evidentemente, um anjo. [...] seria muito estranho que alguém começasse por algo tão abstrato como a moral, e que depois chegasse a uma fábula. Parece mais natural supor que se comece pela fábula. É evidente que as literaturas começam pelo fantástico. Bom, e nos sonhos – que vêm a ser uma forma muito antiga de arte –, nos sonhos não raciocinamos [...]

Assim, não é difícil compreender por que o preconceito de certos intelectuais pesou contra Borges durante sua própria vida: ele tratava de tigres, labirintos e espelhos, enquanto seus contemporâneos denunciavam a injustiça e planejavam a ditadura do proletariado. E precisamente nisto reside um elemento da importância de Borges para a literatura do século XX: ele contribuiu para manter em evidência o que se quis encobrir – o caráter primariamente fabuloso da literatura e o compromisso basilar desta com a beleza.
Digo isso e faço uma ressalva. Particularmente, creio na legitimidade de acrescentar-se à estética alguma ética. Já afirmei alhures que escrevo com a convicção de que meu texto deve ter alguma utilidade; admiro os philosophes da Ilustração e neles me espelho em alguma medida. Por outro lado, também admiro Borges e dele absorvo as lições com a mesma estima com que recebia as aulas de gramática de vovó Lozinha. Do encontro entre ambas as perspectivas, tento identificar o meio-termo: a fabulação como essência, a utilidade como acidente. Aliás, não é à toa que Voltaire, Borges e Machado de Assis são meus heróis literários...
No verbete sobre Borges em seu ‘Dicionário Amoroso da América Latina’, Vargas Llosa afirma que o argentino era tudo o que Sartre o havia ensinado a odiar: o artista evadido de seu tempo e espaço no reino abstrato da erudição e da fantasia. Entretanto, confessa Llosa, “na solidão discreta do meu quarto ou da biblioteca, como o fanático puritano [...] que sucumbe à tentação daquela carne que amaldiçoa, o feitiço literário borgeano acabava sendo irresistível. E eu lia seus contos, poemas e ensaios com um deslumbramento ao qual o sentimento adúltero de estar traindo meu mestre Sartre acrescentava um perverso prazer.”           
É bem provável que, enquanto seu colega peruano se entregava ao gozo secreto do pecado, Jorge Luis Borges estivesse em qualquer biblioteca de Buenos Aires à procura de algum livro de areia, tão seguro de sua própria arte e tão integrado à Argentina e ao mundo quanto o Averróis de seu conto, (ver trecho de 'A procura de Averróis', ao lado) que escrevia com a segurança do Sol e o sentimento do mundo dentro de si – uma tranqüilidade que só a dificuldade de traduzir uma palavra de Aristóteles para o idioma arábico pôde perturbar.



 (Jorge Luis Borges e o mundo na biblioteca.)


2 comentários:

  1. Muito bom. Cadê o trecho de A procura de Averrois

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    1. Agradeço, meu caro, a leitura e o comentário. Infelizmente, já retirei o trecho do conto de Borges. Em todo caso, o exto integra o livro 'Ficções'. Forte abraço e volte sempre!

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