quinta-feira, 28 de abril de 2011

O nome


(Em pouco mais de dois meses, o novo Arriscos ultrapassou a marca de mil acessos. Para comemorar o fato, posto aqui uma crônica inédita para os leitores. Agradeço a todos que freqüentam o blogue e contribuem para o meu lento processo de afirmação como escritor. Valeu!)


— Vai ser Felipe. É bonito.
— Nada de Felipe. Quando ele crescer, vão perguntar: Felipe com e ou Filipe com i?
— Então, a gente põe Filipe com i, que é só escrever como se pronuncia.
— É melhor chamar de João. É comum, todo mundo sabe escrever e não corre o risco de parecer nome inventado.
— Mas todo nome é inventado. Só Adão e Eva é que foram originais...
— Olha aí um bom nome: Adão. Está decidido.
— Por você, porque eu não decidi nada. Se for Adão, quando nascer uma menina vai ter que ser Eva.
— Aí não dá, não pega bem. Aliás, quem te disse que eu quero outro filho depois desse?
— Eu estou dizendo. Eu quero dois, um casal.
— Ah, certo! Então nasce outro menino e você vai querer tentar o terceiro e, quando eu menos esperar, vou ser pai de um time de futebol de salão com um gandula de trancinhas a tiracolo.
— Insensível! Olha, a gente já está se desviando do assunto. Daqui a pouco o bebê nasce sem nome.
— Ainda faltam dois meses!
— Mas eu quero mandar bordar o nome no enxoval. Falando nisso, tive uma idéia. A costureira tem um netinho lindo de fazer gosto. Semana passada, eu fui à oficina dela e...
— Ah, vamos lá, diga logo o nome do garoto!
— Pedro. Nome de santo, bonito e forte.
— Mas é muito comum. Não quero meu filho...
— E não foi você quem disse agorinha mesmo que João era melhor porque é comum?
— Bom, é que...
— É que nada! Você não tem bom gosto. Olha, que tal Alfredo?
— Alfredo não é o nome daquele cara que namorou você antes de mim?!
— Eu nem estava pensando nisso...
— Melhor assim! Em todo caso, eu pensei e isso torna o nome inviável. Fernando, eis o nome!
— É bonito, mas... humm... Fernando não era o nome daquele seu quase sogro que você adorava, até mais que o seu pai?
— É, mas quem disse que eu estava pensando em Waleska?
— Eu não disse nada. Você é quem está falando, seu safado!
— Calma... calma... bom, então estamos quites. Nem Alfredo, nem Fernando.
Houve um curto-silêncio. Ele começou a passear nos canais da tevê. Ela seguiu folheando a revista. Um ou dois minutos depois:
— Lembra aquele filme que a gente assistiu quando você falou em casamento?
— Ah, não, nome estrangeiro em filho meu nem pensar. É cafona!
— Não é estrangeiro. Aliás, o filme que a gente viu naquele dia era brasileiro. Você não lembra, hein?!
Ele fez cara de bobo. Ela fez cara de brava. Ele quis consertar:
— Vamos fazer assim. Faça uma lista com cinco nomes e a gente escolhe um deles. Eu prometo que não proponho outro.
— Então vou pegar lápis e papel.
— Não precisa. Você vai dizendo em voz alta e eu vou vetando até aprovar um.
— Humm... muito bem. Vamos lá!
— Ugo, sem ‘h’.
— Vetado.
— Wellington, com dois eles.
— Muito menos.
— Celinaldo.
— Inventado.
— Creysson.
— Está louca?!
— Então, vai ser Felipe.
— Ah, assim não vale. Eu tive boa vontade e você me armou uma cilada.
— Mas você vai ter que cumprir sua palavra.
— Não nessas circunstâncias. Se for Felipe, eu não registro o menino.
— Se for esse o problema, eu mesma vou ao cartório.
— Ah, não! Eu sou o pai. A obrigação é minha. Além disso, sem minha declaração de paternidade, o tabelião não vai pôr meu nome como pai do menino.
Ela sorriu, deu-lhe um beijo terno no rosto e lançou o olhar que sempre o desconcertava.
— Felipe, como meu pai, mas com o seu sobrenome. Depois, a gente tem uma filha e você escolhe o nome. Lígia, quem sabe...
— Minha mãe ficaria feliz.
Ele sorriu, deu-lhe um beijo terno no rosto e os três dormiram um sono sossegado.


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