sábado, 2 de abril de 2011

A razão de Voltaire



Comecei a escrever o comentário sobre a razão de Voltaire e, a certa altura, dei-me conta do óbvio: não tenho o conhecimento necessário para desenvolver as idéias que trago em mente. Aliás, esse tem sido o grande estorvo de minha vida: o descompasso entre o que pretendo dizer e a experiência (de vida e/ou leitura) que essas pretensões exigem. Às vezes, resigno-me e calo; outras vezes, simulo alguma experiência e tergiverso. Raramente, acerto o alvo como desejo.
Quando eu era garoto, perguntava-me diariamente o que seria quando me tornasse adulto. Nessa época, apareceu em minha casa uma edição especial da Veja sobre a juventude brasileira do fim de século; seus ídolos – garantia a revista – são um Zezé de Camargo ou uma Ivete Sangalo. Enquanto isso, eu me deliciava com as biografias de um José Guilherme Merquior ou um Sérgio Paulo Rouanet no sítio da Academia Brasileira de Letras e começava a concluir: quero tornar-me um humanista, capaz de versar sobre qualquer tema de história, filosofia ou literatura.
Consolidada a expectativa, percebi intuitivamente que o curso de História seria o caminho mais apropriado para conduzir-me à meta; afinal, ele me permitiria estudar não apenas a história política e econômica dos povos, mas também a história da cultura, o que me levaria à filosofia e à literatura. O desdobramento parecia-me nítido: meu empenho, a aquisição gradual do conhecimento desejado, o envolvimento com os programas acadêmicos e – quem sabe? – a pós-graduação em alguma grande universidade mundo afora...
Entretanto, forças terríveis conspiraram ao meu favor e o candidato a humanista tornou-se decorador de códigos e aprendiz de burocrata. Diga-se de passagem: um candidato bem sucedido. Decorei os códigos com afinco, prestei os concursos certos e, para alegria de todos e felicidade geral da nação, tornei-me um respeitável burocrata: emprego estável, contra-cheque invejado, carimbos afiados e aposentadoria integral ao fim de 35 anos inúteis... se um infarto fulminante não me resgatar deste absurdo no meio do caminho!
Em troca, sacrifiquei o humanista e hoje, como percebe o leitor, sou incapaz de escrever um breve comentário sobre a razão de Voltaire. Poderia socorrer-me de Leibniz e confortar-me com a idéia de quem ninguém escapa de viver no melhor dos mundos possíveis. Poderia empreender a jornada de Cândido e, ao final, desistir de compreender o sofrimento humano para resignar-me ao cultivo do meu próprio jardim, ou – para ser mais exato – dos meus próprios carimbos.
Entretanto, a tênue perspectiva de escapar da Bastilha, purgar minha escolha em longos anos de exílio e, finalmente, instalar-me em Fernay, essa tênue perspectiva faz-me resistir à suspeita de que uma colisão fatal a caminho do expediente é preferível ao próprio expediente. Assim, subirei do inferno ao purgatório e saltarei deste para a eternidade celestial – se houver... Para isso, será necessário aprender com o próprio Voltaire que não basta pensar por conta própria, é preciso desobedecer e agir por conta própria!
Os estudiosos garantem que Voltaire não foi propriamente um filósofo, mas um divulgador da filosofia; assim, seu contributo não teria sido a formulação de um pensamento original, mas a elaboração de textos originais, onde ele misturou filosofia e literatura como ninguém. Além disso, a fama de Voltaire estaria menos em seus méritos que na sorte de ter sido apropriado pelas instâncias oficiais como o símbolo de uma França livre-pensadora e comprometida com as boas causas da modernidade: a tolerância e o respeito à dignidade de cada ser humano.
Agir por conta própria e unir o argumento ao enredo, esses são os apelos de Voltaire que me atraem. Em seus textos, não lemos longos e herméticos discursos sobre uma razão abstrata que move o mundo e o indivíduo inexoravelmente. Ao contrário, os anos de exílio na Inglaterra fizeram do philosophe um empirista, avesso a qualquer idéia de uma razão pura ou absoluta. Para ele, os fatos são o princípio do conhecimento e a razão só pode ser adequadamente compreendida se misturada a eles.
Daí porque Voltaire prefere enredar a razão em vez de esquadrinhá-la por meio da argumentação lógica. Assim, quando confrontada com a história (ver o trecho destacado à direita de ‘Elogio Histórico...’), a razão percebe-se frágil e intermitente, capaz tanto de melhorar o gênero humano quanto de piorá-lo ou de ser por ele esquecida. Por outro lado, quando confrontada com o indivíduo, a razão mostra-se incapaz de perseguir sem tropeços um método de conhecimento que resista ao desafio das ruas. É o que lemos em ‘Mênon, ou a sabedoria humana’:

Mênon concebeu um dia o insensato projeto de ser perfeitamente sábio. Não há um homem a quem esta loucura não tenha passado pela cabeça [...] Tendo feito assim seu pequeno plano de sabedoria em seu quarto, Mênon pôs a cabeça à janela.

E o que ocorre? O projeto começa a ruir até chegar ao ponto em que o protagonista da história conclui ser “nosso pequeno globo terrestre o hospício do universo”. Trago para mim a lição de Mênon e me pergunto se o desvio de rota do meu projeto humanístico não termina tendo o mérito de advertir-me de que, ao atravessar a soleira de casa, nenhum ser humano controla em absoluto todas as rédeas de sua própria cavalgadura.
Em todo caso, a vida privada do próprio Voltaire foi um exemplo contrário ao de Mênon: tendo traçado seu projeto de vida, o philosophe identificou os meios de realizá-lo passo a passo e, driblando as dificuldades de seu tempo e lugar, obteve o êxito final. Há uma contradição entre autor e personagem? Não me parece; assim é a razão de Voltaire: dúbia, ora em progresso, ora em regresso, ora vencendo com o bem, ora perdendo para o mal, mas sempre em movimento...
Se meu projeto humanista será tragado pelo turbilhão da rua ou resistirá às perseguições do rei, somente se não sucumbir à burocracia terei condições de saber. Até lá, cumpre-me recolher os cacos viáveis e resignar-me a tergiversações como essa, no melhor dos mundos onde por enquanto me é possível sobreviver... 


(Voltaire e seu célebre "hideux sourire")

2 comentários:

  1. bom texto
    tua sobriedade calha melhor nos ensaios

    também gosto de Voltaire
    o melhor dele é que é um literato
    um dos melhores
    cheio de pequenas obras-prima
    e o que mais me impressiona nelas
    é quantidade de aventuras por página
    (parece um filme de ação)
    com a profundidade de pensamento

    se eu não me engano Voltaire disse que ler é uma conversa com os melhores pensamentos dos outros
    e é ótimo conversar com ele
    porque ele é um dos melhores

    quanto a profissão
    é uma desgraça
    eu também vivo esse dilema
    forças fraquinhas foram suficientes pra me levar pro mal caminho, simplesmente porque eu não tinha perspectiva de outro caminho
    e sem me dedicar muito prestei um concurso certo(errado, mas por não ter outra opção) que me mandaram fazer
    e, para alegria de todos e felicidade geral da nação, tornei-me um medíocre agente da lei
    que mesmo no mais baixo da hierarquia militar
    parecia ser o secretário de defesa dos EUA para os olhos da família
    emprego estável
    contra-cheque invejado por garis, professores e comerciários
    arma na cintura
    uma escala que às vezes faz mais inveja que o salário
    e aposentadoria integral ao fim de 30 anos inúteis... ou até 25
    é claro se eu não morrer também

    mas trouxe a grande vantagem de ser independente financeiramente e não trabalhar tanto quanto a maioria das pessoas, o que me dá mais tempo pra literatura

    às vezes dá vontade de morar em algum abrigo de prefeitura, virar mendigo e não me preocupar com porra nenhuma
    obrigação nenhuma

    mas isso exige uma coragem imensa que eu sou tenho pra escrever e nada mais

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  2. Caro Joedson, agradeço a leitura e o comentário. Voltaire é daqueles autores que leio com um largo sorriso no peito e uma incontida sensação de felicidade por ser um humano, e não um pardal ou uma esponja!
    Um grande amigo me diz sempre que, às vezes, para andar reto é preciso fazer uma curva. Esperemos que ele esteja certo...

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