quinta-feira, 19 de maio de 2011

Família, família; modelos à parte


O fim do mundo está próximo. A qualquer instante, abrir-se-á no céu a fenda luminosa por onde descerá a corte celestial, a fim de julgar os vivos e os mortos. Não haverá ampla defesa nem direito a recurso. Mal iniciada a sessão, pronunciar-se-á o veredito preparado desde o princípio dos séculos: os escolhidos serão libertados da carne falível para a eternidade incorruptível e os pecadores, recolhidos à penitenciária do fogo incessante aos cuidados do carcereiro satânico. Os sinais dos tempos são claros: a decadência da verdade e o triunfo da imoralidade. O último passo foi dado: o fim da família. Ó, vinde, Supremo Julgador Final!
Acalme-se, leitor imberbe. Não falo por mim, mas pela senhora pudica, capaz de corar as maçãs ao mero toque de sua língua no sanduíche de carne com salsicha. É ela quem nos garante: primeiro, a liberação feminina; depois, o divórcio; para complicar, a inseminação artificial; finalmente, a união homoafetiva. Se ainda há dúvidas, procurem o anticristo e os falsos profetas. Eles hão de aparecer nas madrugadas televisivas ou na crista da próxima onda gigante. Arrependei-vos e crede na Boa Velha! Ou desconfiai do que ouvis e segui-me com a nem-tão-má nova nas próximas linhas.
Há quem interprete as transformações recentes na organização familiar e nos regramentos da sexualidade humana como uma evidência incontestável da crise da família. Mais que isso: como um prenúncio do fim da família e o conseqüente apocalipse. Na outra ponta do cabo de guerra, entusiastas das mudanças disparam contra os que assim se posicionam uma rajada de acusações que começam com a etiqueta inofensiva de ‘conservador’ e acabam com o poderoso rótulo de ‘fóbico’. O confronto anda tão intenso que ambos os lados beiram a cegueira, pondo em risco não a família, mas um dos pilares da modernidade: a tolerância.
Como pensador do meio-termo, ofereço uma proposta de conciliação: o que está em risco não é a família, mas a hegemonia do modelo de organização familiar que se formou nos primórdios da civilização e perdurou até há pouco tempo como o único consensualmente aceito. Em outras palavras, meu bom leitor cristão: homens e mulheres continuarão casando-se entre si com o propósito de educar seus filhos e viver unidos até a morte, mas terão como vizinhos um casal heterossexual em segundas núpcias com seus filhos-enteados ou um casal de lésbicas e seus três filhos tão (in)felizes quanto os de qualquer casal.
Vamos, senhora, desloque-se da cadeira, inspire o ar de fuligem das ruas e se incomode além de sua própria perspectiva. Vamos, jovem rebelde, tome um bom banho de água fria, sossegue a chama incendiária e medite com Pável Petróvitch: não se pode desconstruir indefinidamente. Acomodemos nossos ânimos de lobo sob a pele sociável de cordeiros e façamos, juntos, uma viagem crítica às savanas africanas onde nossos ancestrais, os primeiros indivíduos da espécie homo sapiens, sobreviveram às caçadas predatórias de leões e hienas dando o passo definitivo em direção ao triunfo da civilização: organizaram-se em famílias.
A hipótese é da biologia evolutiva. Chimpanzés habitam regiões de acesso restrito à comida, por isso necessitam da força de seus machos para garanti-la – resultado: bandos patriarcais e relações hierárquicas (incluindo-se as sexuais). Bonobos habitam regiões de acesso fácil à comida, de modo que as fêmeas conseguem alimentar-se sem o apoio de músculos fortes – resultado: bandos matriarcais e relações horizontais (incluindo-se o sexo livre). Onde ficamos nessa história? Pertencemos à espécie primata mais próxima de chimpanzés e bonobos, mas temos dois diferenciais: abandonamos a floresta e desenvolvemos o cérebro.
Expostos aos riscos da savana, os seres humanos primitivos tornaram-se a comida de animais fisicamente superiores e tiveram que desenvolver técnicas de caça e pesca para obter alimento em circunstâncias adversas. Indivíduos isolados não tinham boas chances de sobreviver (morriam de fome ou saciavam a fome de algum leopardo) e essa possibilidade era ainda menor se o indivíduo fosse fisicamente frágil e tivesse uma prole para alimentar e mover consigo. Além disso, à medida que o cérebro desenvolveu-se e, com ele, a linguagem, surgiu a possibilidade de elaborar e transmitir a cultura.
Nessas condições, o verdadeiro contrato original foi firmado entre machos e fêmeas: eles ofereceram a força necessária para proteger e alimentar a prole, enquanto elas retribuíram assegurando que o filho seria do seu parceiro fixo. A garantia de que cada macho teria a posse exclusiva de sua fêmea reduziu as disputas sexuais e favoreceu a cooperação para a caça. Quanto à prole, os machos assumiram as responsabilidades provedoras, enquanto as fêmeas encarregaram-se de educar filhotes cujo cérebro desenvolvido passou a permitir a formação cultural. Resultado: nossos ancestrais evoluíram para sociedades patriarcais e hierárquicas.  
 À medida que as sociedades primitivas constituíram as primeiras instituições culturais (basicamente, formas rudimentares de governo e religião), estabeleceram-se as linhas fundamentais do modelo legítimo de família que se tornou quase exclusivo: famílias monogâmicas e duradouras, formadas pela união entre um macho não necessariamente virgem à época da união e uma fêmea necessariamente virgem à época da união. Se pensarmos bem, não é à toa que precisamente as autoridades civis e religiosas têm sido as principais protetoras desse modelo desde que ele foi estabelecido até hoje.
Aqui, há um detalhe importantíssimo costumeiramente esquecido debaixo do tapete. A liberdade sexual foi contida, mas os impulsos sexuais não foram eliminados. Para os machos ainda não acasalados ou insaciáveis por suas parceiras, a saída não tardou: a prostituição feminina, em relação ao que as autoridades mantiveram sempre um acordo cínico (rejeição religiosa e tolerância civil). Já as fêmeas não tiveram a mesma sorte: sobrou-lhes a vigilância estrita de pais, parceiros e autoridades, além do risco de tornarem-se os insumos da prostituição caso pulassem o cerco das regras de virgindade e fidelidade.
Com o passar do tempo, cada sociedade lapidou este modelo segundo a cultura específica que ela desenvolveu. À medida que as razões evolutivas de sua origem sedimentaram-se nas camadas inferiores, justificativas de ordem cultural vieram à tona e um importante ingrediente juntou-se às famílias, conferindo-lhe verniz característico: o afeto. O amor não é uma invenção do cinema; ao contrário, desde cedo ele disputou espaço com a mera conveniência como fator de aproximação entre os pares e identificação destes com sua prole. Disto, resulta um aspecto muito importante a ser considerado por reacionários e libertários hipermodernos.
Normalmente, a defesa do modelo tradicional de família baseia-se no argumento da natureza: é natural que homens e mulheres unam-se conjugalmente e tenham filhos; qualquer forma de organização familiar diversa é antinatural – afirma-se. Por outro lado, os defensores das formas alternativas contemporâneas argumentam que o modelo tradicional não passa de um artifício cultural, de maneira que nosso estágio civilizatório comporta a convivência daquelas com este último. Há tanta razão em ambos os lados que me parece perfeitamente possível um acordo de paz.
A biologia evolutiva revela que a família surgiu, de fato, para atender a propósitos primariamente naturais: ela foi uma das primeiras vantagens seletivas que os seres humanos desenvolveram para escapar da eliminação natural. Por outro lado, nós somos a única espécie viva cujos indivíduos precisam da autorização de pais, sacerdotes e magistrados para fazer sexo. Logo, se entendermos por natureza o conjunto daquilo que é necessário e universal, dificilmente poderemos afirmar que os ritos do casamento são naturais. Enfim, a natureza nos empurrou para a organização familiar e lançou as bases de um modelo que a cultura elevou a graus sofisticados de elaboração.
Nesses termos, em que consiste o armistício proposto? O que a natureza exigiu dos seres humanos foi o agrupamento em família como meio de sobrevivência às adversidades e formação cultural da prole. Essa exigência permanece mais que atual; subvertê-la implica pôr em risco, primeiramente, a sociedade e, a longo prazo, a própria civilização. Uma evidência disso é fornecida pelo desajuste das crianças que crescem sem orientação parental, ou pelas vantagens afetivas e econômicas da vida conjugal. Por outro lado, a hegemonia do modelo tradicional de organização familiar tem raízes em razões naturais que não persistem e condicionamentos em circunstâncias culturais diversas das atuais.
À medida que as mulheres tornaram-se provedoras de si mesmas, os homens passaram a ser economicamente dispensáveis e qualquer argumento em defesa de sua superioridade perdeu espaço na luta pela sobrevivência. Resultado: o contrato original entre machos e fêmeas entrou em crise e, com ele, a hegemonia do modelo tradicional de família. Não é à toa, portanto, que a liberação feminina no Ocidente, em meados do século XX, foi o primeiro passo em direção ao surgimento dos modelos alternativos de organização familiar em torno dos quais se disputa o cabo de guerra no princípio deste século.
Por outro lado, o modelo hegemônico foi culturalmente elaborado e condicionado ao longo dos milênios civilizatórios. Isso implica a possibilidade de as transformações culturais de determinada época histórica, se autorizadas pelas condições naturais favoráveis, ensejarem não só a alteração daquele modelo, mas também o surgimento de formas alternativas. É evidente que em nosso tempo se verifica a conjunção de ambos os fatores: a natureza não exige mais a exclusividade do modelo hegemônico de família e a cultura autoriza a exploração de novos modelos, com base nas regras da liberdade e a respectiva responsabilidade.
Ocorre que as mentalidades só mudam a reboque dos acontecimentos, o que exige dos partidários das mudanças certa dose de paciência com os opositores. Por sua vez, os conservadores necessitam de um pouco de empenho crítico para ceder espaço à tolerância e reconhecer que sua forma de vida não é necessariamente a única correta. É possível para mim optar por viver até a morte com a mulher que amo e, ao mesmo tempo, conviver pacificamente com minha mãe em segundas núpcias com um homem que não é meu pai, ou com meu tio-irmão gay e seu marido mais novo do que eu.
           É possível para mim, ou para qualquer outro ser humano.



Ivan Turguêniev, escritor russo do século XIX e autor do romance Pais e Filhos, onde se lê o célebre diálogo entre Pável Petróvitch e seu sobrinho, Arkádi, sobre o niilismo. Imagem disponível aqui. 

 

5 comentários:

  1. Thiago, há um linque que explica bem direitim essa questão do ponto de vista evolutivo: http://www.formspring.me/Evolucionismo/q/193211389135851829

    Em resumo, prefiro acreditar que a forma de relação interpessoal básica humana é a bissexual, sendo tanto a heterossexualidade quanto a bissexualidade extremos adotados culturalmente pelos seres humanos, e baseados em estereótipos, como dizer que todo efeminado ou toda masculinizada são homossexuais, quando, na verdade, podem não ser.

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  2. muito bom LORDE
    eu tô com medo dos fanáticos homossexuais
    daqui a algumas décadas pode haver leis que proíbam alguém de ser heterossexual como ainda há contra homossexuais

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  3. Meus caros, agradeço a visita e os comentários!

    Félix, não tenho elementos empíricos para tomar partido acerca de qual é a relação básica. Conheço muito superficialmente as investigações de Alfred Kinsey nos EUA e, se entendi bem, ele propôs uma escala abrangente de todos os comportamentos, da heterossexualidade exclusiva à homossexualidade exclusiva, passando pela bissexualidade e outras variações.

    Joedson, não tenho ilusões como a de Marx (o proletariado no poder minaria o próprio poder). O poder não se elimina, ele se reproduz e reprime. Não tenho dúvidas de que, se a homossexualidade fosse o comportamento socialmente padronizado, os heterossexuais seriam ferozmente discriminados.

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  4. Boa Thiago.
    Belo texto, equilibrado como o autor.

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  5. Jairo, meu caro, agradeço a leitura e o comentário. Na verdade, o equilíbrio (no texto ou na vida) é um aprendizado sobre a corda bamba: posso ir em frente ou me espatifar no chão...
    Forte abraço!

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