terça-feira, 28 de junho de 2011

A ladeira sem prumo (ou A Gaiola de Pedra), por Betomenezes


O escritor paraibano Betomenezes tem se dedicado a uma tarefa legal: fazer leituras prosopoéticas de textos de outros poetas do estado. Agora, chegou minha vez e Beto criou um belo prosopoema baseado em meu poema pedregal. Boa leitura, caros leitores!


Desde que sei de mim, me vejo sentado neste meio-fio, no meio de uma ladeira. Minhas pernas esticadas, o córrego de lama em correria sob as coxas. Eu olho pra cima e pra baixo. Faróis de ambos os lados dos carros que não me enxergam. A água desce sob as pernas, nítida em sua essência, e fico, na idade média dos sentidos.
No ser de tabaco que eu fumo, imagino mil imagens, por quase uma polegada, que me levam daqui. Tenho entre os dedos uma sinagoga com luzes no topo, o papel é a tinta branca que vai corroendo com as décadas. Torres em miniatura amarelando minhas unhas.
Lanço a piola aos pombos invisíveis e sigo à pedra. Dou passos vazios em direção a passos vazios; e a prisão, mantida comigo desde sua nascença, se chega, pede uma beira. Eu, cedo, cedo. Ela me engole.
As paredes me acobertam por um lado, por outro lado, por outro lado, por outro lado, por outro lado e por outro lado. São de sólida rocha, sólida por dentro. É bem provável que também por fora. A fumaça que sai é mais rocha de qualquer outra rocha. Sou uma ratazana metida no meio desta gaiola de pedra que me acompanha coma fidelidade de uma sombra.
A pedra queima nos meus dedos, espero que os poucos minutos de inconsciência premeditada venham. Quando chegam, deito minhas costas na metralha de prisões destruídas que por ironia me aninham, feito um pássaro de tabaco em um saco de farpas e alumínio.
O rio de miséria continua a fluir sob minhas pernas e me incomoda os sonhos de paranoia; e de lá me tira, sacudindo dos jardins secretos, as margaridas. Meus lábios racham e eu acordo pra me remendar da umidade do amanhecer. A navalha da luz me apresenta às paredes. O quadrilátero onde me enterro acordado é, sem sorte, o mesmo, sem mudança de cores, de textura. A fumaça já se foi da cabeça e agora não há nada que me impeça de chorar, só eu mesmo. Não tenho furos, buracos pra vazar. De dentro de mim não há fuga, só secura. O que é meu é meu. O que é meu é feito víbora condenada a desenhar as vírgulas do deserto.
O sol se põe novamente. Em alguma varanda de um algum palácio deve existir alguma beleza neste desmantelar do dia. Aqui no meio da ladeira, só pressinto a vela acender entre os meus dedos, o deserto esfriar, a fumaça novamente quer se mostrar presente. Meus olhos ardem ao olhar a lua. Fragmentos de pequenas facilidade são pedaços de mim que vão indo: meus sapatos, minha televisão, meus músculos. Sou carne corroída sobre osso. A minha alma, então, sapateia sobre a incerteza da brasa apagada. E deste jeito vou ascendendo sóis que amanhecem bem logo os meus novos dias de sequidão se encurtam fissurados. Amanheço luas.
Quero me livrar desta gaiola sepulcral. Quero abandonar o meio da ladeira deste pedregal que me desapruma desde nascença. Ou escorro com o rio límpido dos esgotos desembocados das casas alheias, aos bocados que vão se retirando de mim. Ou bato minha asas com um belo demônio e peço socorro as alturas. Não sou anjo, já fui muito tempo quando minha mãe me chamava assim. Não sou feito aos pedaços, um dia serei, quando amadurecer a minha carne sob a terra.
¿Quem dobrará a esquina pra me redimir com perversa salvação? ¿Uma noiva vestida de névoa? ¿Um mensageiro em cavalo negro? Torço pra que um deles seja meu salvo conduto. Que o meu juízo final venha logo, não em pequenas fissuras, a trotes atrozes de motores a quatro tempos, no berro do ferro arrebatador de carne. Que meu sangue escorra ou se eleve aos céus, como castelos andantes ou barcos de papel.

***

pedregal

entre pedras... viver?

          sonho de répteis
          não de humanos

entretanto as águas que correm
são fortes e tantas que os furos

          comprimem as casas
          e as casas comprimem
          os homens

não se tiram poemas de pedras
no entanto na terra escorre
a promessa:

          corações
          peregrinos
          atravessam
          o deserto

***

Esse e outros poemas no livro poesia natimorta e versos sobreviventes, à venda na Livraria Cultura (Campina Grande), em Zarinha (João Pessoa) ou pelo e-mail fook_braga@yahoo.com.br

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Um comentário:

  1. Beto está nos brindando com grandes textos. Os últimos, mais líricos, estão uma beleza.

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