sexta-feira, 10 de junho de 2011

A língua de Lozinha


A César, o que é de César; a Deus, o que é de Deus e a cada época, suas polêmicas. O que seria de nossas vidas sem uma polêmica? Água, pura água; vital, mas insípida, incolor e inodora! Há quem considere serem assim os tempos que correm: não passamos de indivíduos com o umbigo na carreira e nas compras, sem nádegas para um banco de praça ou paciência para um bom e velho confronto ideológico. Ora, lamentador querido, troque o banco na praça pela piada no Twitter e encontrará lugar adequado; substitua o embate entre capitalistas e comunistas pelo confronto entre... Vejamos... E agora? Há tantos! Qual escolher?!

Acompanhe-me. Não tenha medo. Corrija-me, se estou errado. Seu vizinho de cima é a favor do aborto, mas o de baixo é contra – já podem armar um barraco. Seu cunhado defende a eutanásia, mas sua irmã a reprova – já podem pensar no divórcio. Sua esposa apóia a união homoafetiva, mas uma colega considera isso uma sem-vergonhice – já podem ir à Justiça. Você desenvolve pesquisas clandestinas com células-tronco, mas seu bispo condena os cientistas ao inferno – já podem pensar em novo Cisma. Seu amigo insiste em pedir “os livro em cima da mesa” e você já pode chamá-lo de burro, em nome da Gramática Normativa da Língua Portuguesa...

Ah, o embate entre a Lingüística e a Gramática Normativa! Dois velhos casais de conhecidos encontram-se, depois de muitos anos, na Praça de Alimentação do Boulevard:  
— Alto lá! Não pode ser! Mas o quê?! Há quanto tempo não vos encontramos! Por onde tendes andado?
— E tu num ouviu falá que a gente tinha se mudado pro Sergipe não? Vocês tão esquecido demais, hein?
Ao que o primeiro reage:
— Vamos, meu amor, não nos juntemos a esta lingüisticalha!
Ou então, o congressista sobe à tribuna da Câmara dos Deputados e apresenta o projeto de lei que extingue a escravidão normativo-gramatical no país:

Art. 1°. Fica decretado que todos os falantes da língua portuguesa no Brasil, em suas mais diversas variações, têm o direito de falar como bem entenderem.
Parágrafo único. Os falantes que forem impedidos de exercer livremente o direito estabelecido no caput poderão declarar-se separados do território nacional.
Art. 2°. Revogam-se as disposições em contrário.
Art. 3°. Esta lei entrará em vigor na data da sua publicação.

Sinceramente, este embate deixa-me desnorteado!

Escuto a voz da razão. São os lingüistas que falam:
— A Lingüística[i] é uma ciência; logo, não trabalha com a dicotomia certo/errado, embora reconheça a repercussão política desta. Assim, ela descreve seu objeto e constata que este varia no tempo e no espaço. Com o passar dos anos, formas lingüísticas caem em desuso, outras entram em uso e ainda há as que eram socialmente desprezadas como incorretas, mas se tornaram aceitas como padrão. Ex.: no século III, noscum e voscum eram tidas como expressões do latim vulgar, mas evoluíram paras conosco e convosco, tidas como formas cultas do português do século XXI. As línguas também variam dentro da mesma época, conforme circunstâncias geográficas, sociais, etárias, profissionais, comunicativas etc. Ex.: diplomatas sentados a uma mesa de negociação costumam dizer um ao outro algo como “o governo que o senhor representa faz exigências que nosso país não pode aceitar, sob pena de arriscar-se a economia nacional”, enquanto deputados em transações clandestinas possivelmente dizem algo como “tu viu aquele negócio pra mim? Fala lá pro AP que ô ele faz o combinado ô num tem voto”. Por outro lado, a mesma pessoa costuma valer-se de variantes distintas conforme a situação comunicativa em que se encontra. Ex.: é possível que uma juíza de direito diga ao marido em casa “me passe esses livro aí, benzinho”, enquanto ordena ao oficial de justiça durante a audiência “passe-me esses papéis, por favor!”. As variações não colocam a língua em risco; ao contrário, elas integram seu funcionamento habitual. A Lingüística não faz juízos de valor, apenas descreve; entretanto, os lingüistas sabem e ensinam que o prestígio de cada variação está diretamente ligado ao prestígio do grupo social que a utiliza, de modo que a ascensão social de um indivíduo depende de ele fazer uso da variante padrão.
Não posso conceber colocações mais sensatas do que as de acima. Algum leitor conseguiria reunir elementos empíricos suficientes para provar que os fatos da língua não ocorrem exatamente como descritos pelos lingüistas? Creio que tal esforço seria inteiramente vão! Qualquer pessoa pode planejar o emprego constante e exclusivo da variante padrão, mas dificilmente irá manter-se fiel ao plano à medida que puser o pé na rua: o celular tocará, um encontro fortuito com algum conhecido ocorrerá ou uma raiva grande sobrevirá e, facilmente, ela nem atentará que a gramática normativa condena à fogueira a promiscuidade entre pronomes e formas verbais de segunda e terceira pessoas.
A Lingüística é tão sensata que reconhece a função reguladora das prescrições gramaticais: quem não falar nem escrever conforme aconselham Evanildo Bechara ou Celso Cunha, em situações que o exijam (no trabalho ou na conferência, p. ex.), encontrará dificuldades – possivelmente, fatais – para que as pessoas confiem na sua comunicação. Isso porque as sociedades organizam-se hierarquicamente e os hábitos lingüísticos dos que estão no topo assumem a condição de regra. Nesse contexto, a gramática normativa é o instrumento pelo qual aqueles que estão em condições de comandar cristalizam determinadas formas e as instituem como corretas.
Até onde conheço, as críticas gramatiqueiras a essa argumentação costumam ser duas:
1) a Lingüística põe fim à noção do que é certo e prega o vale-tudo na língua;
2) como ciência, a Lingüística pode até contentar-se com a mera descrição dos fatos; porém, quando se trata de educar crianças na escola, deve-se ensinar a Gramática Normativa.
Quanto à primeira crítica, ela é parcialmente válida. De fato, a ciência não opera com a dicotomia certo/errado, todavia isso não implica que ela pregue o vale-tudo. Para os estudiosos, as línguas dispõem de uma gramática espontânea, assimilada de tal maneira pelos falantes que a estes é impossível utilizar palavras ou construções sintáticas inadmitidas pela referida gramática. Ex.: a menos que tenha intenções artísticas ou contestatórias deliberadas, um falante do português não diria algo como “minha mãe’s carro está na garagem” ou “teu é feio cabelo o muito”, mas “o carro da minha mãe está na garagem” e “o teu cabelo é muito feio”.
Por outro lado, a Lingüística constata que tanto há falantes empregando a expressão “tu foste” quanto os que utilizam “tu foi”; em seguida, ela sustenta que não há acerto e erro, mas adequação e inadequação, conforme essas formas sejam empregadas em uma conversa formal ou em um bate-papo descontraído. Calma, senhor, não esbraveje. Até mesmo a Gramática Normativa é amiga das flexibilizações e, constantemente, ela procede de acordo com uma lógica que poderíamos formular assim: X é correto e Y é errado, mas... se algum escritor de renome usa Y, então Y torna-se admitido. Duvida de mim?! Abra Celso Cunha e vá ao capítulo da regência verbal. O que ele prescreve?

Exemplo 1

O verbo ‘assistir’ é transitivo indireto, quando empregado com o sentido de ‘ver’. É correto dizer ‘Aquilo a que assisti é bom’ e incorreto afirmar ‘O que assisti é bom’. Mas... José Lins do Rego escreveu: “O que ele assistia no Recife...”. Logo, o erro torna-se admitido.

Exemplo 2

O verbo esquecer é transitivo direto e sua forma pronominal (esquecer-se), transitiva indireta. É correto dizer ‘Esqueça que existo’ ou ‘Esqueça-se de que existo’ e incorreto afirmar ‘Esqueça de que existo’ ou ‘Esqueça-se que existo’. Mas... Machado de Assis (Oh! – ouço o baque de algum queixo no teclado) escreveu: “Não se esqueça que foram criadas juntas”. Logo, bem... e agora, Joaquim?... Maria me acuda!... Machado é Machado... de rocha?... de Assis!

Quanto ao problema da educação escolar... Senhoras! Senhores! Onde se defendeu que a variante padrão deva ser desprezada ou não ensinada tal como é? Em geral, os lingüistas sustentam que o ensino do português seja abrangente, mostrando-se aos alunos o funcionamento completo da língua, em todas as suas variações e com as conseqüências sociais e políticas do uso de cada uma delas. Assim, a Lingüística pretende precisamente o oposto do que lhe atribuem as vozes discordantes: não o empobrecimento do ensino da língua materna, mas seu enriquecimento, através do trabalho com a Gramática Normativa e além dela.
A essa altura, o gramatiqueiro renitente pode até sentir-se tentado ao armistício. Ele pára, reflete com prosódia e ortoépia, mas finalmente reanima o pomo da discórdia:
— Tudo bem! Há variações, ensinar todas implica algum enriquecimento e dizer às crianças que o uso de apenas uma delas confere prestígio, com tudo isso posso concordar; porém, não admito que as variações sejam apenas um problema de adequação ou inadequação! E o certo/errado, onde fica?!
Aqui, sou eu quem pergunta:
— Afinal, onde está o SER da língua, necessário e eterno, que garante a existência do correto? Em deus, no cosmo, em nossos genes, nos exemplos 1 e 2 acima elencados, ou na sua e na minha necessidade de que ele exista, para nos sentirmos seguros de falar de acordo com as regras de um sistema imutável, e não em meio ao caos quântico?!

                                        Ferdinand de Saussure, o lingüista de Genebra

Ai! Quanto vacilo! Se eu houvesse concluído o parágrafo acima com um ponto, poderia tê-lo dado como final e encerraria ali nosso papo; entretanto, exclamei a pergunta, incluí-me na necessidade e, agora, tenho dois ou três globos oculares varrendo este parágrafo à espera da minha resposta. Por onde avanço? Ou recuo? O raciocínio cansou, algumas luzes apagaram-se e a razão calou-se! Agora, recordo a voz suave e consoladora do sentimento... É vovó Lozinha quem fala em mim:
— Meu filho, ouça e compare. O que é mais belo? Perguntar “cadê o lápis?” e responder “tá aqui na mesa”, ou indagar “Que é do lápis?” e devolver “Ei-lo sobre a mesa!”? Ouça bem, Thiago, escute sua avó e nunca esqueça: é belo expressar-se conforme a gramática! Além disso, é dever do bom cidadão falar corretamente sua língua.
Quando eu nasci, ganhei de presente uma avó que era professora de gramática. Cresci profundamente ligado a ela. Ao longo das infinitas tardes que passei em sua casa, colhi uma a uma as lições que ela me ofereceu com amor por mim e paixão pelas normas. Para vovó, o que Anézio Leão, Celso Cunha, Napoleão Mendes de Almeida e tantos outros prescreviam em suas páginas não era apenas correto, mas, sobretudo, belo. Sim, meu caro lingüistiqueiro, eu sei que não há o correto e admito a possibilidade de vislumbrar beleza nas outras variantes, porém... a questão é de outra natureza... porque era vovó, era eu; porque sou eu, é vovó; porque somos nós, é a gramática... 
Posso sentir-me inadequado em determinadas situações comunicativas e, dilacerado pela culpa, recorrer à Unidade Acadêmica de Letras da Universidade Federal de Campina Grande, prostrar-me aos pés de qualquer uma das suas gentis pesquisadoras e confessar, entre o pavor e a esperança:
— Pequei, professora, mas não porque hei pecado...
— Meu jovem, o que tens a dizer à Douta Academia?
— Eu empreguei o pretérito mais-que-perfeito em meu blogue, pedi a manteiga à minha irmã usando a ênclise, obedeci às regras da regência verbal e da concordância nominal enquanto conversava com amigos no Parque do Povo e fiz menção a um grupo onde havia homens e mulheres usando o pronome masculino no plural!
— Estás arrependido de tanta inadequação?
Paro. Penso. Hesito. Entrego as armas:
— Não, professora! Não estou!
— Pretendes adequar teus hábitos?
— Também não!
— Assim, eu não te absolvo...
E, movendo a mão direita no ar como se traçasse uma cruz imaginária, ela completa:
—... em nome do Bagno e do Perini e do Sírio Possenti. Vai e, quando abandonares o preconceito lingüístico, retorna aqui.
Por outro lado, posso sentir-me neurótico em virtude de algum conflito dilacerante entre a censura gramatical e o id lingüisticamente devasso, de modo que o ego não consiga equilibrar a norma e o impulso, desabando no divã à beira do colapso:  
— E agora, doutor?! Um lado de mim é razão e me diz que devo falar e escrever de qualquer modo, desde que seja adequado às circunstâncias e cumpra a função de comunicar. Outro lado é paixão e procura o que é belo, mas o belo está na gramática e, quando relaxo e abandono suas regras, sinto-me feio e errado. O que sou?! Aonde vou?! Como falo?!
Então, ouço o roçar das calças do psicanalista reacomodando-se na poltrona. Ele pigarreia, ergue os óculos nariz acima e sentencia com fleuma:
— Mate sua avó.
Espanto-me:
— Mas ela está morta há quase uma década!
Ele explica:
— Mate-a simbolicamente.
— Não posso! Não quero!
Um, dois, três, quatro minutos de silêncio...
— Sua sessão expirou. Vá e reflita mais.
Finalmente, posso receber do colega de ofício um conselho honesto:
— Seja livre, simplesmente!
Ao que respondo:
— Eu o sou! Aprendi com vovó a ver beleza na gramática, mas me apropriei do aprendizado e o reformei ao meu próprio modo: fiz da norma um estilo de escrita e uma marca da personalidade. Assim, convivemos pacífica, livre e triangularmente.
Ainda trocamos algumas palavras e nos despedimos do bate-papo no Orkut, assim como me despeço do leitor, na esperança de um acordo. Façamos assim: cada qual use a língua conforme lhe apraz e suporte as conseqüências de sua opção. De minha parte, fico com a gramática e a transmitirei aos meus descendentes. Aqui e acolá, entretanto, algum desleixo ou desvio – por que não? – e a torcida para que, no futuro, algum gramático registre: X é correto e Y é errado, mas... o escritor Thiago Braga usou Y, portanto Y torna-se admitido.

                                                      Anézio Leão, o gramático de Campina Grande


[i] A “fala” dos lingüistas é uma adaptação, com acréscimos e subtrações, que fiz de uma nota divulgada pela Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN) e postada em 22/5/2011 no blogue do Prof. Rinaldo de Fernandes: http://rinaldofernandes.blog.uol.com.br/

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3 comentários:

  1. Caro Thiago,
    o texto foi bem escrito, mas alego que minha falta de julgamento em certo/errado não se deve à linguística, mas à filosofia de vida. Não encaro as coisas como certas ou erradas, ou como vícios e virtudes, ou pecados e santidades, mas apenas como causas e consequências. Se a proibição de uma variante causa ainda mais distância entre as classes, vejo aí uma causa amoral e uma consequência imoral. Se estou diante de um falar popular no fórum saindo da boca de um juiz, vejo a mesma causa amoral, e uma consequência igualmente amoral. Ou seja, não é uma questão de ciência puramente, mas de não julgar nada a partir do que me passaram, mas sempre encarar o novo como passível de todas as possibilidades.

    No todo,
    fica na paz, mô fi,
    Félix Maranganha.

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  2. belo
    parabéns
    como é bom elogiar

    é muito pedir que alguém que se diz escritor escreva bem
    e eu não estou falando de gramática

    independentemente das ideias o texto é bonito
    e isso pra mim vale mais que as ideias

    mas falando:
    quanto a gramática normativa a uso e a desuso
    concordo que ela é mais bonita
    mas não posso
    por causa da minha natureza
    nem quero
    por causa da minha arte
    abrir mão da força da gramática popular
    gosto de misturá-las

    eu desejo que tu continues como estás
    porque estás muito bem com a normativa

    abraço

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  3. Caros Félix e Joedson, agradeço a leitura e os comentários, amigos!

    Félix, concordamos e discordamos. Não creio que exista um padrão além-do-homem para definir correção e erro; entretanto, é próprio do ser humano criar e recriar tais padrões pela força, pela tradição ou pelo discurso, para mencionar três possibilidades. Você mesmo, ao dizer que acredita tão só na causa-conseqüência, termina exemplificando sua posição com uma causa amoral e uma conseqüência imoral. É possível falar-se em imoralidade sem pensar-se no erro?

    Joedson, seu elogio deixa-me feliz. Em todo caso, escrever é como subir uma ladeira íngreme. Há sempre a possibilidade do escorrego; portanto, nada de muita confiança...

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