quinta-feira, 23 de junho de 2011

poesia natimorta, por Jairo Cézar



Continuo mergulhado nas férias, embora já tenha voltado a escrever. O ofício de escritor é tão prazeroso que, na verdade, exerço-o como um grande divertimento. Hoje, deixo para os leitores o texto que o poeta paraibano Jairo Cézar, membro do Núcleo Literário CAIXA BAIXA, escreveu sobre meu livro de estréia:


À memória da poesia morta


‘poesia natimorta e versos sobreviventes’ é o livro inaugural de Thiago Lia Fook Meira Braga. Devemos dizer que é um livro bastante maduro para um iniciante. Thiago não comete os excessos dos poetas de primeira viagem; ao contrário, contém a sangria verborrágica que acomete os estreantes.

O livro editado pela Bagagem de Campina Grande é ilustrado por Flaw Mendes e divide-se em poesia natimorta, introspecções, intersecções e circunstâncias.
“somos eu e a poesia
natimorta...”

A seção ‘poesia natimorta’ é composta por um poema apenas, de título homônimo. Nele, em tom de constatação metalingüística, a voz lírica se julga impotente diante da feitura do verso, chegando a confessar no fechamento do poema que não apenas ele, mas também o próprio verso, estão condenados ao não ser.

“eu choro e suporto
apenas um mundo:
o meu”

A segunda seção, nomeada ‘introspecções’ é composta por treze poemas, cuja temática gira em torno de reflexões sobre o tempo e a morte.

Desta parte do livro, selecionaremos o poema ‘manifesto’ (p. 19) para uma breve análise.

Neste texto, a voz lírica Braguiana demonstra todo seu desconforto com relação ao mundo material e corpóreo.
 
“encontraremos juntos o vazio do mar”
 
Seguindo a linha aporética, o eu lírico, em uma reflexão hipotética, chega a considerar a morte da própria morte:
O tema predominante na seção ‘intersecções’, composta por quatorze poemas, é o amor.

O poema escolhido para observações foi ‘canção do amor em segredo’ (p. 51)

canção do amor em segredo

ele amou em segredo
                                    aos poucos
                                    voltou
             a ser
             criança:

Observem que no verso final, fica explícita a incredulidade da voz lírica na solução desse desconforto; ao contrário, mesmo com o fim da existência material e até da própria morte, o nada é o destino certo.

Neste poema, Thiago faz uma releitura das canções de amigo comuns na idade média portuguesa, onde o amor, que nunca que concretiza, vive apenas no mundo das ideias da voz lírica masculina.

A última parte do livro denomina-se ‘circunstâncias’, que conta com quinze poemas. Os textos desta seção giram em torno do cômico e alguns poemas são dedicados a escritores, como ‘itinerário para Mário Quintana’ (p. 77), ‘ode ao dicionário’, para Silveira Bueno (p. 89) e ‘para Fernando Sabino’ (p. 93).

Para superficial análise, escolhemos o poema ‘itinerário para Mário Quintana’. Nele, bem ao estilo do poeta gaucho, o poeta de Campina Grande carrega no prosaísmo aliado à filosofia do cotidiano, onde a voz lírica procura, no reflexo do espelho, sondar sem sucesso sua essência.

Eis um fragmento do  poema:

itinerário para Mario Quintana

enveredei pela rua
à espera de capturar
com as próprias mãos o vento

Para concluir, devemos dizer que o presente texto se propõe a abordar de forma superficial a obra do poeta Thiago Lia Fook Meira Braga. Seus textos carregados de lirismo e reflexões filosóficas merecem leituras bem mais apuradas, mas este não é o objetivo deste estudo, que convida o leitor a tirar suas próprias conclusões através da leitura de poesia natimorta e versos sobreviventes.


Esse e outros textos do poeta Jairo Cézar em seu blogue: http://escritosnoonibus.blogspot.com/.

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