terça-feira, 5 de julho de 2011

Diário de viagem - fragmentos


Sexta-feira, 10 de junho, 15h55. Finalmente, conseguirei o que há muito desejava: estar acima das nuvens durante o crepúsculo. O vôo parece uma ilusão: a aeronave ainda ostenta o nome VARIG e minha poltrona é 13A, mas a fileira 13 não existe. Quase não há passageiros e o problema se resolve facilmente. Depois da 12...
— Senhor, pode ocupar a 14A. Não haverá problema. – aeromoças não falam; sorriem.

17h30. O crepúsculo visto de cima das nuvens é uma estonteante indecisão entre o fogo e as cinzas. O globo gira em torno de si mesmo e seu olhar se reparte em dois hemisférios: seguir o rastro da laranja... Ou beber o mel da rapadura... Acendo a luz e ameaço um poema: uma, duas, três estrofes... E o sono vence.

19h30. No Galeão, novos passageiros começam a embarcar e o problema – que não haveria – insinua-se: há dez pessoas marcadas para seis poltronas em uma fileira 13 inexistente. O corredor da cabine paralisa e um princípio de confusão faz disparar o alarme. O sorriso da aeromoça cai como um extintor de incêndio sobre o problema. Passageiros acomodados, o que está ao meu lado explica:
— Noite de sexta. Todo mundo quer voltar pra casa.

23h. De Cumbica para o terminal rodoviário do Tietê. Na maior capital do país, é noite de sexta e há muita gente querendo voltar para casa.
— Saí tarde lá da USP e só consegui passagem pras onze e meia. Beijo, mãe! Até já!
...
— Ô, pai, só deu pra largar o escritório agora. Tô voltando, tá? Você me pega no Grau?
...
Lembro-me do cosmopolita paraibano que sempre me alfineta:
— Eita, cabra besta! Por que voltar pra o interior no fim de semana?!

[...]

Segunda-feira, 13 de junho, 20h. Retornei a São Paulo, depois do fim de semana com Isabel em Araraquara. Voltar a sentir a pessoa amada com os cinco sentidos, depois de três meses só por telefone e skype, é como senti-la novamente pela primeira vez. No Tietê, peguei um táxi para vir ao hotel, na rua Guarará. Lá pela altura da Av. 9 de Julho:
— Pelo seu modo de falar, dá pra saber que o senhor não é daqui.
— Não, não sou.
— Mas não dá pra saber de onde é.
— Sou de Campina Grande, na Paraíba.
— Mas o senhor fala tão bem!
Entrei no hotel e, enquanto preenchia a ficha, perguntava-me:
— Qual de nós dois é o provinciano?!

[...]

Terça-feira, 14 de junho, 11h. Passeio pelas ruas e alamedas dos Jardins. Um detalhe me pesca o lápis. Paulistanos e campinenses têm o mesmo hábito cafona: nomeiam seus condomínios residenciais com nomes estrangeiros ou alusivos à realeza. Mme. de Tal mora no Bay Port; Mr Sicrano, no Imperatriz Leopoldina Residence. Nos Jardins, colho mais uma prova de que precisava para minhas árduas defesas da arborização de Campina Grande: é possível plantar árvores na calçada – sem que suas raízes a destruam – e deixá-las crescer frondosas, sem atrapalhar a fiação elétrica.
Subindo a Rua Pamplona, vejo dois grupos de jovens encontrarem-se fortuitamente.
— Oi, vocês vão lá pra o evento da Bia?! – muitos risos e beijinhos no rosto.
Mas os relatos deslumbrados não dizem que essa é a cidade onde não há encontros fortuitos?

16h30. Estive no MASP. Na entrada, um poeta colhia contribuições para publicar seu livro de haicais. Apresentei-me como colega de ofício. Batemos um papo rápido e trocamos os endereços de blogue. Um recital lírico, uma exposição temporária e algumas gravuras depois, cheguei ao que me interessou: o segundo andar. Recebeu-me o busto de Voltaire, em uma das versões do seu célebre hideux sourire. O acervo permanente do MASP estava organizado em três amostras temáticas: retratos, divindades e romantismo. Há algo de sugestivo nessa disposição: a pose do poderoso, o ato do deus e o ímpeto do gênio...
Uma pintura em especial capturou-me a atenção. O retrato do Cardeal Luis María de Borbón y Vallabriga. O rapazinho acaba de completar 23 anos. O pai consegue-lhe o título de Cardeal da Santa Igreja e encomenda-lhe um retrato a Goya. Aí está: na mão esquerda, o livro sagrado; na direita, o anel cardinalício; de cima a baixo, as vestes vermelhas e o barrete no topo. Mas... Há algo estranho... Parece que a mão direita escorrega e a esquerda, abrindo o livro aleatoriamente, segura-o com displicência, como se o afastasse de si... O rosto volta-se para o lado contrário. Está sisudo, tenso. Se alguém aproxima o ouvido além da faixa amarela no piso, é capaz de ouvir-lhe o grito cristalizado:
— Que porra é essa?!
Imaginei o jovem cardeal desabafando com algum conselheiro:
— Queria casar e ter filhos! Não queria ser padre!
— Vamos, não chores. Sabes bem que só precisas cumprir tuas obrigações durante o dia. À noite e nos intervalos, entretanto, podes ir lá para tuas amantes. E, se tomares as devidas precauções, por que não ter um filho, a quem visitarias quando possível?
— Mas isso não é suficiente...
— Pensa bem. Não te casaste conforme desejavas; todavia, és cardeal!

[...]

Quarta-feira, 15 de junho, 11h30. Uma inquietação me percorre:
— Deve haver uma maneira de tornar a feira da Prata tão limpa, cheirosa e convidativa quanto o mercado municipal de São Paulo...

17h. A melhor parte da minha visita foi o passeio pelo centro da cidade. O quadrilátero sagrado demarcou minha andança pelo planalto de Piratininga. Abaixo, muito abaixo dos arranha-céus modernos... Além, muito além dos negócios contemporâneos...
São Paulo começou no colégio do Padre Manoel da Nóbrega. Ali, provando do pãozinho feito com receita jesuítica, imaginei missionários e nativos confrontando culturas em um passado que estaria esquecido, não fosse o fêmur de Anchieta exposto na capela e os resquícios das paredes originais da construção, separando a cafeteria do estacionamento.
No Mosteiro de São Bento havia uma platéia considerável para ouvir o coro dos monges entoando o ofício do meio-dia. Em pleno centro financeiro do país, onde celulares e pastas disputam a maratona global à velocidade do instante, encantou-me vislumbrar meia hora da rotina de uma dúzia de pessoas que ainda vive conforme o ritmo sereno das horas monásticas.
A Catedral da Sé é uma construção deslocada a novecentos anos e dez mil quilômetros. Suas colunas e ogivas góticas foram erguidas sobre os escombros da antiga igreja colonial, como símbolo de uma província que se espelh(av)a na Europa. Suas naves e bancadas abrigam o cochilo de um, a curiosidade de outro, o comércio de lembrancinhas e até a oração de algum fiel.
No Largo de São Francisco, visitei a Faculdade de Direito da USP. É o busto de um poeta, não de um jurista, que recebe os visitantes: Álvares de Azevedo convida ao interior das arcadas. Lá dentro, vi alunos de namorico, outros entretidos em joguinhos de celular e um número razoável deles na biblioteca. Na saída, o porteiro não soube indicar-me a rua São Bento, que já na calçada descobri começar logo em frente.

[...]

Quinta-feira, 16 de junho, 12h. Na cafeteria da Sala São Paulo, rabisco as estrofes de um novo poema. Essa viagem tem me feito descobrir algo importante: consigo escrever em trânsito. Acabo de presenciar o ensaio da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Belo. Assistir ao ensaio, em vez do próprio concerto, dá ensejo a certas curiosidades. Adquire-se noção mais exata do papel do maestro, por exemplo. Ele é uma espécie de Ouvidor Geral da orquestra; enquanto cada músico volta-se para o próprio instrumento, o regente conecta o ouvido a todos eles e responde pelo afinamento do conjunto. Os músicos fazem a morfologia; o maestro, a sintaxe.
Na platéia, o rapaz ao lado estava um pouco inseguro:
— Quando é para aplaudir?
A senhora da poltrona em frente estava um pouco perdida:
— Acabou?!

17h. Deixei o Museu da Língua Portuguesa com a impressão de que ele foi concebido para principiantes; sua função é atrair público não iniciado para os encantos da língua. É bom e bonito, mas não me acrescentou nada relevante. Talvez, a exibição temporária seja mais interessante; entretanto, não havia nenhuma em cartaz. No segundo andar, uma senhora perguntou-me se era permitido tirar fotos.
— Se for proibido, alguém aparecerá rapidamente para adverti-la.
Na Pinacoteca, a visita foi limitada. Ela está parcialmente fechada para reformas. O acervo de pinturas é uma bela antologia da arte visual brasileira do século XX. Das poucas esculturas à mostra, só foi possível extrair a mesma e velha pergunta: quanto de arte e quanto de embuste há nos trabalhos contemporâneos?
Na saída, um funcionário perguntou-me se eu era turista.
— Da Paraíba. – respondi.
— Ah! Dizem que as praias de lá são muito bonitas!
...
— Não quer que eu tire uma foto sua na escadaria? – oferece a gentileza.
— Obrigado. Não carrego máquina fotográfica quando estou sozinho.
— Por quê?! – quis entender, espantado.
— Prefiro ver as coisas a tirar foto delas. Se eu quiser uma imagem da Pinacoteca ou de uma pintura de Portinari, posso encontrá-las na internet. O que eu vejo e como vejo, não.
Ele sorriu e concordou. Desejou-me bom retorno para casa. Agradeci. Despedimo-nos. 

20h45. O taxista que me trouxe ao teatro Raul Cortez explicou-me por que tive dificuldade para conseguir táxi ontem à noite, na saída do Eva Herz:
— É a semana de moda. Vão todos para o Ibirapuera.
E, puxando um cartão do bolso, acrescentou:
— Agora, vou retornar para casa. Aí está o número do meu ponto e, no verso, meu celular. Quando sair da peça, se não conseguir táxi na rua, ligue para o ponto. Se ainda assim não conseguir nada, ligue para mim e eu resolvo seu problema!
Agradeci a gentileza e caminhei em direção à fila para assistir a ‘A Tempestade’. Trezentos anos antes do cinema e da televisão, Shakespeare já recorria ao amor como solução para os males da ganância, ao final feliz como solução para os males da insatisfação do público...

[...]

 Retrato do Cardeal Luis María de Borbón y Vallabriga, por Goya
Imagem disponível aqui.

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4 comentários:

  1. Você é uma mente brilhante!

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  2. Agradeço o comentário generoso.
    Volte sempre ao blogue.

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  3. Não é generoso. Poucos textos são como o seu. Aos que não o conhece, recomento leitura de seus textos. São prazerosas!

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  4. Então, agradeço, amigo(a)!
    Se toco um leitor, fico feliz e me sinto realizado enquanto escritor. Obrigado! Forte abraço!

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