quinta-feira, 21 de julho de 2011

O bico


Uma crônica sem grandes pretensões para o leitor que deseja apenas perder dois minutos de prosa e, depois, perder-se no travesseiro, na calçadinha da praia ou no XXXVI Festival de Inverno de Campina Grande.

***

Os dois entram no carro. Ele olha para ela de relance e enfia a chave na ignição. Ela olha para frente e fecha o zíper da bolsa. O carro recebe ordem de partida e segue para casa. Quatro ou cinco minutos depois:
— Você está muito calada.
Ela mantém o rosto sério e o bico armado.
— Não vai falar comigo?
E ela sequer pisca os olhos.
— Eu fiz alguma coisa?
E ela reforça o bico.
— Ih, já sei que lá vem bronca! Se for pelo que Franco falou...
— O que por acaso Franco falou a você?
— Nada. Esquece.
— Esqueço nada, quero saber!
— Então, primeiro conte por que você está bicuda.
Ela acende os olhos, inflama o bico e explode o verbo:
— Fique o senhor sabendo que, da próxima vez que eu pegá-lo todo derretido para o lado daquelas sirigaitas, eu vou dar trela para as cantadas de Ailton.
— Quem é Ailton?! E o que ele anda fazendo?!
— É um colega do hospital... Semana passada, disse que eu sou muito bonita... Anteontem, deixou flores no meu escaninho...
— E você não ia me contar?!
— Estou contando. Mas não desconverse! Eu vi como você se deixou envolver por Elisa no terraço do apartamento!
— Você está falando de quando ela pegou na minha gravata?
— Então você confessa, hein?!
— Não confesso nada! Você ficou no sofá, metida com aqueles chatos do quinto andar! E eu... eu  fui tomar uísque com Franco no terraço. Aí ele deu um pulo no banheiro e, enquanto isso, apareceu Elisa elogiando a gravata. O que você queria, que eu fosse grosseiro?
— Mas não precisava se desfazer em sorrisos!
— Ah, bom, vai me dizer que você fez cara de brava quando recebeu as flores?!
— Não, não fiz, mas também não fiquei sorrindo! Aliás, você me conhece, sabe muito bem que não fico por aí dando espaço a outro homem!
Chegam à rua. O carro se aproxima de casa. E o bico continua armado.
— Não vai voltar ao normal?
— Não foi só Elisa. Depois do jantar, veio Samara oferecendo licor, decote e sabe-se lá o quê! E você...
— Aceitei. Qual é o problema?! Além disso, Samara é namorada de Franco, portanto tenho dois motivos para jamais me envolver com ela: minha esposa e meu amigo.
— Namorada... hum! Sei bem o que ela é. Há duas semanas, era Cíntia. Mês passado, Micaela. No próximo encontro, quem será?!
— Meu bem, vamos lá! Eu não fiz nada demais e você já está se zangando comigo por causa das namoradas de Franco.
— Outra coisa. Você não precisa ficar espalhando por aí que quem manda em casa é você. É mentira. E é um tremendo machismo!
— Paciência, meu Deus! Você sabe que eu estava brincando. Quem deveria fazer bico agora sou eu. Ficar de cara feia por causa de uma piada sem valor como essa! Tenha piedade...
O carro entra na garagem. Mal ele desliga o motor, ela já vai abrindo a porta para sair. Ele segura o braço dela com firmeza e solta a voz de súplica:
— Espera. Não fica assim. Escuta uma coisa: eu te amo!
E o bico não se altera.
— Você não vai me deixar assim, sem um sorriso...
Ela tenta segurar o bico, mas começa a ceder. Ele a beija na bochecha, depois a puxa pelo outro braço e sela um beijo na boca.
— O que Franco falou a você?
Ele faz silêncio. Pisca os olhos e entrega:
— Bem... ele ia me passar o número do celular de Samara.
— Está vendo como eu tinha razão em...
— Mas eu recusei e disse a ele que não queria trair você!
— Fingido.
— Eu nunca fingi que a amo.
— E eu nunca fingi que sou boba e acredito em você.
Ela desarma o bico. Os dois descem do carro. Ela estende a mão. Ele a puxa pela cintura contra seu corpo. Os humores se trocam. Eles sobem as escadas. A meia luz do quarto avança pela madrugada.

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