terça-feira, 2 de agosto de 2011

Dicionário Político: outros verbetes



Partido político

E disse a lei: o partido político destina-se a assegurar a autenticidade do sistema representativo e a defender os direitos fundamentais definidos na Constituição, no interesse do regime democrático.
E disse o doutor Cohen: partidos políticos sustentados por fundos públicos desempenham papel importante para tornar possível a democracia deliberativa, uma vez que eles permitem a indivíduos e grupos desprovidos de riqueza os meios para superar as desvantagens políticas da falta de recursos, bem como oferecem as arenas mais abertas e necessárias para articular concepções de bem comum.
E disse o representante partidário ao encarregado de partidos no Tribunal:
— Como faço para desfiliar-me do meu partido?
— Comunique a desfiliação ao juiz e ao partido.
— Mas como eu vou comunicar ao meu partido?! – perguntou, espantado.
— Por meio de carta. – responde o outro, burocraticamente.
— Mas o partido sou eu!
O partido era ele! E quantos mais são o próprio partido?! Deixemos a lei e o doutor Cohen para lá. Fiquemos com Weber: o partido político é uma associação que visa a um fim deliberado, seja ele objetivo (p. ex.: a realização de ideais), seja ele pessoal (p. ex.: o poder e a glória), seja ele objetivo e pessoal ao mesmo tempo.
O libanês quer ser governador ou presidente. Ele cola grau em algum curso, descola uma vaga no segundo escalão do chefe da vez e espera sua vez de decolar. Com o tempo, chega a secretário ou deputado. Então, ele descobre que precisa de um partido: assume o controle de alguma mobilização já existente ou cria a própria associação de direito privado; convém apenas que seja democrática. Articula os apoio$ e acerta o Plano de Cargos e Contratos. Finalmente, a peça entra em cartaz no teatro: o marqueteiro faz a propaganda, o candidato oferece o produto que a platéia deseja e o eleitor paga com o voto a entrada, digo, a bolsa, o cargo ou a ilicitação.
É verdade que sempre haverá um jovem à procura de ideais novos ou um velho a lamentar os perdidos. Devem ser lembrados de que as agremiações políticas não podem mais ajudá-los a conseguir o que desejam, pois foram criadas para uma realidade que não persiste. As revoluções burguesas inventaram os partidos e, ao longo dos dois séculos seguintes, foi possível desejar vários modelos de sociedade, para os quais eram fundados partidos sob medida. Na França pós-napoleônica, havia os realistas, os liberais moderados e os democratas radicais. Na Alemanha de Bismarck, havia os liberais, os comunistas, os social-democratas e os anarquistas. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, ressalvadas a festa do chá e outras anomalias, são todos liberais com fraseado social e democratas com escrúpulo ecológico.
Quanto ao Brasil, nunca Oliveira Vianna esteve tão certo: “os partidos políticos do Império [...] não tinham propriamente uma opinião; eram simples agregados de clãs organizados para a exploração em comum das vantagens do Poder [...] O objetivo era a conquista do Poder e, conquistado este, conservá-lo a todo transe: nada mais”. E, nunca antes na história desse planeta, a vanguarda foi tão brasileira...

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Estado

O Estado é uma vaca leiteira. Puxe o banco, aproxime as mãos e ordenhe ou, caso prefira, lambuze os beiços diretamente nas tetas. É óbvio que esta metáfora não se aplica a Estados liberais, como os Unidos da América, cujo governo encabeça uma indústria armamentista trilionária, fidelíssima ao velho princípio de que ao governo cabe assegurar a liberdade, a segurança e a propriedade. Já no Brasil, o liberalismo nunca passou de retórica, o comunismo foi da clandestinidade à extinção e a conciliação dos interesses sempre foi o lema. A carne é farta e o espírito é cordial.
— Por que as coisas são assim?! – pergunta-se o jovem indignado.
— Porque todos lucram com que sejam assim. – responde o adulto resignado.
O leite é colhido em tonéis conforme o gosto do cliente. Se pobre, o leite cheira a cimento na eleição e bolsa no Ministério. Se médio, o leite coalha em cargos nos três escalões e ainda sobra para a nata do concurso público para os postos burocráticos. Se rico, o leite flui como rio em direção ao mar dos contratos administrativos.   
— Há salvação?! – insiste o jovem indignado.
— Salvar-se de quê? – replica o adulto resignado. Nunca antes na história desse país, as panças estiveram tão fartas e as carteiras, tão cheias!
Na mesa ao lado, um gringo folheia o jornal distraidamente. Com as orelhas preocupadas em captar os ruídos da fauna exótica em torno de si, ele pede permissão para integrar-se à conversa e anuncia com altivez:
— Vocês estão muito atrasados. No mundo desenvolvido, a sociedade não precisa do Estado. Cada qual que assopre sua bola para comprar seu próprio leite no coffe-shop da esquina...
Ao que o adulto atalha:
— Até que a bolha estoure e a ordenha entre na moda outra vez!

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Outros seis verbetes do Dicionário Político podem ser lidos no blogue antigo, clicando-se aqui.

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