domingo, 14 de agosto de 2011

O inusitado



Um diálogo crônico entre pai e filho, neste dia comercial dos pais

*

— Pai, você já foi barrado na entrada de uma festa?
— Por que essa pergunta?
O garoto faz cara de indignação e protesta:
— Por que vocês têm sempre que perguntar o motivo da minha pergunta?! Responde, pai!
— Não, não me lembro de ter sido barrado.
O pai continua passeando pelos canais da televisão. O garoto volta a entreter-se com o livro.
— Pai, o que você faria se fosse barrado na entrada de uma festa?
— Meu filho, eu não iria a uma festa, se soubesse que seria barrado.
— E, se você saísse de casa pensando que não seria barrado, mas terminasse sendo ao chegar lá?
— Nesse caso, você já está imaginando demais. É claro que essas coisas não acontecem.
O pai desliga a televisão e vai para o computador. O garoto fecha o livro e liga a televisão.
— Pai, se você fosse para o casamento de uma pessoa conhecida, mas esquecesse a senha em casa?
— O que é que tem?
— Você seria barrado?
O pai sorri.
— Agora você deu para pensar no inusitado.
— O que é o inusitado?
— São situações como essas em que você está pensando... fatos impossíveis de ocorrer!
— Isso é bom ou ruim?
O pai procura a resposta no canto do olho direito, não a encontra e volta ao inusitado.
— Ouça bem. Se eu fosse ao casamento de uma pessoa amiga e não levasse a senha, é claro que, ainda assim, eu entraria.
— Então, para que serve a senha, se a pessoa pode esquecê-la em casa?
— A senha serve para organizar a entrada, para que o anfitrião não tenha que ficar na porta separando quem foi convidado de quem é apenas um penetra.
O pai fica inquieto. Levanta-se, vai à janela e, finalmente, sai da sala em direção à cozinha. Quando retorna, vê que o garoto tomou conta do computador. Deita-se na rede e dá um impulso. Um, dois, três minutos de silêncio depois:
— Pai, se o presidente da República for convidado para uma festa, mas não levar a senha...
— Novamente esse assunto?! – o pai começa a irritar-se.
— Mas pode acontecer, não pode?
— Só que isso não acontece! Se algum dia ocorrer, aí então nós saberemos o resultado! Afinal, o que houve?! Você está com receio de ser barrado em algum lugar?!
— Não, pai! Eu só queria saber...
Seguem alguns minutos de silêncio, até que:
— Pai!
— E agora, o que foi?!
— E se você acertar os números da loteria? – o garoto pergunta entusiasmado.
O homem se contorce na rede, olha para trás e vê que o filho está com o bilhete na mão e um sorriso no rosto.
— Você conferiu o bilhete?! – berra o homem, saltando da rede.
O filho não responde. Faz cara de mistério. O pai corre em direção a ele, olha espantado para a tela do computador e, finalmente, suspira decepcionado.
— Seu traquinas! Por um segundo, você me iludiu!
E o garoto, com o triunfo nos cantos da boca:
— Pai, por um segundo, você acreditou no inusitado!

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