quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Meio minuto em Paris


Ao amigo Marcus Joelby, viajante em formação



Depois do segundo ou terceiro, os filmes de Woody Allen começam a parecer iguais. Um protagonista neurótico emaranhando-se, do primeiro ao último minuto, em diálogos com variadas tonalidades de humor, tendo o jazz por trilha sonora e, esporadicamente, algum elemento fantástico. É verdade que, de repente, pode aparecer um Match Point para fazer variar o roteiro; então, já se tem o sentimento de que não se trata de Woody Allen, mas de outro cineasta adaptando Crime e Castigo para o cinema, sem a mesma carga trágica e intensidade dramática do original.
Visto assim, Woody Allen parece inadequado ao gosto contemporâneo, tão afeito à novidade e arredio à permanência. Assim seja. E ficamos conversados. No frigir dos novos, resta a sensação de que há muitos alfaiates espertos e súditos tolos, atados uns aos outros por meio de um intercâmbio tresloucado de novinsibilidades. Em meio a esse desfile de reis ingenuamente desnudados, quem oferta sempre a mesma roupa de pano corre o risco bem vindo de reproduzir sanidade.
Meia-Noite em Paris conta com neurose, humor, jazz e fantasia e, mesmo ao mudar o ator, este parece fazer um esforço tremendo para que todos acreditem estar diante do próprio Woody Allen em cena. O cenário, entretanto, não é Manhattan e, ao viajar por dentro e para fora de si a fim de encontrar-se, o protagonista termina perambulando no tempo e no espaço pela Paris que o deslumbra e lhe serve de atriz coadjuvante. Aqui, talvez, descobrimos uma novidade: trata-se de um filme sobre o ato de viajar ou, mais precisamente, sobre as formas de viajar.
Em Meia-Noite em Paris, há três casais em viagem. Em comum, eles têm o fato de ser seis americanos igualmente deslumbrados pela capital francesa. Seus interesses, entretanto, são profundamente diversos e isso faz com que viajem de maneiras diferentes. As três mulheres estão em Paris pelo glamour que há em fazer compras ou passeios na cidade; portanto, topam qualquer programa desde que lhes pareça chique. Quanto aos homens, um deles viaja a negócio e outro, para ostentar o que sabe. Já o protagonista é um viajante em busca de (trans)formação; ele está em Paris para viver alguma experiência fundamental.  

A Idade Média legou à modernidade duas formas de viagem, cada uma delas com seus terrores e suas maravilhas: a peregrinação e a aventura. No final do século XIII, por exemplo, era possível ser um fiel padecendo de terríveis dores no dente e percorrer quilômetros de estrada para visitar algum santuário dedicado a Santa Apolônia, a padroeira dos problemas dentários; ou pertencer à família Polo e aventurar-se pela Rota da Seda a fim de descobrir o esplendor de culturas tão diversificadas quanto a mongol, a chinesa e a indiana. Em ambos os casos, viajar implicava o enfrentamento de terrível desconforto e a submissão aos riscos da estrada tendo em vista uma recompensa. Os peregrinos seguiam movidos pela fé; os aventureiros, pela curiosidade.
A peregrinação era uma forma de viagem na qual se partia em busca de relíquias e santuários, de objetos ou lugares a que se atribuíam propriedades curativas ou redentoras. O peregrino partia de casa para chegar ao local de veneração, obter o milagre previamente planejado e retornar. Seu objetivo era ver a imagem do santo, tocar sua relíquia ou escutar a invocação do sacerdote; embora se tratasse de uma viagem espiritual, suas intenções eram curiosamente sensuais. Além disso, o peregrino movia-se dentro da ordem: ele não viajava para ampliar seus horizontes, mas para obter a cura de um mal ou a remissão de uma culpa e, assim, restaurar a normalidade da vida terrena ou garantir a salvação na vida celestial.
Já a aventura era uma maneira de viajar em direção ao desconhecido. O aventureiro estava informado de certos empecilhos e consciente dos terrores que o aguardavam além das fronteiras do mundo conhecido; contudo, nutria algum desprezo por esses limites e desconfiava de que eles não se sustentariam após a verificação empírica do que de fato existia no território a explorar. Ao contrário do peregrino, o aventureiro movia-se para fora da ordem: seu objetivo era desvendar o ignorado e estabelecer com ele o contato que permitisse ampliar as possibilidades. O homem que partia em aventura já não era a mesma pessoa ao retornar; o peregrino voltava para casa apenas com o acréscimo de uma bênção.
A modernidade conservou essas formas de viagem e inaugurou uma terceira: a imigração. O aventureiro partia em busca do desconhecido, mas tinha a intenção de voltar para casa, carregando consigo as riquezas conquistadas e fazendo o relato da diversidade cultural descoberta.  O imigrante parte para não voltar; sua motivação é a escassez de oportunidades na terra natal e a promessa de uma vida nova em um país diferente. Se a peregrinação é filha da religiosidade e a aventura, da inquietude, a imigração brota da necessidade. Nela, insinua-se a nostalgia do nomadismo que precedeu a civilização entre os seres humanos primitivos.
Por outro lado, a peregrinação e a aventura não só persistem, mas também se renovam. Ainda há fiéis em busca de relíquias e santuários, todavia as aventuras são severamente limitadas pelo fato de tanto o planeta quanto o Universo estarem intensamente mapeados. Diante da carência de continentes a desbravar ou dos meios de exploração espacial, o aventureiro atual contenta-se com escalamento de montanhas e mergulho em cavernas submarinas. Se pensarmos também na aventura como a busca de novos horizontes, descobriremos facilmente sua sucessora na moderna viagem de formação, que pode ser in-voluntária (como o exílio) ou voluntária (como os intercâmbios contemporâneos).
Depois de uma sova e duas visitas à Bastilha, Voltaire partiu para o exílio na Inglaterra. Na ilha, entrou em contato com a física experimental de Newton, a filosofia empirista de Locke e a monarquia parlamentarista; essas experiências transformaram de tal modo sua visão do mundo que, ao regressar à França, ele não era mais o mesmo Voltaire que saíra. Da mesma forma, quando um jovem brasileiro contemporâneo muda-se temporariamente para viver e estudar nos EUA, por exemplo, por mais que já conheça bastante a respeito do país, ele parte em busca de experimentá-lo e, assim, descobrir-se diferente do que era ao iniciar seu intercâmbio.
Enfim, a peregrinação também corresponde a uma variedade atual e curiosa: o passeio turístico. O indivíduo trabalha regularmente e paga suas contas. Dia após dia, as revistas e os programas de televisão transmitem-lhe imagens de lugares bonitos que ele precisa visitar para ser completamente feliz. Algo lhe falta, como uma culpa exigindo expurgo. Então, ele tira vinte dias de férias e embarca em uma miscelânea vertiginosa de compras e fotos por pontos turísticos. Tal como o peregrino em busca de relíquias, o turista vê a Torre Eiffel, toca as paredes do Coliseu e escuta as badaladas do Big Ben. Ao regressar, ele retoma a regularidade de sua vida terrena, sem garantia da salvação eterna, mas com lembrancinhas e fotos a mais para o álbum.
Se minha intenção fosse escrever um tratado sobre o ato de viajar, seria evidente a necessidade de ir além da mera delineação dessas formas de viagem e dos respectivos tipos de viajantes. Ocorre que não trato dos meus temas, apenas ensaio sobre eles, na esperança de alcançar alguma aproximação, a qual se junte às tentativas alheias, como peças que concorrem para a conclusão do maquinário. Então, contento-me em fazer uma ressalva final: tipos e classificações contribuem para tornar dissertáveis os assuntos, mas não os esgotam; na verdade, eles são meros pontos de uma escala, em cujo leito as pessoas e os fatos se movem indefinidamente. Assim, é possível haver tanto aventureiros colhendo relíquias, quanto turistas eventualmente transformados.

Meia-Noite em Paris é um filme sobre as formas de viajar, insisto. E acrescento: é um elogio da viagem de formação. O homem de negócios, o intelectual exibido e as damas do glamour são expostos ao ridículo e não chegam ao final feliz. Neste, é o viajante em busca de uma experiência fundamental que encontra o amor e toma a decisão importante sobre o rumo de sua vida. Pode-se argumentar que Woody Allen não foi muito justo com os demais; afinal, eles podem desfrutar de experiências interessantes e ser igualmente felizes. Mas não se pode evitar a provocação que ele deixa à platéia: meio minuto de uma única viagem de formação pode valer mais que a vida inteira de peregrinações nada redentoras.

A urna com os restos de Santa Teresinha do Menino Jesus. Atualmente, são as relíquias que peregrinam pelo mundo ao encontro dos fiéis. Imagem aqui.

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5 comentários:

  1. Texto muito bem construído e argumentado.
    para variar, muito bom, meu lord.

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  2. Agradeço a leitura e os comentários gentis, meus caros. Abração!

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  3. Querido Thiago,
    ainda não vi o filme que te inspirou a emendar esse belíssimo ensaio; mas nem preciso assistir à trama – depois de ter lido o teu ensaio – para sentir tudo aquilo que, de alguma forma, estava na personagem central e se expressou tão perfeitamente em você! Veja que o ato de ler um belo ensaio como este já representou, em certos aspectos, uma maravilhosa viagem para fora de mim (para bem perto de vocês dois, ao lado de quem me reconheço, renovo-me e me alegro)!
    Maravilhosa leitura nesta noite de sexta-feira!
    Grande abraço!

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  4. Meu caro amigo, a beleza é um efeito do objeto no sujeito que o sente; portanto, os leitores são mais responsáveis pela beleza de um texto do que o próprio autor! Agradeço-lhe a leitura e celebro nossa identificação com Gil Pender! Forte abraço!

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