sábado, 15 de outubro de 2011

Brasília em breviagem



Brasília é um pássaro entalhado em pele de barro e concreto; entretanto, em suas asas de penas numeroletradas, há sangue em circulação. O trajeto entre o aeroporto e o hotel descortina a paisagem, oferece a metáfora e sugere impressões – as primeiras: a cidade é menor e mais bela do que eu supunha. O pássaro parece caber na retina e as pintas verdes são exuberantes. Aproveito o pequeno intervalo entre a acomodação no hotel e o início do compromisso para andar pelas ruas. Caminho pelo Eixo Monumental em direção à Funarte e percebo que Brasília não é tão bela: seus edifícios parecem emergir de uma fotografia cinqüentenária, já desbotada. Na Torre de TV, sorrio da ironia lucioscariana: no meio do caminho entre os extremos do poder (o Planalto e o Buriti), plantaram-se uma antena e uma arena.

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Venho à cidade a trabalho. O tempo é curto e preenchido. Não posso sequer programar algum encontro com os conterrâneos emigrados, mas eles ocorrem casualmente. Na portaria do Tribunal, a recepcionista é de Campina Grande; na Secretaria, uma das servidoras foi minha contemporânea na Universidade. Ao longo de salas e corredores, encontro brasileiros de vinte e sete tonalidades e me integro a eles na mesma melodia, ora harmoniosa... ora dissonante.
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Em geral, as cidades brotam aleatoriamente. Brasília foi sonhada em claro. No ponto exato onde alguém sonhou uma quadra, um bloco, uma rua, um hotel e uma cama, eu durmo. Mas não sonho.

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Há pouco tempo entre o café-da-manhã e o aeroporto. Acordo mais cedo e ganho a rua. Volto ao Eixo Monumental, desta vez em direção ao Planalto. Atravesso a Esplanada dos Ministérios e, impulsivamente, dispenso o táxi diante do Itamaraty. O palácio está sendo preparado para a visita de um chefe de Estado e meu acesso é proibido. Como um cavaleiro velando suas armas, detenho-me diante do prédio e invoco escritores, filósofos e historiadores que fizeram suas feiras com o salário da diplomacia: Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Vinícius de Moraes, Francisco Alvim, José Guilherme Merquior, Sérgio Paulo Rouanet, Alberto da Costa e Silva... Ainda haveria espaço para um poeta menor?
Sigo em frente e percebo que Brasília não é pequena nem grande, não é feia nem bonita – é dúbia. Seus edifícios são monumentais e, quando muito curvados, inspiram a sensação de pairar sobre a superfície de outro planeta. Ocorre que eles estão separados uns dos outros de tal forma que parecem diminuir sob o céu que lhes serve de cúpula, ou em meio aos espaços vazios – estes, sim, gigantescos. Ao longo dos séculos, as sociedades ocidentais buscaram incansavelmente no mundo greco-romano os motivos para seus edifícios de governo. Aqui, rompeu-se a tradição. Brasília é um manifesto antropofágico a céu aberto – e eloqüente. Suas construções envelheceram, porém o arrepio estético é atual – e inevitável.
Na Praça dos Três Poderes, o Panteão da Pátria está fechado para reformas. Seu retângulo árido parece esperar o fundamento do poder que a cerca; entretanto, o povo é uma idéia suficientemente abstrata para não caber na área de um polígono. Tudo o que a praça acolhe somos um segurança, duas faxineiras, um turista em busca de fotos, uma criança empinando sua pipa, um mendigo em cadeira de rodas, algumas esculturas dispersas e um poeta à procura de metáforas. Do outro lado da rua, na rampa do Planalto, dois Dragões da Independência fazem manobras, contudo lhes faltam o fogo e a cauda. Seriam de fato dragões, ou macaquinhos requentando o velho número do circo?
Aproxima-se a hora do retorno. Atravesso a rua e caminho em direção ao Palácio da Justiça. São pouco mais de oito horas da manhã. Vejo pessoas saltando dos ônibus, fazendo paradas rápidas em lanchonetes ambulantes e seguindo em direção ao Congresso ou a algum Ministério. Ocorre-me que Brasília é uma cidade com duas almas, as quais dão forma à matéria dos seus monumentos: a candanga e a piloto. A alma candanga bate ponto e cumpre expediente: alimenta os sistemas da cidade, reproduz seus ritos e põe suas engrenagens em movimento.  A alma piloto bate martelo e cumpre acordos: dirige o corpo, estrutura discursos e raciocina as justificativas.

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Tomo o táxi em direção ao aeroporto. O ziguezague e a identificação das ruas sugerem-me que Brasília é uma espécie de predioteca infinita, cujas prateleiras estão dispostas ao longo de labirintos. Parte-se de uma avenida, que conduz a uma rua lateral, por onde se chega a uma travessa, que retorna à lateral, por onde se volta à avenida. A cidade serve perfeitamente como cenário para um conto borgeano: imagino que crimes poderiam ser praticados e quais criminosos poderiam estar escondidos sob seus arcos. Aqui, deixo as figurações e me sirvo da realidade. Brasília é uma cidade três vezes tensa: além da beleza desbotada dos seus monumentos apequenados, há o subsolo onde variadas espécies tecem teias e cavoucam túneis.

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            Acima das nuvens, vejo ficar para trás um estonteante celeiro de metáforas.

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Imagem disponível aqui.
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