quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O círculo de Lianinha




A crônica abaixo deveria ter sido postada ontem, 11/10, aniversário de emancipação de Campina Grande; entretanto, meus sete sisos me deixaram fora do ar. Então, segue hoje a republicação de O círculo de Lianinha. Estou tramando a parte 2 da história.

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A festa de boas vindas foi organizada às pressas por duas ou três amigas. Afinal, Lianinha havia prometido retornar depois do São João, mas voltou em meados de maio. Menos morena – foi o comentário geral. Mais pedante – declarou-se entre os dentes. E foram muitos sorrisos, muitas fotos para o Facebook, além das perguntas inevitáveis: os homens bonitos, as vitrinas chiques e as roupas da moda. Lianinha sorriu mais do que respondeu, porém deixou todas satisfeitas quando abriu as malas. Calvin Klein para cá, Hugo Boss para lá e a próxima viagem, quando seria?
A viagem seguinte foi marcada uma semana depois. Era noite de sábado. A mãe reuniu a família e o namorado chegou, levando consigo os pais e a avó. O pretexto: a volta de Lianinha. Nas entrelinhas: o noivado. Meia hora antes do jantar, Júnior tirou as alianças do bolso e fez o pedido. Lágrimas aqui, soluços ali, ouviu-se o ‘sim’. O casamento já ficou marcado para dezembro e a lua-de-mel, em Paris. Seguiu-se uma infinidade de provas de vestido, viagens a Recife para contratação disso ou daquilo, listas de padrinho e coisas do gênero.
Em junho, veio o São João. O grupo de casais foi ao Parque do Povo. Entre um pedaço de pé-de-moleque e o arrasta-pé na palhoça, despontou a conversa sobre a última viagem de Lianinha. Alguém falou do prazer de andar a pé por Nova Iorque, outra pessoa aludiu aos artistas que tornam mais encantadoras as ruas, todos concordaram com olhos brilhantes e meneios de cabeça. Nisso, aproximou-se da mesa uma dupla de repentistas, entabulou a peleja e, ao final, passou o caneco. Alguns pigarrearam, outros fitaram o vazio, todos fizeram cara de alívio quando a dupla se afastou.
No mês seguinte, o grupo de amigos se reuniu para um fondue. Entre um comentário e outro a respeito dos avanços civilizatórios nas metrópoles, Lianinha começou a falar da agitação cultural de Nova Iorque, lamentou não haver peças para freqüentar em Campina Grande nem apresentações musicais interessantes. Lá pelas onze e meia da noite, chegaram Giordana e Joãozinho. Vinham de uma montagem de ‘O Inspetor Geral’, dentro da programação do Festival de Inverno. Convidaram a turma para a apresentação do ‘Coro em Canto’ no sábado. E todos mudaram de assunto.
Em agosto, a família se reuniu para comemorar o dia dos pais. Conversa vai, conversa vem, falou-se na mudança de Júnior para São Paulo. A princípio, Lianinha fez cara de tristeza, mas lembrou que faltavam apenas quatro meses para o casamento e ela iria embora logo em seguida. E sorriu. Afinal, não se ganha dinheiro nem se faz carreira decente neste fim de mundo, não é mesmo? – arrematou triunfante! Alguém interveio, observando que o patriarca da família enriquecera em Campina Grande, depois de ter partido de Recife nos anos 50. Outros tempos, Jacó! – ouviu-se a sentença.
Certo dia, Lianinha e a mãe saíram às compras. Era final de setembro. Retornavam para casa quando, passando pelo Açude Novo, Lianinha viu os ipês floridos. E suspirou. Havia partido de Nova Iorque em plena primavera, sem aproveitar o Central Park como gostaria. À tarde, as cunhadas ligaram, fazendo convite para um piquenique no Parque da Criança, com direito a pedaladas na ciclovia do Açude Velho. Lianinha inventou uma desculpa para não ir, resistiu à insistência e, impaciente, desligou o telefone. Piquenique no parque?! – disse a si mesma – Só mesmo no interior...
Quando outubro chegou, vieram as eleições. No primeiro domingo do mês, Lianinha saiu de casa para votar. A caminho da urna, viu um grupo de eleitores fazer estardalhaço em torno do candidato que chegava ao local de votação. Lamentou para o pai que a política na Paraíba fosse tão provinciana: sobram baixarias e paixões, faltam propostas e civilidade. O pai argumentou que a política era um processo e, assim como em outros locais havia recuos, na Paraíba existiam avanços. Mas nada que se compare à Europa nem aos Estados Unidos! – concluiu a filha.
Em novembro, a família recebeu a visita de um casal amigo. Moravam no Rio de Janeiro e passeavam pelo Nordeste, acompanhados de um filho. O rapaz tentou aproximar-se de Lianinha e seu irmão, perguntou o que havia para fazer na cidade durante aquela semana. Os dois responderam que Campina Grande não oferecia programas interessantes e mal dispunha de bons restaurantes ou bares. O garoto retrucou que havia se informado, pela internet, do projeto ‘Seis e Meia’ na quinta, de um lançamento de curtas locais na sexta e do cineclube no sábado. Mas os irmãos deram de ombros.
Na hora do almoço, o amigo do pai perguntou a Lianinha em que trabalhava seu noivo. Ela respondeu que, embora ele fosse economista formado ali mesmo pela universidade federal, havia conseguido um bom emprego em uma corretora financeira de São Paulo. O homem observou que a cidade lançava bons profissionais no mercado e ele mesmo empregava em sua empresa dois engenheiros e um administrador graduados em Campina Grande. Mesmo assim, o nível do alunado local é medíocre! – insistiu Lianinha. O que não deve ser o seu caso... – alfinetou o amigo.
Depois da sobremesa, os convivas passaram ao licor e aos biscoitos. A esposa do amigo falou sobre seu trabalho como curadora de um museu carioca. Alguém observou que Campina Grande não dispunha de museus nem de história para contar. A mulher disse que estava informada da existência de quatro museus na cidade e lera artigos de pesquisadores locais sobre personagens e eventos históricos. Perguntou por Cristiano Lauritzen, falou na agitação comunista dos anos 40, mencionou o confronto do ‘pé de chumbo’ com os ‘punhos de renda’... E todos fizeram cara de espanto!
Finalmente, aconteceu o casamento. O evento ficou registrado nos anais da cidade – garantiu um colunista. No dia seguinte, Lianinha e Júnior viajaram em lua-de-mel. Entre passeios turísticos e atividades impublicáveis, conheceram um casal de Porto Alegre. Evocaram a beleza de Gramado. No segundo dedo de prosa, os gaúchos aludiram à intenção de conhecer João Pessoa no Carnaval e talvez até passar um dia em Campina Grande, no Encontro para a Nova Consciência. Outro dedo, despediram-se. E os noivos seguiram adiante, deslumbrados, pela civilização parisiense.

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