terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Retrospectiva 2011



Dentre os itens que a internet tornou obsoletos, certamente há de figurar a retrospectiva. Se antes era necessário esperar a Globo e o Chapelin para lembrar-nos de que a inflação fora descomunal, o premiê italiano renunciara e Frank Sinatra morrera; agora, temos o Google para manter nossa memória tão acesa quanto aquela vela de chama vermelha e ininterrupta que lembra a presença do seu deus nas capelas católicas. Afinal, não seria o Google um Aleph de última geração, que saiu do porão para a escrivaninha, maximizando nosso desejo opressivo de conhecimento total?
Obsolescências à parte, conceda-me o leitor o direito a uma retrospectiva. Sim, senhor, uma retrospectiva: indefinitiva como o artigo que a indetermina e pessoal como o ensaio que a acolhe. Assim, evitaremos ao leitor o risco de reler o relido e ao escritor, de negligenciar algum fato obrigatório em ‘a retrospectiva’ – como a crise do mercado financeiro, a renúncia de Silvio Berlusconi e a morte de Amy Winehouse. Deixemos, portanto, de maneirices e passemos à promessa, antes que o galo cante, o público degringole e o novo ano leve à cruz minhas intenções.

Considerando que somos cidadãos do Brasil e aldeões do globo e, em ambos, tripartimo-nos nas dimensões de animais políticos, econômicos e culturais, façamos em cada campo um retrospecto. Quanto à política brasileira, creio que o fato mais relevante do ano foi de natureza lingüística: temos presidente ou presidenta? De um lado, puristas de todos os ramos insistiram em ser ‘presidente’ substantivo comum-de-dois, cabendo a Dilma o artigo feminino, e não a desinência de gênero. De outro, lupistas de todas as laias rebelaram-se contra a gramática e dançaram tango com a presidenta.
De minha parte, cheguei a esboçar uma teoria que justificasse o recurso ao latim como solução mediana: a presidentᴂ – teríamos ‘a’ nas duas extremidades sem o sacrifício do ‘e’, como convém ao sentimento conciliador nacional desde 1853. Infelizmente, o esboço não coube no Tuíter e terminou deletado.

Quanto à economia, o ano teria sido monótono de cabo a rabo, não fosse a notícia de última semana: o Brasil ultrapassou o Reino Unido e já é a sexta potência mundial. É verdade que os súditos da rainha continuam sendo mais produtivos e inovadores que os cidadãos da presidentᴂ, além de ostentarem índices de desenvolvimento humano bem melhores que os nossos; entretanto, a superação numérica do PIB pode ser o primeiro passo em direção a um país para inglês ver. Já imagino os alunos de Oxford e Cambridge transferindo-se para a USP e a UnB, ou os cartolas da City londrina reabrindo seus escritórios na Avenida Paulista.
De minha parte, cheguei a esboçar um plano de Revolução Gloriosa: restauraríamos a monarquia e, para evitar as disputas sucessórias entre os Orléans e Bragança, traríamos algum laranja holandês ou coburgo alemão para ocupar nosso trono. Infelizmente, o plano só foi lançado no Orkut, que se tornou o Diário Oficial(mente não lido) das redes sociais.

Quanto à cultura, o ano da graça de 2011 teve três fatos dignos de nota. Zezé de Camargo e Luciano ameaçaram rompimento, o que nos legaria dois berrantes em carreira solo, em vez de uma única boiada; a TV Globo estreou novo horário de novela, que empurrou o Programa do Jô para os primeiros minutos da manhã e fez o Brasil inteiro ir pra cama sem ele; o Dr. & Dr. Gabriel Chalita lançou a trilogia best seller ‘Amor’, ‘Felicidade’ e ‘Gentileza’, que passou a integrar o panteão dos aforismos nacionais e já o habilita como nosso principal candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, à frente de Ferreira Gullar e Autran Dourado.
De minha parte, formulei o seguinte problema: por que o país de Ernesto Nazareth e Tom Jobim, Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, Machado de Assis e Guimarães Rosa etc. e tal tem dado espaço a tantos talentos nos últimos vinte anos? Infelizmente, propus a indagação no Facebook, mas ela não foi curtida, comentada nem compartilhada.

Da pátria para o globo, o Velho Mundo mediterrâneo e germânico pôs o planeta de pernas para o ar. Em fevereiro, Maria Schneider faleceu sem ter gravado os outros dois filmes da trilogia ‘Último Tango em Paris’. Na mesma época, teve início na Líbia a guerra civil que, ferindo a moral e os bons costumes revolucionários, culminou com a tentativa canhestra de dar prosseguimento ao tango: rebeldes empalaram o ditador antes de executá-lo em meio a amanteigados abraços. Para encerrar o ano, os estúdios Sarkozy & Merkel tentaram assumir a continuação da trilogia durante encontro ao qual Mr. Cameron compareceu com a manteiga; porém, eles foram impedidos de gravar, uma vez que o diretor Bertolucci recusou-se a participar da cópula, ou melhor, cúpula. No Brasil, a mimosa Sandy fez declarações à Playboy que foram inicialmente entendidas como uma oferta para substituir Maria Schneider no papel de Jeanne.

De minha parte, a paciência é longa... os acontecimentos aborrecem... Desconecto-me da rede para cair na rede. Deixar-me-ei embalar pelo relógio do Rosário, a duas quadras de minha casa, de cujo sino escuto o som que me transporta à memória... à invenção...

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Um dos eventos capitais de 2011: exéquias de Otto von Habsburg, último príncipe a nascer como herdeiro dos domínios da família que governou meia Europa, deu Maria Antonieta à França e a Imperatriz Leopoldina ao Brasil. Outros vídeos da cerimônia aqui.

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