quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Diário do Marquês de Ariús




No princípio, era o Marquês de Ariús. Depois, nasceu Jacó Ceroulas. Finalmente, veio ao mundo Rosendo Bulcão. Comece a (não) entender quem eles foram - ou ainda são - a partir do Diário do Marquês de Ariús, a ser gradualmente publicado no espaço do Núcleo Literário CAIXA BAIXA no Caderno B do Jornal Contraponto. O primeiro trecho pode ser lido na edição desta semana. 

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15 de novembro

Depois de quinze dias, consegui superar o langor. A decrepitude é hiperbólica e faz de qualquer gripe uma ameaça de fim tempestuoso. Teria esquecido meu próprio aniversário, se não fosse a prestimosa Úrsula. Depois da primeira centúria, é recomendável ao ser humano afastar de si a lembrança do dia em que nasceu. Há três anos, entretanto, Úrsula tem mantido acesa a chama dos ritos que transmitem à vida algum calor. Desta vez, para derreter a gelidez do quarto e dos ossos, soprei as velinhas no jardim, ao sol crepuscular de pré-verão. A certa altura, percebi o esforço que duas formigas empreendiam sob a mesa para arrastar o cadáver de um membro da sociedade ao formigueiro. Então, lembrei-me da teoria de Ceroulas sobre os malefícios da evolução humana e a suprema utilidade de fazê-la regredir a padrões mais rudimentares de organização social e ordenação política. Ah, Ceroulas... Estás verdadeiramente morto, ou reaparecerás a qualquer instante, oferecendo a este velho a oportunidade de gargalhar uma última vez ao som de tuas sandices tão lúcidas?!

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16 de novembro

Consumi o dia embaralhado em reflexões que as formigas de ontem me ensejaram. Elas vivem em sociedades organizadas e enterram seus mortos. Imagino o que poderia ocorrer-lhes caso uma combinação aleatória de mutações genéticas, exigências do ambiente e variações populacionais resultasse na emergência de um sistema nervoso complexo e, a partir disso, em algum tipo de linguagem articulada. Tornar-se-iam as formigas, então, capazes de fabricar ferramentas, cultivar os campos e domesticar animais? Tornar-se-iam as formigas, então, capazes de organizar-se em clãs, instituir assembléias de anciãos e codificar as leis da cidade? Tornar-se-iam as formigas, então, capazes de confeccionar suas túnicas, ornamentar suas casas e invocar seus deuses? Tornar-se-iam as formigas, enfim, seres humanos? Há muito tempo, Jacó Ceroulas esteve aqui com uma teoria esdrúxula. Propôs-me ele que o cérebro é simultaneamente o malfeitor e o redentor da humanidade. Sem ele, nossos ancestrais não teriam adquirido o engenho que lhes permitiu sobreviver a leões, hienas e leopardos; com ele, lançaram os primeiros fios da teia que, ao longo dos milênios, tem dado alimento, segurança e conforto aos indivíduos pelo preço de sua liberdade. “Temos o estômago satisfeito, mas os braços e as pernas atados!” – ainda posso ouvi-lo bradar. É evidente aqui o eco de idéias alheias, mas a conclusão de Ceroulas foi bastante original: deveríamos, segundo ele, pôr fim ao absolutismo do estômago, instituindo a monarquia constitucional dos membros. Para tanto, anular-se-iam o estado, o mercado e a técnica, retornando os seres humanos a certo tribalismo, através do qual um cacique, um exército de guerreiros-caçadores e um colégio de pajés garantiriam a liberdade natural pelo preço da sobrevivência mais modesta. Imagino o que poderia ocorrer-nos caso uma combinação aleatória de mutações radioativas, escassez de recursos e colapsos populacionais resultasse no devaneio de Ceroulas. Tornar-nos-íamos, então, formigas?!

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17 de novembro

Consumi o dia embaralhado em reflexões que as reflexões sobre as formigas de anteontem me ensejaram. É lamentável que a duração e a extensão do indivíduo sejam muito curtas, impedindo-o de vislumbrar em sua inteireza o processo maravilhoso e complexo da vida terráquea...

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