terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Além do fim do mundo




O caminho para o sertão é como uma paisagem rabiscada no caderno de desenhos da escola primária. Da metade para o alto da página, pinta-se de marrom uma cadeia de dois ou três montes pequenos; da metade para baixo, chamuscas ora marrons, ora vermelho-alaranjadas simulam a vegetação ora ressequida, ora abrasada. No cantinho esquerdo – ou direito, não importa – o azul e o verde insinuam um açude ou qualquer olho-d’água e uma ou duas arvorezinhas conseqüentes. E lá em cima, soberano, o sol… de amarelo tão fortemente pintado, que se afunda a folha de baixo.
Mas o caminho para o sertão também é como um período composto de orações coordenadas aditivas, onde cada oração é uma cidadezinha mais ou menos parecida com a outra, tendo a torre da igreja como verbo de ligação e o posto de gasolina como vírgula. No predicado, abrigam-se a escola, a prefeitura, o posto de saúde e a praça pública. Já o sujeito varre a calçada, joga dominó debaixo da árvore ou espia o carro passar até perdê-lo de vista. “Devagar… as janelas olham.” E se corrige o poeta: Eta vida boa, meu Deus.
Até que, enfim, o caminho desemboca no sertão das cajazeiras. E lá em cima, no alto do Serrote, avista-se a terra de onde ecoam as lembranças coletivas do Padre Rolim, ou as reminiscências particulares da Picada… 

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… era no tempo de Lampião. À tardinha, a mãe achegou-se à janela e mandou os meninos entrarem… que o pai já ia chegando pra reza e a chuva não tardaria. Os dois largaram as castanhas na porteira do curral, lavaram as mãos na cacimba e apostaram corrida para dentro de casa. O pai já se tinha recostado na cadeira, a mãe acendia a vela debaixo do Sagrado Coração de Jesus e, só então, os meninos sentiram o frio na barriga que a lembrança causava: seria aquele o dia anunciado?

Cada qual se agarrou ao que podia, o maior à saia da mãe, o menor às pernas do pai, este e aquela às contas do terço e todos quatro ao rosário de Nossa Senhora. Creio em Deus Pai… e em Jesus Cristo… no Espírito Santo… na remissão dos pecados… na vida eterna, mas o amém ficou suspenso: um relâmpago clareou o céu – quase escuro, que tinha sido dia nublado e pouco se tinha visto o sol –, os quatro olharam com espanto para fora e ficaram à espera… “Quando o sol se puser, ao ribombo do primeiro trovão…”
Mas não se ouviu o trovão e a reza continuou. Pai Nosso, que estais no céu… seja feita a Vossa vontade… e do céu a chuva começou a cair… perdoai as nossas ofensas… o segundo relâmpago, novo suspense, nenhum trovão… e não nos deixeis cair em tentação… mas a chuva começou a engrossar e a estalar nas telhas… ave, Maria, cheia de graça… e o pai de olho fechado… bendito é o fruto do Vosso ventre… e a mãe de olho nos filhos… rogai por nós pecadores… e a chuva estalando nas telhas… agora e na hora de nossa morte… e nas telhas o medo sem grito… glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo… e a cada clarão o suspense… pelos séculos dos séculos… e a cada amém o alívio…
O primeiro terço nem havia acabado quando um dos meninos adormeceu nas pernas do pai. A chuva já estalava com menos força nas telhas e logo começaria a cair de mansinho. Mal terminado o segundo Credo, o outro menino adormeceu nas pernas da mãe. O pai levantou, colocou o primeiro na rede e balançou até assegurar-se de que o sono já se tinha instalado. Na sala, a mãe continuava por todos vigília adentro. Depois de ter colocado o segundo na outra rede, o pai voltou para a sala, sentou-se ao lado da mãe e continuaram juntos rosário adiante… enquanto a chuva se ia raleando… enquanto a vela se ia consumindo…
… a cabeça despontou para fora da rede, os olhos espantados interrogaram através da janela. Havia sol lá fora e o céu continuava azulzinho; o telhado acima da cabeça, inteiro, e as chinelas abaixo, no piso… acorda, acorda! – e o irmão, primeiro assustado, depois surpreendido, saltou no chão. Trocaram um abraço, depois um sorriso. O pai e a mãe tomavam café na cozinha… que Deus tinha ouvido as preces e o mundo continuava inteirinho! O compadre avisou que tem circo na praça… e os olhos ficaram pedindo…
À tardinha, saíram os três a caminho do circo. A mãe ficou em casa… que era preciso agradecer ao Sagrado Coração a prece atendida. O pai ia passo a passo, os meninos iam de pinote em pinote. Aqui e acolá, desviavam de alguma poça deixada como vestígio da véspera… que o mundo não se acabou e isso aqui vai ficar bem verdinho – olhava o pai para o mato… que o fim dos tempos não chegou e o leão vai estar rugindo – os meninos em frente, o horizonte ao longe, a torre da igreja pertinho…
A cidade caída em ressaca: à direita, no alto, o colégio do Padre Rolim e o sino batendo… à esquerda, adiante, o colégio das Dorotéias, silêncio… alguns passos e outros pinotes, a praça se aproximando… a rua dobrada, quarteirão percorrido… a lona do circo armada e a bandeirola em cima – o vento bulindo… quem chegar por último vai ser a mulher do padre… e o pai logo atrás vem sorrindo… mas a lona estava fechada… e as jaulas, por que escondidas? – Dia de folga, seu moço, os artistas passeiam no Brejo. Os meninos sem graça, chorando… e o pai, no aperreio, assistindo…
Foi, então, que se (ou)viu logo além, na esquina: o carrinho de mão, o letreiro, a buzina… fon, fon… outro fon e as lágrimas foram embora… mais um fon, começou a corrida. O pai tomou a palavra: - o que é que se põe no copinho? E a resposta na ponta da língua: - se põe gelo, depois o xarope e, por fim, o limão no cantinho… quero um!… quero outro!… quero três e me faça aquele precinho! O rapaz preparou cada copo com esmero, seguindo à risca a receita. Terminado o processo, resgatado o custo… cada qual com seu copo, cada gole…
… um susto! Ai que dor na cabeça! – gritou o primeiro. Ai que dor na minha também! – repetiu o segundo. Mas o pai, experiente, sorrindo: não se toma gelado assim… tem que ser devagar, devagarinho. E os filhos, felizes, enfim. Se o circo estava fechado, o passeio já tinha valido, porque a mãe esperava em casa e o mundo não ia ter fim… passo a passo, o pai… de pinote em pinote, os filhos… o colégio em silêncio à direita… à esquerda, no alto, bem… bem… na calçada, Maria banguela e ao seu lado, entroncado, Seu João… os meninos cantando assim:

Se coco não tem semente
Nem banana tem caroço,
Borboleta não tem dente
Nem botijão tem pescoço!

E Maria zangada, exigindo atitude… mas Seu João disfarçando um sorriso entre os dentes… passo a passo, o pai segue em frente… e os meninos pulando além…


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Memória alheia e invenção própria - conto publicado em http://caixabaixa.org/ mas agora disponível aqui.


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Padre Inácio de Sousa Rolim, educador pioneiro de uma terra que conheci com prazer ao lado de vovô José, pai do meu pai e cajazeirense da Picada.

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2 comentários:

  1. Fui ao interior com este conto seu, Thiago!! O mesmo sentimento instalado nos membros da família é possível sentir ao ler o instante de oração dos mesmos. E é pode-se ficar feliz com a alegria e com o entusiasmo dos garotos ao ver que o dia amanheceu e com a possibilidade de ir ao espetáculo do circo!! Agradeço pelo seu texto. Bom dia!

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    1. Agradeço a leitura e o comentário. Volte sempre. Abraço!

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