sábado, 24 de março de 2012

Diário do Marquês de Ariús: novos trechos


A publicação do Diário do Marquês de Ariús continua no espaço do CAIXA BAIXA no Jornal Contraponto. Para quem não foi às bancas na semana passada, disponibilizo aqui mais um trecho. Quem ainda não leu os dias anteriores, clique aqui

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18 de novembro

Como de costume, Úrsula trouxe-me durante o jantar as notícias do dia. Quanto pesar! A filhinha do nosso jardineiro faleceu de súbito, vitimada por um acidente doméstico seguramente evitável. A julgar pelos dados do último censo, a garotinha deixou atrás de si o saldo negativo de sessenta e cinco anos de vida, enquanto eu já excedi minha cota em quatro décadas. Definitivamente, a natureza é amoral.

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19 de novembro

Infelizmente, não pude comparecer às exéquias da pequena Maria Teresa. As forças que me restam mal me permitem repassar o tempo neste diário. Mesmo assim, fiz chegar ao bom Juscelino meu apoio integral. Há muitos anos, li quaisquer páginas de certo filósofo que propunha corresponder a vida dos humanos à zona de intersecção entre dois conjuntos: o da sobrevivência e o da existência. O primeiro teria por elementos todas as conseqüências, nefastas, da divisão celular; o segundo, todas as conseqüências – não menos nefastas – da evolução cerebral. Tratava-se de teoria caudalosa, cujos detalhes me escapam agora da memória. Lembro-me de que o filósofo encerrava seu tratado com algumas considerações sobre a divindade, afirmando que a vida total atingiria, pela morte, o atributo divino da plenitude. Por total, ele compreendia a vida de quem não apenas sobreviveu pelo garfo e pela cama, mas também existiu pelo absurdo e pelo salto. Certa vez, relatei a Jacó Ceroulas a teoria do filósofo. “Repulsivamente determinista, tresloucadamente metafísica!” – repeliu-a em seu estilo peculiarmente amplificado. Mas não era ele próprio um determinista tresloucado?! Aliás, penso mesmo se o filósofo não teria sido algum pseudônimo que Ceroulas fez chegar à minha biblioteca.

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20 de novembro

Lembrei-me hoje de mamãe. Esperou-me atingir a maioridade para morrer. “Não poderei jamais deixar-te à mercê desta república perversa!” – repetia-me desde que pude entendê-la. Ela faleceu cinco dias após meu aniversário de vinte e um anos, sem aceitar a república nem fazer regressar o imperador.

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21 de novembro

Pobre Maria Teresa! Mal sobreviveu... sequer existiu... Quanto a mim, a morte tem sido a única nota da cadência.

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2 comentários:

  1. Pode lançar "O diário do Marquês de Ariús". Será um sucesso.

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  2. Agradeço a visita e a sugestão, meu/minha caro/cara. Pretendo fazê-lo, mas dentro de um projeto maior, que envolverá também a biografia de Jacó Ceroulas. Volte sempre!

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