terça-feira, 1 de maio de 2012

Crônica de um passeio sentimental



Terça-feira, 6h. A campainha arranca-me do ronco para a ruga: duas velhinhas enganadas de quarto desculpam-se. Descerro a cortina a fim de verificar a fama de Copacabana e, mal começo a perscrutar a praia, sinto um rasgão no abdome. Confirmo tardiamente que o sanduíche da véspera não era recomendável. Tomo o café da manhã frugal que os intestinos suplicam e ganho a Xavier da Silveira. Meu primeiro contato com o século XIX vem da latrina: o Rio de Janeiro é fedorento e, a qualquer instante, gotas de sabe-se-lá-que-líquido pingam dos edifícios sobre as cabeças dos passantes. Mergulho no Cantagalo e volto à tona na Presidente Vargas. Os fundos da Candelária convidam-me à dianteira, onde leio a piedosa mensagem de Leão XIII: 100 dias de indulgência a quem beijar a cruz cravada na coluna e rezar um padre-nosso. Penso em recitar minha profanoração e acrescer à conta um pecado em vez do perdão papal. Outro rasgão no abdome. Contenho a língua e beijolho outra cruz: a nave de igreja é esplendorosa...
Sigo para o Paço Imperial. A República tentou apagar de tal forma a memória da Monarquia que me surpreende o fato de o prédio ter permanecido em pé. O largo tornou-se a Praça XV de Novembro; a antiga Câmara dos Deputados, o Palácio Tiradentes. Caminho até o chafariz colonial e contemplo, em êxtase absoluto, algumas cenas da História do Brasil. Vejo D. João ser aclamado Rei de Portugal, Brasil e Algarves... o pequeno Irineu desembarcar na capital que o faria visconde e visionário... D. Pedro I ser coroado Imperador... D. Pedro II marchar para a sagração na Sé... a Princesa Isabel proclamar da sacada que a escravidão fora abolida... Por dentro do Paço, pequenas placas informam o que restou do Império. Os aposentos do monarca servem de passagem, a sala onde se assinou a Lei Áurea abriga uma exposição de pintura abstrata, o salão do trono acomoda um instrutivo histórico das embalagens de refrigerante à base de Cola.
Outro rasgão. No banheiro dos súditos, não há descarga de ouro, mas se desfruta de bela vista da velha Câmara dos Deputados. Deixo o Paço e atravesso a rua para visitar a Antiga Sé. A pequena nave da igreja resume o tempo que venho ver: do ouro das paredes, ainda pinga o suor dos escravos das minas e da Corte... do coro, ainda ecoa o Te Deum em honra do Imperador recém-sagrado diante do altar... nos bancos, liberais e conservadores tecem os fios do manto que vestirá D. Pedro II e abrigará a ambos os partidos em conciliação... e o povo, assistimos aos ritos deslumbradamente. Mas, quem vejo?! Um vulto de barbas longas cruza a calçada em trajes antigos, equilibrando no rosto um pince-nez curvo. Atinjo a rua a tempo de vê-lo dobrar à esquerda, na altura da Ouvidor.
Enveredo pela travessa, mas já o perco de vista. A livraria! Procuro alguém que possa informar-me a localização do prédio. O garçom ri. O consultor da Saraiva fica desconcertado. O dono da Folha Seca acolhe-me com dados precisos: a Garnier ficava do outro lado, depois da Rio Branco e em frente ao ponto da José Olympio, mas ambos os prédios já deram vez a outros, modernos. Desabo na direção indicada até esbarrar no Largo de São Francisco de Paula. Consulto minhas notas. O periódico de Fleiuss era editado ali. Aproximo-me de um velhinho em quase-cochilo: em qual deles funcionava a Semana Ilustrada? A resposta é curta e seca: do prédio, não sei nada, mas o barbudo acabou de enveredar pela Luís de Camões. Em dois ou três pulos, vejo-me diante do Gabinete Português. Subo os degraus e abordo o porteiro: você, meu jovem, é o primeiro a entrar aqui nas últimas duas horas!
Retomo a rua e avanço até a Avenida Passos. Avisto o homem deixando a Igreja de Nossa Senhora de Lampadosa e tomando a direção da Praça Tiradentes. Prossigo no seu encalço. A tipografia de Paula Brito! A estátua eqüestre de D. Pedro I desafia as chuvas e a República. Dobro à direita e, sem sinal de quem persigo, estanco diante do número 64. O sobrado oitocentista oferece a loja térrea ao presente e a escada íngreme ao passado. Escalo-a. No primeiro andar, caio em silêncio. Vejo os companheiros da Sociedade Petalógica reunidos e os escuto lançando um chiste contra o visitante do futuro. Ouço uma voz educada e simpática que me devolve ao tempo dos pés: Posso ajudar? Inflamo o peito e anuncio à mocinha que ela está trabalhando no mesmo local onde Machado de Assis começou sua vida profissional e literária. Que legal! Quem foi esse cara?
Pela janela, vejo o vulto cruzar a praça em direção à Sete de Setembro. Despeço-me e ganho a rua às pressas. Disfarçado de mármore branco, o velho Teatro de São Pedro faz ouvidos de mercador ao meu pedido de informações. Quatro esquinas depois, consulto as notas e entro à direita na Rua da Quitanda. Diante do número 6, procuro algum vestígio dos irmãos Melo e seus saraus, mas tudo o que recolho é o cheiro de galeto assado e cerveja gelada. Sinto-me nauseado. Dois passos para trás, tropeço na Rua da Assembléia. Victor Frond e o Brasil Pitoresco! Cruzo a rua de um largo a outro, mas não escuto sequer um eco de língua francesa. Os nervos alfinetam a cabeça. O suor escorre pelas laterais do rosto. A vertigem ameaça rodopiar-me. Caminho sem dar por mim até estancar em uma esquina qualquer. Inspiro. Expiro. Cerro as pálpebras. Descerro-as. O vulto avança pela Calógeras e dobra à esquerda.
Atravesso a rua com o vento e levanto a poeira da Presidente Wilson. O homem de barba, casaca e pince-nez entra em um palacete amarelado. Um, dois, três, quatro colunas e, finalmente, tenho-o diante de mim – tão nítido, quanto inerte. Machado de Assis acolhe minha reverência e, sem dizer uma só palavra, faz-me sentir salvo. 

Estudo para a sagração de Pedro II, por Manuel de Araújo Porto-Alegre.
Disponível aqui.

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