sábado, 12 de maio de 2012

Diário do Marquês de Ariús (III)



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22 de novembro

Rosendo Bulcão telefonou-me hoje. É lamentável que eu estivesse dormindo. Ele comunicou a Úrsula que me fará uma visita dentro de duas semanas. Prometeu trazer consigo a árida esposa e o belo par de filhos. Bom menino! Lembro-me de quando esteve em minha casa pela primeira vez. Vinha por indicação de certo professor, que lhe solicitara um trabalho escolar. Na primeira visita, perturbou-me a avidez do garoto por arrancar de mim as informações que lhe seriam úteis. Na segunda, fascinaram-me a honestidade e a reverência do rapaz ao transcrever o conteúdo da nossa conversa anterior. Amei-o... como a um filho, ou – para ser mais coerente com as idades – como a um neto. Passados vinte e quatro anos desde que travamos conhecimento, posso confessar serenamente o ciúme que senti quando Rosendo conheceu Jacó aqui em casa e devotou a ele mais admiração que a mim! Admiração compreensível, pois a um jovem é conveniente amar os rebeldes. Compreensível, insisto; porém, dolorosa.

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23 de novembro

A expectativa da visita de Rosendo com sua família soprou em meu espírito um hálito de vida. Ou sobrevida, para ser mais exato. Há dois anos, ele não me aparece aqui! O primeiro qüinqüênio da nossa amizade foi ameaçado pela presença provocante e sedutora de Jacó. Instabilidade, rebeldia, transgressão, revolução e anarquia eram bandeiras que fascinavam os rapazolas de quinze anos. Eu não passava de uma velharia imperial, enquanto Jacó as tinha todas, em variado matiz. Mas, então, Ceroulas desapareceu! Feriu de saudades o coração deste velho; entretanto, perfumou-o de alívio. Pudemos Rosendo e eu levar adiante a nossa amizade, sem concorrências. E como me dediquei a instruí-lo! Não digo que ele tenha se tornado um homem de cultura pleno, mas decerto pude evitar que se tenha resumido a um homem de negócios rude. Assim permanecemos por quase uma década, a qual teria se desdobrado em outra se não fosse o brotamento de um cacto em nosso jardim. A princípio, ele – o cacto – reduziu a freqüência das visitas. Posteriormente, passou a acompanhar Rosendo, obrigando-o a fazer concessões à sua vigilância espinhosa. Finalmente, deu-lhe filhos e o instigou à mudança, deixando a mim a longa ausência, compensada por telefonemas que mal ensejam meio dedo de prosa. Que se dirá de diálogo completo?

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24 de novembro

Um cacto que brotou em nosso jardim! (linhas rasuradas) Excedi-me. Decididamente, excedi-me!

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25 de novembro

Determinei a Úrsula que não poupasse esforços para receber nossos hóspedes no melhor estilo. Quero ver brilhar nos quartos a riqueza do mobiliário! Quero sentir nos corredores o perfume do jardim francês! Quero provar à mesa as receitas centenárias da família! Quero ouvir na sala as valsas festivas de Strauss! Quero desfazer-me deste pijama mofado e manusear a gravata outra vez! “Tamanha celebração por um filho ingrato!” – protestou, enciumada, a boa Úrsula.

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4 comentários:

  1. Este diário precisa ser publicado.

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  2. Prezado Antônio, grato pela visita. O diário está sendo gradualmente publicado e integra um projeto maior de que não posso dar detalhes ainda. Espero mantê-lo entre os leitores. Forte abraço!

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  3. Muito bom cara!
    Tércio

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  4. Obrigado, Tércio. Volte sempre e acompanhe o diário. Forte abraço!

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