sábado, 30 de junho de 2012

Breve notícia, precedida de brevíssimo ensaio


Nasci e cresci em uma Campina Grande que se via como calçadão de cruzamentos.

Talvez, minha árvore genealógica tenha plantado a semente da ilusão: um bisavô chinês, unido a uma cabocla do Maranhão, para dar à luz um avô que se casou com uma neta de italianos e trouxe ao mundo minha mãe, ligada ao caçula de um casal de sertanejos que me naravam histórias do mundo de Lampião...

Talvez, durante minha vida escolar, os colegas intercambistas ou descendentes de estrangeiros - ao me pôr em contato com um arco de diversidade que ia do Ganges ao Rio Grande, passando pela Floresta Negra ou pela Costa do Marfim - tenham me adubado o bonsai da imaginária cosmópole...

Talvez, as lições de História tenham me chegado com alguma distorção, revelando com lentes de aumento uma cidade que se erguera do encontro ora cataclísmico, ora matrimonioso entre senhores de terra nativos e comerciantes forasteiros, vindos de Cajazeiras ou Recife, Copenhague ou Beirute...

O fato é que transcorri minhas duas primeiras dúzias de anos sentindo-me habitante de um lugar por onde o tráfego humano transitiva a caminho de Patos, Bodocongó, San Diego ou Sydney, carregando consigo ora as idéias acanhadas de uma beata, ora os ideais arrojados de um biruta.

Então, passei a trabalhar em outra cidade, ouvindo os conceitos e os preconceitos dos seus moradores a respeito do meu calçadão... passei a captar opiniões de outros andarilhos e coxos, percebendo nelas exigências que diminuíam minha cosmópole a uma tímida província... passei a fazer eu mesmo incursões em Tejos mais belos que o meu, os quais devolveram meu velho mundo à perspectiva dos imaturanos e às expectativas da maturidade... colhi, ao fim, o sentimento da pátria e, ao mesmo tempo, do mundo...

Se Campina Grande já foi, ainda é ou poderá ser o que dela pensei quando criança e adolescente, deixemos que meu psicanalista ou algum cientista social amigo combatam pela verdade. Por enquanto, fiquemos com seu Festival Internacional de Música, que chega à terceira edição entre os dias 2 e 7 de julho, somando-se a eventos novos e antigos que nos levam além da fogueira junina e nos revelam o tamanho das nossas limitambições.

Para o sítio e a programação do Festival, clique aqui. Para dar uma olhada na edição anterior, veja os vídeos aqui.


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2 comentários:

  1. Peterson Martins1 de julho de 2012 07:32

    Thiago, achei belíssimo seu ensaio ao Festival Internacional de Música em Campina Grande (que bem poderia ser o prefácio de um livro autobiográfico ficcional). Sendo pessoense, peço-lhe perdão pelos "mentecaptos litorâneos". Saiba que comumgo totalmente com suas observações. Nessa disputa de egos entre as duas cosmópolis quem perde são todos os paraibanos. Se houvesse um respeito maior aparando essas arestas, pois, tal como em uma discussão amorosa, é necessário o respeito pelo espaço e a heterogeneidade de cada um. Assusta-me, hoje, saber que cada vez mais esses preconceitos e estereótipos estão ganhando espaço até mesmo no âmbito artístico. Precisamos nos fortalecer através do respeito mútuo, e de nos orgulharmos em sermos PARAIBANOS (e NORDESTINOS). Lá fora...no Sul e Sudeste (até mesmo nos meios acadêmicos), a humilhação parece ter uma tonalidade preponderante(acredito que pelo fato de quando chegamos lá, somos muito "cabras da peste" na competência, inteligência e determinação). Por isso, quisera mil vezes nascer em Campina ou em qualquer município de nosso maravilhoso e rico Estado. Parabéns a Campina porque ela faz e acontece; e possui uma população maravilhosa e orgulhosa de suas raízes e sua identidade.

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    1. Meu caro Peterson, fico feliz por sua leitura e agradeço o comentário. Espero que possamos manter o diálogo! Forte abraço.

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