sábado, 7 de julho de 2012

Diário do Marquês de Ariús: novo trecho


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26 de novembro

Reabri algumas gavetas nos armários da biblioteca. Quanta recordação foi-me proporcionada pelo que saiu delas! O bilhete que Rosendo escreveu-me em 10 de maio de 1968, solicitando entrevista para o trabalho escolar cuja cópia também pude reler durante a tarde. Tratava-me por Excelência e carregava em adjetivos e advérbios, não menos que em períodos compostos. Se a amizade rebaixou-me rapidamente a ‘senhor’, a maturidade e a revolução do tempo substantivaram seu vocabulário e simplificaram sua sintaxe. Não poderia – devo admiti-lo – negar a influência imediata de Jacó, mas prefiro manter-me hoje a sós com meu bravo e correto garoto e as boas lembranças que o discípulo suscita em seu mestre.

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27 de novembro

“Excelência, fui – não sem certa vaidade – efusivamente elogiado pelo professor em virtude da nossa muito oportuna e valiosa entrevista. Pude inclusive gabar-me, diante dos meus colegas, de ter sido o único a estar com um legítimo e reminiscente integrante da nobreza do Império. Espero ter a honra de encontrá-lo novamente, a fim de presenteá-lo com uma cópia do meu trabalho. Estou certo – e creio não haver motivo para qualquer decepção – de que ainda terei muito a aprender em companhia de Vossa Excelência. [...] Com a estima e o respeito do seu discípulo, Rosendo Bulcão.”

“Excelência, voltarei da excelente viagem de férias com meus pais e irmãos no fim do mês. Espero visitá-lo assim que retornar. Seria interessante se pudéssemos ter conosco a companhia do seu simpático amigo, o Sr. Jacó Ceroulas. Com estima, Rosendo.”

“Senhor marquês, já estamos em Petrópolis. Visitamos a catedral e a cripta. Transmiti ao imperador seus recados. Alguma notícia do paradeiro de Jacó? Até a volta. Do amigo, Rosendo.” – aqui, a caligrafia já estava degenerando em garrancho!

“Prezado marquês, marcamos o casamento para julho... Ora essa! Por que me dou ao trabalho de transcrever estas mensagens?!

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28 de novembro

Eu já ficara viúvo quando Rosendo apareceu-me na sala de casa. Era um velho quase octogenário, conformado à expectativa da consumação dos meus dias. Não tinha filhos ou netos a quem legar minhas venturas e misérias, mas algum saldo – ainda que parcamente positivo – restava-me para passar adiante. A quem? – perguntava-me dia após dia. E procurava resignar-me ao fato de que morreria comigo aquilo que eu fora. Mas, então, ele veio e voltou e ficou! Tínhamos encontros regulares às segundas e quintas, sempre após suas aulas de educação física. Às vezes, ele ficava para o jantar. Outras vezes, vinha também no fim de semana. Uma única vez, adormeceu no sofá. Qual não foi o desespero que Úrsula e eu testemunhamos na face de sua mãe, quando despontou na biblioteca! Pensava a pobre senhora que algo terrível acontecera ao seu filho e me recriminava pelo telefone desligado.

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29 de novembro

Quando a morte não me ronda, a memória cerca-me! Deixo-me ingenuamente tropeçar em suas armadilhas...

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