sexta-feira, 13 de julho de 2012

Ensaio de 7o dia




Ou: Sobre as miudezas e a grandeza de Ronaldo da Cunha Lima



Quando Quincas Berro d’Água morreu, sua família foi à desforra. Ou tentou ir, em vão. Convocada a assumir as responsabilidades sobre o corpo do pai, a filha decretou o fim dos seus dias boêmios e restaurou, no cadáver, o disfarce do homem de família honrado e do funcionário público abnegado, a quem ela e os poucos entes de bem renderiam a lágrima sobre a lapela. E assim teria sido se os amigos de boemia não tivessem ido à farra. Alheios à versão póstuma de Joaquim Soares da Cunha, valeram-se da calada da noite – esta eterna cúmplice de raptores e golpistas – para libertar seu Quincas da gravata uma última vez e fazê-lo morrer, novamente, como decidira viver: entre a mesa de bar, os seios da amada e as águas do mar.
Quando Ronaldo da Cunha Lima morreu, sua família foi à concórdia. Deu ao ex-governador o velório no palácio e ao cristão de batismo a bênção do padre; depois, deu ao boêmio as bandeirolas do Parque do Povo e o cortejo dos parceiros de uísque, dos súditos de urna, dos admiradores de seus encantos, dos amigos de diversas datas, dos comparsas de política e, inevitavelmente, dos capachos de plantão. Ocorre que o Ronaldo de copo e verso não foi da mesma espécie da personagem de papel e tinta; ao invés de despir-se das honrarias, revestiu-se delas ao longo da vida, fazendo-se advogado e mandatário, deixando-se enredar pelas teias discursivas que o interditaram de ser tido como um berro d’água qualquer.
Foi para este Ronaldo, erigido em totem, que se voltaram os turíbulos, enquanto a congregação de jornalistas e comentaristas de redes sociais cantava os hinos em louvor das suas grandezas. Tantas, tão automáticas e em tal unanimidade repetidas que um só indivíduo não pode cruzar os braços – enquanto a multidão os ergue em delírio – sem correr o risco do gueto e do campo de concentração. Entretanto, o risco é o território dos poetas – contraventores que são da linguagem e das tramas do discurso – e ecoa do gueto a voz que os convoca à faca só lâmina, à flor que fura o asfalto, ao lirismo que é libertação. Poeta, aliás, foi Ronaldo. Grande? Respondo com algumas gradações.
Em meio ao incenso delirante, uma voz equilibrada destacou-se. Afirmou Bráulio Tavares em seu artigo no Jornal da Paraíba do dia 8 de julho:

Ronaldo Cunha Lima foi de uma geração de poetas boêmios [...] O poeta boêmio é aquele que não escreve pensando na Literatura Brasileira, escreve para si mesmo e para as pessoas que o cercam. A poesia é reflexo da vida, parte da vida, não tem sentido se lida em separado.

A definição serve como ponto de partida para o elogio esclarecido. Bráulio prossegue em seu texto, referindo-se com justeza aos sonetos impecáveis, ao improviso fluente e à memória prodigiosa do poeta boêmio. Em outra manifestação refletida, o escritor e crítico literário Weslley Barbosa (estudioso da obra de Ronaldo) divulgou nota, afirmando que “sua poesia se configura como uma das mais importantes de nossa literatura” e “sua ausência certamente pesará na literatura de nosso estado”. Se entre ambos os posicionamentos parece haver certo dissenso sobre como a poesia de Ronaldo insere-se (ou não) na história literária, não parece menos que em ambos há um consenso: trata-se de poesia relevante dentro de certo contexto.
Sendo eu escritor, e não crítico literário; tendo eu lido algumas dezenas de poemas de Ronaldo, mas não sua obra completa; sentindo-me eu atraído em todos os julgamentos pelo ceticismo moderado de Davis (aquele jurado inconveniente de ‘Doze Homens e Uma Sentença’), ouço o coro apressado dos súditos selar o veredicto da grandeza e prefiro atirar-me no incômodo da interrogação: tenho dúvidas. Poderíamos repetir o duelo exaltado e infrutífero dos refrãos laudatórios ou depreciadores; todavia, sendo outra minha intenção, proponho o exemplo de Sócrates e convoco o leitor a definir a grandeza antes de atribuí-la a um e outro indistintamente, como o grego definiu a virtude antes de investigar se ela era ensinável.
‘Grande’ é o adjetivo que aplicamos aos seres humanos que realizaram feitos extraordinários dentro do campo de manifestações culturais em que se propuseram a atuar. Os que cumpriram os ritos e empregaram os recursos do seu ofício com zelo e propriedade, mas não extrapolaram a órbita do ordinário, foram bons, ótimos, excelentes, mas ainda não grandes. Para tanto, seria necessário que tivessem alcançado grau de excelência distinto do de seus melhores pares, ou oferecido a eles uma contribuição absolutamente inovadora, ou ainda evitado a degeneração irreversível do que lhe foi confiado. Grande, enfim, é atributo de extrapoladores. Ou de heróis – espécie intermediária entre humanos e deuses, habitante de um mundo antigo do qual o nosso distanciou-se inexoravelmente.
Aplicar-se-ia a Ronaldo essa definição? Do que li de sua obra, apreciei a beleza de alguns poemas, diverti-me com outro tanto, considerei rasa outra parte. Usou e abusou de rimas pobres, metáforas gastas. Sua extraordinária inteligência e sua habilidade para o improviso foram evidentes, mas não me parece que ele tenha decidido empregá-las para burilar versos superiores ou inovar em sua arte. Tinha o talento para tanto, mas não o quis. Ouçamos Bráulio: Ronaldo buscou a poesia como bálsamo em cada purgatório, brinde em cada triunfo e espelho na manhã seguinte. Digo eu: ele quis cantar no varejo e, nisso, foi bem sucedido. Assim, pergunto-me se atribuir grandeza ao poeta-boêmio não implica negar-lhe a dimensão que ele mesmo buscou, conscientemente ou não, e assumir o papel da filha que tenta resgatar em Quincas o perdido Joaquim. Uma pergunta em meio às certezas cegas, insisto. Uma hipótese a falsear-se, enfim.
Mas o poeta também foi político e, aqui, proponho a segunda gradação. De fato, não tenho dúvidas de que foi um líder de proporções gigantescas, à medida que os polos do seu carisma atraíram e repeliram com força acima do ordinário: aos amigos, roubou a razão; aos inimigos, aplicou a emoção; em ambos os casos, foi ao extremo. Por outro lado, não me aparece qualquer evidência de que tenha sido grande como administrador e legislador. Manteve-se na média baixa dos mandatários paraibanos: cortou algumas fitas, deixou outras por cortar... idealizou futuros grandiosos, empregou meios aquém dos fins pretendidos... Não inovou nem reverteu derrocadas e, se buscou a excelência das práticas, foi ordinário no ordinário: alimentou o apaniguamento, tratou o poder como propriedade arrebatável, quis limpar a honra com sangue e se acovardou diante da responsabilidade. Governou Campina Grande em fase de estagnação e a Paraíba, deixou na mesma situação em que encontrara: o quarto estado mais pobre do Nordeste. Alcunhá-lo de grande, enfim, não seria mais despropositado que considerar extraordinários o Vinícius de Moraes diplomata ou o Isaac Newton membro do parlamento inglês?
Dar-me-ia por satisfeito com tais ponderações, se não fosse a sensação vívida de que havia algo em Ronaldo a exceder o poeta e o político, atraindo o olhar favorável de quem – como eu – nunca votou nele nem se deixou seduzir pelo seu canto. Seria o carisma? Decerto, estava aí o princípio. Em uma de suas célebres frases, talvez, o fim: “a vida não se mede pelo comprimento, mas pela largura”. Nela, ouço o eco de certo homem que, admitindo a ausência de sentido metafísico para a existência, mete-se nesta com liberdade e vigor. Em sua entrega, experimenta com destemor o instante e, fiel apenas ao princípio do prazer, deixa-se levar por uma partitura de extremos: ama e fere, vive e alimenta a própria morte, transita entre a sutileza da viola e o furor da pistola. Aqui, a humanidade de Ronaldo revela-se – imaginária ou realisticamente? – com a grandeza e a contradição dos espíritos livres, além do heroísmo e da vileza que lhe atribuem entusiastas e detratores. Se, vista assim, frustra a leitora recatada ou o leitor ansioso pelo confronto, angaria a compreensão do homem absurdo que habita o subsolo deste ensaísta, mudando-lhe a direção pretendida do texto. Reticência...

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4 comentários:

  1. como sempre muito bom e sensato

    é aquela velha história de que quando morre todo mundo fica bom
    e eu acrescento: até os péssimos

    claro que eu não acho Ronaldo péssimo
    é até um personagem muito interessante
    mas as coisas tem que ser postas nos seus lugares
    como vc mesmo falou: em gradações

    como poeta, no máximo razoável
    como político, exceto o carisma já citado, a mesma bagaceira dos demais

    fogueira aos babões!

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  2. Grato pela leitura, caro amigo. Estou de acordo com você quanto ao personagem interessante que é Ronaldo. Penso, inclusive, que temos muito a explorar, como escritores, nesse sentido. Abração!

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  3. Como político, Ronaldo tem umas posturas de enfrentamento, umas palavras destemperadas que incomodaram a ditadura, como quando disse: "A ARENA e uma Casa de Recursos, que lhe valeram a cassacao do mandato de Prefeito e dos direitos politicos por uma decada. Foi a cara da nova democracia com seu sorriso largo e versos de cantador de feira animando o povo nos comicios e quando Governador organizou um calendario de pagamentos de salarios que garantiu o direito do funcionario.

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    1. Grato pela visita e pela leitura, amigo.

      Enfrentar a ordem, com palavras ou armas, é um ato de coragem. Podemos colocar as "palavras destemperadas" de Ronaldo na conta da sua liderança carismática e extraordinária, a que dei o reconhecimento.

      Quanto à organização da folha de pagamento, penso que se trata de algo tão ordinário para um administrador quanto publicar um livro para um escritor, operar um paciente para um cirurgião ou fazer programa para uma prostituta. Podemos colocar a medida na conta das fitas cortadas, mas não ver nisso qualquer grandeza.

      Abração!

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