sábado, 15 de setembro de 2012

Diário do Marquês de Ariús



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30 de novembro

As gavetas trouxeram-me durante a tarde um pouco de Jacó. Abusado, como sempre foi! Relendo hoje suas cartas, perguntei-me por que abri as portas de minha casa e ofereci a mais sincera amizade a um homem tão impertinente, que não respeitava minhas cãs nem sua própria idade. Soube que nesta casa ainda reside um Marquês do Império... Posso ouvir novamente sua voz dirigindo-se a mim pela primeira vez. Ou será o Duque de Pilhéria? Completou, antes que eu pudesse iludir-me. Por que permiti a uma partícula tão repulsiva permanecer próxima a mim por tantos anos, gozando de minha intimidade e me estapeando a face com sua instabilidade indecorosa?! Por que não o expulsei naquele exato instante de sua primeira grosseria e, assim, evitei os sentimentos dúbios que me assolaram o peito por mais de duas décadas?! Por que, sobretudo, quis Jacó tão distante de mim enquanto ele esteve por perto e ansiei pelo seu retorno sempre que ele esteve ausente, assim como se deseja o regresso de um perdido irmão ao confronto do lar?! Ceroulas, eras um tolo! Um tolo! Entretanto... entretanto...

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1o de dezembro

“não penses que sempre fui assim, mal criado, na verdade criou-me minha mãe para ser mais cafona do que tu, mas tive a coragem de chacoalhar o alicerce e derrubar as vigas, a coragem que tu não tiveste de passar a ovelha negra, se permitires que retorne à tua casa, narro-te a história” – Terá sido assim que ele me comprou? Maldito seja o dia sete de setembro de mil novecentos e sessenta e um!

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2 de dezembro

Rosendo telefonou-me hoje cedo. Novamente, eu estava dormindo. Mesmo assim, estou feliz: ele confirmou que chegará na sexta, por volta do meio-dia, a tempo para o almoço. Envolvi-me de tal maneira nos preparativos finais para receber meus hóspedes que, pela primeira vez em toda a minha centenária vida, esqueci-me de celebrar o aniversário de Sua Majestade, o Imperador. Mas a memória de D. Pedro há de perdoar-me o lapso, assim como eu sempre perdoei ao monarca a passividade com que se rendeu à república e embarcou no Alagoas. Hoje, a única pulga que me incomoda é a insistência de Úrsula em sugerir que estou padecendo de algum tipo de demência senil. Afinal, é óbvio que temos, sim, um jardim francês!

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3 de dezembro

Insisti com Úrsula a respeito do jardim francês; entretanto, ela fez ouvidos de mercador. Resignei-me, então, ao gramofone. Strauss esteve soberbo hoje! E não haverá de decepcionar-me amanhã, nem depois de amanhã! Recordo-me ainda do baile em que tirei a futura Marquesa para a Valsa do Imperador... (trecho ilegível) Fico, pois, apenas com a lembrança dos salões, que não alcancei, mas cujo espírito de cordialidade, beleza e humour foi-me transmitido pelos relatos sempre muito saudosos de mamãe. O da Marquesa de Abrantes, dizia-me ela, era insuperável! (trecho ilegível) Um conhecido de outrora afirmou-me, certa vez, que o paraíso existe, mas não é o mesmo para todas as pessoas. A cada qual, conforme o seu merecimento, seria concedida uma ausência de tempo – a que nós, enquanto mortais, damos o nome de eternidade – em que as circunstâncias coincidem com os mais recônditos anseios. Se assim for, creio que passarei a minha cota de eternidade a valsar. Creio também que ela não mais tardará...

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4 de dezembro

            Acordei, fiz o desjejum, banhei-me. Por que não badalais, ó doze horas?!

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Salão Nobre do Palacete Nova Friburgo (posteriormente, na República, Palácio do Catete).
Disponível aqui.

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2 comentários:

  1. Caro Thiago. Li seu poema no Campina Cresce com você. Você é digno de ser lido, principalmente sua biografia. Parabéns, poeta Thiago.

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    1. Prezado André, fico muito grato pela visita ao Arriscos e pelo estímulo que me oferece. Volte sempre. Forte abraço!

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