sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Os coliformes fecais (parte I)




memórias eleitorais



1989. Tarde de domingo. Havíamos acabado de nos mudar para a casa da José de Alencar. Brizola veio a Campina Grande e meu pai trocou a sesta pelo comício na Praça da Bandeira. Quem vai comigo? Quis saber, esperando a adesão de dois cabos.  Marina, a caçula, não era sequer um projeto. Meu pai ainda nutria a simpatia pelo comunismo que quase me fizera receber o nome de Francisco Julião. E o estancieiro Brizola morreria quinze anos depois, como o seu maior ídolo. Nathalie estendeu a mão. Eu exerci o direito milenar e supraconstitucional à discordância filial. Permaneci em casa, e fiel ao velhinho.
Naquele tempo, as discussões políticas eram afloradas na pequena sala de aula de Dona Lourdes Pedrosa, na Rio Branco. Éramos crianças e estávamos, literal e puerilmente, envolvidos no clima de festa que animava a cidade e o país. Os candidatos ofereciam-se em grande varejo: 22! Uma colega escrevera uma dissertação sobre por que Afif Domingos seria o melhor presidente. Outro estampava adesivos de Mário Covas nos cadernos e livros. Eu fazia discursos urbi et orbi, durante o recreio, em defesa de Ulysses Guimarães. No fim perdemos todos, mas eu ganhei o voto de vovó Lozinha para o velhinho e o Brasil, um janota para o Planalto.

1990. Pouco retive dos eventos desse ano. Um trecho de carreata, talvez. Um jingle de campanha, se muito. Esforço-me, escavo e encontro uma cena... Embora idolatrasse Brizola, meu pai amava Ronaldo da Cunha Lima acima de todos os outros. Era filiado ao PMDB, portanto. Em 90, ofereceu almoço aos candidatos do partido. Mariz trouxe o cigarro, Ronaldo não mandou sequer um verso. Eu não desgrudava do meu pai. Com a pouca carne e os muitos olhos da infância, pensava no tamanho da sua importância por fazer sentar no sofá da nossa casa um candidato ao Senado. A certa altura, ele chamou Mariz às falas:
– Vamos discutir os projetos para a Paraíba!
O outro tragou o cigarro, pigarreou, balbuciou qualquer coisa e passou ao ponto seguinte. Dois anos depois, o gabinete de Mariz enviaria ao meu pai, pelos Correios, uma cópia do relatório em que o senador recomendara a cassação de Fernando Collor.

1992. Era outra vez a sala de aula de Dona Lourdes Pedrosa e estávamos bem no meio do ditado de palavras. Jipe, jibóia, cáfila, cafajeste... As palmas soaram no portão que separava o pátio de recreio do jardim da casa. A professora ergueu-se da cadeira, renovou a ordem de bom comportamento e desapareceu além da porta. Ouvimos o eco de uma conversa breve. Dali a pouco, ela retornou acompanhada de um homem simpático, de fala nasal e arrastada.
— Bom dia, garotada! – e a platéia vibrou em resposta e burburinho. Eu sou o Dr. Damião e vim pedir a vocês que falem com os seus papais, com as suas mamães para que eles votem em mim porque eu vou cuidar da nossa cidade de coração pra coração!
Anestesiado pela boa figura, não tive outro tema na pauta. Esperava pelo guia como o vigia pela aurora e, quando via o doutor do coração surgir na tela, torcia por sua vitória com o mesmo entusiasmo que me assaltaria, dois anos depois, diante do chute de Roberto Baggio. Naquele ano, entretanto, meu estreitíssimo círculo de ouvintes estava irredutível. Ex-professora de Álvaro Neto, vovó Lozinha firmara posição com o querido pupilo. Atado em união indissolúvel à casa Cunha Lima, meu pai já oferecera inclusive jantar a Félix Araújo. E Gerusa, que ainda não se tornara a Sábia de Santa Terezinha, refugiara-se na recusa racista.
Quando outubro chegou e a apuração foi aberta, colei-me ao rádio e à esperança. Elegeu-se, entretanto, o previsto. E assim, em 1992, o doutor do coração fez sua primeira cirurgia política e eu nutri minha terceira ilusão eleitoral.

1993. Eu tinha dez anos incompletos e uma avó com deslocamento de retina. Nesse ano, portanto, votei pela primeira vez. Por algum motivo que até hoje resisto a descobrir, sempre alimentei certo fascínio – tão irracional, quanto irresistível – pelos rituais da monarquia. Talvez, ele remonte ao atlas geográfico que ganhei em 1989 com um verbete simpático ao velho Imperador... Talvez, ele remonte à encarnação ainda não desvendada em que fui o Visconde de Jequitinhonha... ou o Marquês de Paraná... O fato é que – com ou sem o perdão dos politicamente modernos – no plebiscito de 1993, eu votei no rei. Literalmente!
Vovó Lozinha padecia de um mal na retina que não a impedia de enxergar, mas lhe turvava a visão. Com tendências à hipérbole, comportava-se como se cega estivesse. Acima de tudo, dava-me cabimento. Ouviu com atenção meus discursos realistas, acalentou com disfarce a esperança de um neto no Senado do Novo Império e foi à urna com os Orléans e Bragança no dedo. Diante dos mesários, suplicou por auxílio: não identificaria bem os caracteres da cédula, o neto poderia ajudá-la... uma criança apenas, não interferiria... O presidente dos trabalhos temeu o juiz, mas se compadeceu da senhora.
Na cabine, vovó sacou a caneta e, aprumando o par de óculos no nariz, mirou mal o alvo. Percebi que ela erraria e, desesperado, avancei sobre sua mão, arranquei-lhe o instrumento e garanti, às pressas, o X na monarquia. Vovó sorriu. Completei o ato cívico no quadrado do parlamentarismo. Cédula depositada, lista de presença assinada, retornamos para o automóvel que nos devolveria ao século XX.

1994. A sala de aula de Dona Lourdes Pedrosa ficara para trás e uma escola de vários prédios, pátios e professores tornara-se o mundo a desbravar. Durante as lições de História, a professora lamentava o fim da educação moral e cívica, conclamava-nos à consciência da cidadania e passava à página seguinte do livro didático. Um colega deixou-se convencer e, orgulhoso de sua atitude, levou à classe os programas de governo dos candidatos à presidência. Solicitava a opinião da mestre e a discussão da turma. Solícita, a mestre opinou:
— São todos bons e iguais, mas não acredite neles, meu filho! – e, logo em seguida, a turma passou a discutir os pontos que cairiam na prova.
Eu, entretanto, não acreditei na professora. Fui aos programas. Ao fim de poucos dias, mal compreendendo quase tudo e pouco assimilando muita coisa, decidi-me pela inócua declaração de apoio a Esperidião Amim. Dessa vez, foi meu pai quem recorreu ao direito milenar e supraconstitucional à contrariedade paterna: Amim, um partidário de Maluf?! Segui em frente, le?itimado pelo comentário de um parente próximo: esse bicho tem uns votos da porra! Ainda levaria alguns pleitos para vacinar-me de ceticismo contra novas ilusões eleitorais.

1996. Em Campina Grande, Enivaldo Ribeiro ofereceu-se como alternativa à turma dos catorze anos, a turma dos catorze anos avançou para os dezoito e, no Recife, João Braga ficou a seis mil e um votos do segundo turno. Eleito e reeleito vereador em 1988 e 1992, tio João obtivera mandato para a Assembléia Legislativa em 1994 e, autorizado pelo bom trabalho à frente da Secretaria de Obras do Município, decidira desafiar Roberto Magalhães – o candidato por quem Jarbas Vasconcelos optara a fim de costurar sua própria candidatura ao governo estadual dois anos depois. Oferecida a compensação de ser vice, dispensou-a. Aconselhado a barganhar cadeira no Tribunal de Contas, resistiu. Seu objetivo era administrar zelosa e democraticamente a cidade que amava e sua esperança, o eleitorado independente e o voto de opinião. A fim de votar no filho, meus avós transferiram o domicílio para a capital pernambucana, acompanhados de boa parte da família. No primeiro domingo de outubro, tio João ofereceu café-da-manhã aos correligionários (alguns dos quais lhe cortariam a legenda e a carreira, quatro anos depois). Sentado à mesa, meu primo André viu os convivas servindo-se de fatias de queijo de coalho e, lembrando-se de uma reportagem que lera sobre o risco da presença de coliformes fecais neste tipo de alimento, persclamou:
— Mas vocês estão comendo cocô?! – os adultos gargalharam.
E dois anos depois, tio João seria eleito – já nas sobras – para seu último mandato. Ao encerrar sua breve incursão pelos Poderes Legislativo e Executivo, dispunha do mesmo patrimônio de quando a iniciara, acrescido apenas de algumas decepções.

1998. Nesse ano, os senhores da Paraíba entraram em guerra. Boêmio, Ronaldo da Cunha Lima não sacou arma em restaurante de João Pessoa, mas esfregou o dedo nas fuças de José Maranhão em clube de Campina Grande. Por sua vez, o governador articulou-se com os delegados do partido em manobra paradisíaca e levou a batalha. Cunha Lima prometera arrebatar-lhe a Paraíba das mãos, mas pouco obteve além de um mico etílico registrado em vídeo. Maranhão foi às urnas sem trema nem competição, guiando o estado para quatro anos de austeridade vernacular e... e... falha-me a memória...
Mas volto ao dia da convenção. Era um domingo e, curtindo o rápido intervalo entre o mestrado e o doutorado, minha mãe providenciara almoço para os seus e os próximos. Colado ao rádio e à paixão, meu pai descuidou-se dos convivas, entregando-se à esperança de improvável vitória da viola de fogo contra o avião de bigode. Quando o resultado da convenção ficou claro, ele desligou o aparelho e saiu à rua, cabisbaixo. O parente que nos acompanhava à mesa, abandonando a indiferença que mantivera até então, consertou-se na cadeira e exclamou solenemente:
— Pensaria mil vezes antes de cumprimentar um homem safado como Maranhão! – quatro anos depois, ele já teria tido tempo suficiente para pensar pela milésima primeira vez e oferecer jantar ao governador, apresentando-o como bom e velho companheiro.

(continua na postagem abaixo)

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2 comentários:

  1. A infeliz história de um PMDB paraibano, rs. Gostei do texto.

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    1. ... entrelaçada à história da consciência do autor em trabalho de parto! Rsrs... Grato pela leitura, amigo.

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