sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Os coliformes fecais (parte II)




2000. Em março, compareci ao cartório eleitoral para alistar-me. Na fila, já à espera do título, observava os servidores manusearem papéis e carimbos. Compadeci-me daqueles braços mecanizados e, após receber o documento, deixei o prédio entre a alegria de sentir-me eleitor e o temor de, um dia, tornar-me o burocrata do outro lado do balcão. Dali em diante, acuado pela pressão familiar para que cursasse Direito e seguisse carreira no serviço público, dediquei-me durante o ano inteiro ao vestibular iminente e pouco cuidei de assuntos políticos. Nas aulas de História, o professor narrava-nos fatos que testemunhara no passado então recente (o regime civil era debutante, a Constituição mal saíra da infância) e, com o grito por Diretas Já! ainda redondo na garganta, indagava:
— Quantos de vocês são ou pretendem ser filiados a algum partido político? Quantos de vocês deixariam de focar na carreira para lutar por uma causa maior? – e lamentava o silêncio das mãos.
Quando outubro chegou, a família estava em ressaca: meus pais haviam acabado de separar-se. E assim, desnorteado entre a falência da casa e as ameaças da rua, recorri ao direito milenar e supraconstitucional à orientação paterna: votei com meu pai.

2002. Os primeiros sinais do ceticismo começaram a manifestar-se em minha consciência. Aos domingos, ainda ia à missa; entretanto, não acreditava mais que o deus cristão fosse uma espécie de magistrado do mundo antigo, ouvindo petições de súditos em audiência e decidindo conforme seu próprio e abstrato senso de justiça. Durante a semana, freqüentava as rodas políticas, filosóficas e, acidentalmente, jurídicas na cantina da Faculdade de Direito e já media a distância que separava compêndios e tratados de oferta$ de jantar e apoio$ políticos. Gradualmente desprovido da crença em patriarcas de velhos testamentos, convenci-me da necessidade de desenvolver um método modernamente racional de escolhas eleitorais.
À medida que outubro se aproximava, sentia o acirramento dos ânimos de torcedores de ambas as facções em disputa na Paraíba. De um lado, amarelos próximos a mim asseguravam ser o seu candidato o único capaz de promover o desenvolvimento do estado. Do outro, vermelhos igualmente próximos asseguravam ser o seu candidato o único capaz de promover o desenvolvimento do estado. Em nenhuma das cores, encontrei explicação para o porquê de ambos os grupos políticos terem ocupado o palácio por dozes anos, sem alterar significativamente nossos pífios indicadores econômicos e sociais. Assim, não enxergando os sete erros na imagem nem no reflexo, fixei a primeira regra do meu método – a alternância incessante dos grupos no poder – e votei na oposição da hora.

2004. Em Campina Grande, duas rosas – igualmente herdeiras da dinastia Figueiredo – entraram em rota de colisão: a casa Vital do Rego ofereceu-se como alternativa à casa Cunha Lima. Não se registrou o uso de cavalaria nem de infantaria motorizada por parte das facções dinásticas; entretanto, tropas federais intervieram para evitar o derramamento de sangue. No dia da votação, o governador Cunha Lima e seu pai compareceram ao Gigantão da Prata, como de costume, para o beija-mão de vassalos e servos que se mantinham leais. Saíram sob vaias e aplausos, declarações de amor e palavrões.
Quanto a mim, nesse ano, experimentei a última ilusão eleitoral. Embalado pelos vinte e um anos incompletos e não tendo concluído ainda minha jornada cética, acreditei no discurso da mudança e, desafiando os laços de fidelidade familiares, ocultei a camiseta laranja sob a bem comportada camisa de botão. Ainda pude ouvir as palavras do velho Fook, meu avô:
— Esse pessoal já está há muito tempo no poder e mudar seria bom, mas já vi muita coisa e sei que os Vital do Rego não são flor que se cheire... – desconsiderei a sabedoria das cãs e, preterindo o método racional embrionário, votei com a emoção.

2005. Na iminência da colação de grau, vi-me diante de consultas mais pessoalmente urgentes que a do comércio de armas de fogo. Destinado pela família a ser juiz de direito e não morrer sem pelo menos ter chegado a desembargador, ainda não me permitira referendar a norma familiar, mas já sentira sua coação moral irresistível. Mesmo assim, dediquei algumas horas de reflexão ao sim e ao não e, para espanto dos mais próximos, decidi-me por votar a favor da manutenção do comércio e contra a velha estratégia governamental de resolver problemas velhos por meio de leis novas. No penúltimo domingo de outubro, espremido entre a monografia de conclusão de curso e o extenso programa de decoradas para concursos públicos, dediquei três segundos e dois desleixados toques ao exercício da cidadania e segui para o primeiro churrasco de despedida da turma.

2006. Graduado em Direito desde o começo do ano, eu adiava ao máximo o encontro marcado com o Exame de Ordem. Enquanto isso, decorava códigos e criava versos com a esperança de vender livros e livrar-me dos artigos de lei. Em julho, a aritmética eleitoral que se desenhou foi das mais previsíveis: adicionar quatro anos aos quatro de um ou aos oito de outro. Quando outubro se aproximou, recebi o convite para integrar-me ao batalhão de delegados do partido verde-amarelo; entretanto, recusei-o a fim de manter-me independente na escolha de um dos candidatos e na crítica a todos eles. No dia da votação, diante dos advogados de crachá e gravata que nos cruzaram os caminhos (alguns dos quais, inclusive, velhos colegas de faculdade), ouvi a severa repreensão materna:
— Não sei por que você não está entre eles!
Engoli a seco, porém satisfeito com a adição que fizera: a segunda regra ao meu método eleitoral - não votar em candidato que já tenha ocupado por duas vezes, consecutivas ou não, o cargo a que concorre no Poder Executivo.

2008. As palavras da professora de História ainda se projetavam em minhas reentrâncias cerebrais, quando me vi diante de problema que os programas de governo não puderam solucionar. Avançando para a conclusão do mestrado, viciara-me na pesquisa empírica e decidira buscar nas propostas dos candidatos à prefeitura o detalhe ou a generalidade que me faria escolher entre um e outro, ou vendar os olhos e verificar sobre que nome cairia – aleatoriamente – a ponta do lápis. Fixadas as alternativas, lancei-me à pesquisa de campo.
No comitê laranja, fui conduzido por um labirinto de salas e minotauros que me levavam sempre ao recinto seguinte, mas nunca ao objeto pedido; até que, enfim, apareceu-me um senhor tão simpático quanto desconsertado, para jogar a toalha: “Não temos programa de governo, só folder de propaganda!” No comitê amarelo, fui conduzido por um labirinto de salas e minotauros que me levavam sempre ao recinto seguinte, mas nunca ao objeto pedido; até que, enfim, apareceu-me um senhor tão simpático quanto desconsertado, para jogar a toalha: “Não temos programa de governo, só folder de propaganda!”.
Assim, abandonando a pesquisa empírica, retomei o método racional e – em obediência à primeira regra – votei na oposição.

2010. Do outro lado do balcão...
01, 02, 03, 04, 05, 06, 07, 08, 09, 10, 11, 12, 13, 14 – IMPUGNAÇÃO, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 42, 43, 44, 45, 46, 47 – CONTESTAÇÃO, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62 – PROCURAÇÃO, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 69, 70, 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81, 82, 83, 84, 85, 86, 86, 87, 88 – SENTENÇA, 89, 90, 91, 92, 93, 94, 95, 96, 97 – RECURSO, 98, 99, 100, 101, 102, 103, 104, 105, 106, 107, 108, 109, 110, 111, 112 – CONTRARRAZÕES, 113, 114, 115, 116, 117, 118, 119, 120, 121, 122, 123, 124, 125, 126, 127, 128, 129 – CERTIDÃO, 130 – CONCLUSÃO.

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Henrique VII, rei inglês que fundou a dinastia Tudor, pondo fim à guerra civil entre as duas rosas.

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