quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Entre grama e concreto (parte I)




1.
O avião pousa com atraso. A esteira circula, vazia, em torno de si mesma. São quase 10 horas da manhã e, como me recusei a pagar R$ 15 por um copo de suco e um pedaço de pão seco, sinto fome. Compro o bilhete do ônibus no minuto final e embarco às pressas, sem um único gole de café. Cruzado o Tietê, desperto do cochilo e começo a ruminar a cidade em recortes de grama e concreto. Aos poucos, revejo e reconheço… a Pinacoteca… o Santa Efigênia... o Anhangabaú… ou vejo e conheço... a Praça da República... o Terraço Itália... o horripilante Copan... O psicanalista já me alertou que Campina Grande e São Paulo são incomparáveis; entretanto, sou poeta – não resisto à subversão!

2.
Ao meio-dia e meia, desço na Avenida Paulista. No vão livre do Masp, um profeta distribui santinhos com sua versão do fim dos tempos. Cita o evangelho de Mateus para assegurar que não duraremos além da exposição de Albrecht Dürer. Penso em Roldão Mangueira e, por via das dúvidas, corro à Starbucks mais próxima para garantir meu café-com-muffin e ouver saciado as cornetas e os selos do juízo final. Uma senhora se aproxima e pede contribuição para suas obras de caridade natalinas. Um italiano senta-se ao lado e, celular na orelha esquerda, divide a mão direita entre a xícara acanhada e os gestos hiperbólicos. O casalzinho do outro lado da mesa troca sorrisos, pedaços de brownie e alfinetadas sobre “a falta de compromisso da Carina”.

3.
Bagagem acomodada e banho tomado, sigo em direção à Casa das Rosas. Anuncia-se uma exposição sobre Haroldo de Campos, mas tudo o que encontro é sua escrivaninha modernosa, edições de seus livros à mostra e o tremor do piso, ao som do metrô que passa por baixo. Em outra sala, o imprevisto. Sabia que Václav Havel fora ator, mas não fazia a menor idéia de que tivesse sido poeta. Tomo uma lição de lirismo com o seu caráter lírico, deleito-me com um dos melhores poemas concretos jamais lidos por mim em alienação e compreendo, como nunca, as propriedades do signo lingüístico e da verbovocovisualidade por meio de barreira.

4.
Na pausa para um pouco de água, um pouco de pausa para uma comparação: os cariocas não deixam rebolar uma única mulher bonita sem atirar pelo menos a mais reles cantada, enquanto os paulistanos não se desviam do celular e do cigarro por uma única garota que corra a caminho do andar de cima ou da estação de metrô mais próxima.

5.
Segundo propósito da tarde: atravessar a Paulista de uma ponta à outra, identificando alguns tons do seu cinza. No encontro com a Bernardino de Campos, paro diante de um sobrado-déco-com-puxadinho-sem-cor que se anuncia como hotel e não faz vergonha alguma às pousadas opacas do centro de Campina Grande. Logo adiante, cruzo a Praça Oswaldo Cruz, driblando velhos de papo para o ar e pombos de papo para o milho. Investigo o outro lado da rua, pensando que vou encontrar o Colégio das Damas, mas dou de frente com o Hospital Santa Catarina e seu presépio com votos de amor e esperança aos homens de boa vontade. No quarteirão seguinte, como se mergulhasse em um filme de Chaplin, topo com um vagabundo dormindo sob os reflexos do progresso e da prosperidade. Um casal de homens atravessa a J. Eugênio de Lima sobre a faixa branca, seguido por um casal de homem-e-mulher que lança olhares e bicos vermelhos para as mãos-dadas à sua frente. Na altura da Pamplona, uma companhia teatral solicita contribuições em meio a missionários do Hare Krishna que distribuem panfletos gratuitos. Dois ou três passos depois, entretenho-me com uma equação: o trapézio da FIESP menos o semicírculo da FIEP é igual a um S e quantas centenas de bilhões de $? [parada no Masp]. A agência para atendimento personalizado do Itaú simula neve de verão diante de celulares-fotográficos e sorrisos matutos. Uma senhora de sobrancelhas e unhas postiças sobe a Haddock Lobo, arrastada por um cachorro peludo mais forte que suas pernas. Na divisa da noite, a igreja de São Luis Gonzaga acolhe a prece e o cochilo de meia dúzia de penitentes. Gravatas e saltos seduzem jovens de queixos erguidos para-cá-e-para-lá... gravatas e saltos arrastam velhos de bicos entediados para-lá-e-para-cá...

6.
Às dez horas da manhã, salto na estação Alto Ipiranga, tomo o ônibus elétrico e, ao sinal carrancudo do cobrador, ganho a rua. O milharal de espigões fica distante e, como se flanasse por uma pacata cidade pequena, começo a ouvir latidos de cão, ruídos de vassoura, o sino de uma igreja e a conversa arrastada de velhinhas na calçada. A uma delas, pergunto a direção do museu. À direita, subindo até a Avenida Nazaré! – o sorriso de avó amorosa estampado. Quatro quarteirões acima, os frontões clássicos, os capitéis coríntios e os mosaicos romanos enlevam-me com a emoção que o Copan ou o Terraço Itália não me proporcionam. Ocorre-me uma impressão: talvez, a monumentalidade da arquitetura moderna sirva para exibir ao ser humano sua própria proeza, ao passo que a ornamentalidade das velhas arquiteturas – diluída no tempo sua façanha original – sirva para curvar o ser humano à ânsia do além-da-coisa.

7.
Apesar do riacho-esgoto Ipiranga (às margens mortas do qual, ouço o brado de um helicóptero), da cripta imperial e das mechas de cabelo de princesas e imperatrizes do Brazil, o museu é paulista e se destina a reproduzir aos seus visitantes a narrativa que o estado de São Paulo faz de si mesmo, a partir de um fio condutor resgatado da época colonial: o bandeirante, aqui transformado no primeiro empreendedor. Na entrada, Fernão Paes Leme fita a turmalina, embora buscasse esmeraldas, enquanto a placa informativa da escultura explica que “o importante é empreender”. No primeiro cômodo à direita, os resquícios da velha matriz colonial lembram que São Paulo já teve uma catedral barroca como a de todas as outras dioceses brasileiras centenárias; entretanto, preferiu substituí-la por imponentes torres góticas no século XX. Na sala dos heróis, algumas lições de como a historiografia pode refigurar a história: Domingos Jorge Velho posa para o retrato – póstumo em alguns séculos – à maneira de Luís XIV... Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, ateia fogo em aguardente para ludibriar os índios acerca dos seus poderes mágicos... Oscar Pereira da Silva pinta o Combate de Botocudos, transferindo-o do Espírito Santo para Mogi das Cruzes e substituindo o índio-soldado pelo bandeirante bravo...

8.
São quase duas horas da tarde quando subo novamente as escadarias da Sé e dou de cara com um casal que clica a fotografia para, depois, conferir a paisagem. Os bancos da igreja servem de abrigo para a sesta, o fuxico e a prece, enquanto turistas apontam celulares para o teto e vendedores oferecem souvenirs, recuerdos, lembranças na nave esquerda do templo. De volta à praça, ganho a rua em direção ao colégio dos jesuítas e percebo o contraste entre a fachada majestosa de edifícios já desbotados e as lojinhas acanhadas que abrigam mercadinhos, lanchonetes e sapatarias em promoção de R$ 29,99.

9.
Às quarto e meia da tarde, duas árvores dividem a Praça Ramos de Azevedo em três atos simultâneos de uma comédia metropolitana. No primeiro, para quem acaba de atravessar o viaduto do chá, um professor oferece lições de aritmética ao vento, em troca de contribuições voluntárias à sua mochila. No segundo, em frente ao teatro municipal, uma dupla de cantor e dançarina reúne em torno de si público considerável para um show de gospel sertanejo, com direito rebolado dele e beijinhos dela para a platéia. No terceiro, avançando em direção à República, um pregador de microfone laçado à cintura esbraveja contra o “mundo cada vez pior, com cada vez mais estrupo, dengue, tuberculose e nossa senhora disso e daquilo”, enquanto cambistas em torno de si anunciam negócios com dólar, euro, ouro e valores afins. Vadiando por entre os três atos, decido-me por seguir em frente, resgato meu bilhete para a ópera e retorno ao hotel.

10.
Chego ao teatro com uma hora de antecedência e aguardo o sinal na cafeteria, entre um gole de café sem açúcar e uma página com ambrosia de Borges. O mestre confessa apreciar idéias religiosas ou filosóficas pelo valor estético e identifica nisso certo ceticismo essencial. Sorrio com o peito. Soa a primeira sineta de Molière. Engulo a borra, fecho o livro e me ergo da cadeira. Ao atravessar a porta, percebo uma face conhecida no campo esquerdo da visão. Dou meia-volta e paro. Sorrio com a boca. Hesito. Aproximo-me.
— Presidente... (Fernando Henrique sorri) permita-me o prazer de cumprimentá-lo... (ele estende a mão) sou um admirador intelectual...
— Gentileza sua. É um prazer.
Soa a segunda sineta. Ameaço arriscar uma breve conversa, mas a mulher que o acompanha prende-lhe o braço e o faz seguir em frente. Cada qual se dirige à sua poltrona. No balcão, um velhinho alimenta o antigo hábito do binóculo na ópera. Quem procuraria? Lembro-me da leitura maquiavélica que Fernando Henrique, em certa oportunidade, ofereceu do seu próprio governo: a fortuna fê-lo presidente e a virtù imprimiu-lhe a cor da caneta. Os aplausos ao regente ressoam. Pouco depois, lady Macbeth canta


(continua na postagem abaixo)

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Retrato a óleo de Domingos Jorge Velho, feito por Benedito Calixto. Imagem disponível aqui.


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