quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Entre grama e concreto (parte II)




11.
Às nove horas da manhã, termino de avançar sobre mais um capítulo de Guerra e Paz na Alameda Jaú e desdobro o mapa para traçar a rota do dia. Apesar dos sabores do tablete, prefiro os deleites do papel. E tomo o caminho da estação República. Se o jovem Rostóv desnorteara-se entre o combate e a própria bravura, deslizo entre os empertigados de concreto com o olhar observador e natural do jovem Bezúkhov. E a Paulicéia abre suas rodas de ruído e silêncio para mim, sem a inquietação de Anna Pávlovna quando se está diante de algo grande demais e inadequado ao lugar.

12.
Salto do metrô e enveredo pela Rua do Arouche. Os espigões de São Paulo mantêm certa aparência de modernidade desbotada; fazem-me pensar que já foram imponentes e não muito belos, mas hoje são impotentes e enrugados de sol e fuligem. No Largo do Arouche, o olor das flores e os piados pendentes das árvores oferecem um intervalo idílico, com vistas ruidosas para o elevado Costa e Silva. Procuro o pastor e as cabras, mas tudo o que vejo é a sede da Academia Paulista de Letras. Atravesso a rua e, através do vidro, contemplo a cadeira vazia e o telefone abandonado na recepção do prédio: arte conceitual ou pausa para o mictório? Um, dois (os taxistas me investigam), três, quatro (a velhinha passa e sorri), cinco minutos...

13.
A Rego de Freitas me conduz à Marquês de Itu, que me conduz à Doutor Vila Nova, que me conduz à Maria Antônia – entre passos, pausas e espiadas. Espremido entre os brados evocados da história e a conversa miúda da rua, ingresso no velho prédio da USP e topo com a placa modesta que rende homenagem aos estudantes, professores e funcionários que lutaram contra o regime de 64. Seguranças e recepcionistas batem papo amistoso, mas não me convidam a entrar. Volto à rua, encosto-me a uma coluna e aciono o radar. Há mais jovens que vento no trecho. À esquerda, um casalzinho troca beijos, afagos e planos para o cinema no fim da tarde. À direita, dois amigos partilham a piola de cigarro e a crítica ao governador. Diante de mim, duas garotas passam sem pressa e comentam a prova em que se &*^%$#@. Em torno de mim, cheiros de comida em variadas tonalidades fazem-me o estômago falar e os pés procurarem pasto. Tomo a direção de Higienópolis e, às portas do paraíso, desvio de um mendigo guardando o sono dos expulsos.

14.
Crianças empurram babás, que arrastam velhinhos, que pressionam bengalas. Na Avenida Higienópolis, um marmanjo de seus cinco ou seis anos passa dentro do carrinho de bebê. Na Avenida Angélica, uma jovem encontra casualmente o rabino e lhe interrompe a caminhada para trocar cumprimentos e notícias. Na Rua Piauí, uma transeunte pede ao verdureiro que passe com o carro pelo seu edifício. Na Rua Maranhão, o jardim da velha Faculdade de Arquitetura e Urbanismo convida ao silêncio reflexivo. Por todas as ruas, os espigões conservam sua imponência corada, à qual se acrescem árvores macias e gorjeios açucarados. Com alguns milhões de livros vendidos, eu moraria em Higienópolis e freqüentaria, todas as tardes, a Cristallo, onde a mocinha simpática perguntaria a mim – como perguntou à senhora da mesa ao lado – sobre a saúde, os filhos e a viagem ao interior.

15.
Às oito e meia da noite, salto do táxi na esquina do SESC Consolação. Poderia jurar que estou diante do Bar do Tenebra, em Campina Grande – mas é, outra vez, a algazarra estudantil espalhando-se pela Maria Antônia. O saguão do teatro já está concorrido e, entre um gole de café e uma folheada do programa, reconheço um casal que eu vira na ópera; eles elogiam a Macbeth da véspera e se derretem pelo Antunes Filho de logo em seguida. Às nove horas em ponto, nenhum sinal de Molière. Avanço além da porta e mergulho na penumbra da platéia. Penso em voltar ao saguão, mas confirmo o horário: nove horas. É tempo! Tateando a penumbra, desço pé-após-pé os degraus até encontrar, com dificuldade, minha poltrona. Sento-me. Um estalo ecoa do teto, uma voz se dispersa do fundo, uma risada me faz olhar em torno de mim, sinto o frêmito dos solitários e compreendo por que teatros vazios são convidativos a assombrações. Da coxia, dois olhos me observam, duas pernas avançam até o proscênio e uma boca me denuncia: ei, você aí, não pode ficar aqui não! Dou de ombros, o corpo avança em minha direção, a sineta toca, as luzes se acendem, o público começa a tomar seus lugares e Geni, ainda coberta, retoma às pressas sua posição no texto de Nelson Rodrigues.

16.
Entre o café-da-manhã e o check out, entre o checaute e o concerto, os intervalos não permitem grandes passeios. Uma exposição acanhada na FIEP comemora o centenário de Nelson Rodrigues... a poltrona da FNAC resolve-me o ócio nas mãos e a dor nos pés, transportando-me para os tempos de Maria Antonieta... Às quatro horas, resgato meu bilhete na Sala São Paulo e sigo para o café e a espera. Velhinhos arrastam bengalas para-lá-para-cá. Eu curto o bombom de nozes. Os convivas não curtem minha mala e me lançam franzidos de interrogação: algum técnico em sonoplastia de agenda trocada? algum vendedor ambulante de partituras? algum subversivo filiado ao Guns N’ Roses? Perco-me por entre os corredores de acesso, sem encontrar a porta do meu balcão. Os olhares de suspeita redobram-se sobre minha mala e os seguranças compartilham informação. Sinto-me devassado e redobro os passos à procura da poltrona até encontrá-la dois andares acima e três curvas depois. Mãe e filha dividem a fileira comigo e sorriem para a mala. As luzes se apagam, as palmas ressoam e a clarineta inicia a Parada.

17.
Nenhum avião cairá antes que eu veja São Paulo pela terceira vez.

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