terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Anovelho






Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um… e as luzes irromperam no céu, as vozes dispersaram-se em um intraduzível clamor de alegria e a câmera deslizou do palco para o alto e daí para o plano inteiro de praia, prédios e pipocos. Mas, no lobby do Atlantic Hotel, uma hora a menos do horário de verão fazia a cena ser apenas um prenúncio transmitido pela emissora do sul e visto ali, das mesinhas do bar com vista para o mar, pelos hóspedes que aguardavam seu próprio réveillon. Poucos hóspedes, na verdade; àquela altura, a maior parte já havia se dirigido à praia ou a algum restaurante da orla para ver e ouvir o novo ano chegar no colorido estridente dos fogos de artifício.

A porta do elevador abriu, duas senhoras saíram e alguém soltou um “Finalmente!” aliviado. “Vamos logo, antes que seja tarde!” – completou outra pessoa do grupo de seis ou sete que as esperavam… um homem assinou a comanda que o garçom lhe apresentara e saiu apressado com a mulher e o filho pequeno em direção à escadaria da entrada… a porta do elevador tornou a abrir, um grupo de rapazes e moças surgiu animado no saguão, demorou-se alguns minutos e embarcou na van que o aguardava… “o senhor deseja mais algo?” – e o homem que ainda restava no bar, acenando um gesto negativo qualquer ao garçom, conferiu o celular. Vinte e três horas, vinte e quatro minutos, nenhuma chamada.

O homem descera ao bar duas ou três horas antes e pedira uma garrafa de água antes de começar a série de cafezinhos com que acompanhava os incontáveis cigarros que tragou um após o outro. Aqui e acolá, ele dedilhava alguma coisa no tampo da mesa, depois acariciava a toalha bege que o cobria e, por fim, levava a xícara à boca. Seus olhos ora se detinham na televisão, ora erravam entre as mesas do bar e os ambientes da recepção, ora se perdiam no mar e nele pareciam imergir levando consigo o corpo inteiro até que um movimento qualquer os distraísse e, como um salva-vidas inconsciente da boa ação, resgatasse o homem do afogamento iminente. Era então que ele ouvia os fragmentos de conversa e percebia a ebulição em torno de si.

Ouviu uma criança perguntar pelo avô, viu um filho beijar o rosto da mãe, ouviu uma garota dizer impropérios a alguém que os recebeu em silêncio, viu uma esposa procurar o marido que não estava no bar, ouviu quatro ou cinco famílias concluírem os planos para a noite, viu a praia logo adiante encher-se de gente, ouviu celulares tocarem e as felicitações que seguiram… “quanta honra nesta ligação!”… “feliz ano novo, minha amiga, tudo de bom pra você!”… “vê lá, não vai romper ano dormindo, hein?!”… “pra você também… outro… se cuida… tchau!”…  mas não ouviu o toque do seu celular uma única vez e, quando o garçom lhe perguntou pelo que desejava, não viu mais ninguém nas mesas além de si mesmo refletido no espelho.

Tão logo fitou sua própria imagem, ele inquietou-se na cadeira e novamente desviou os olhos para o celular. Começou, então, a apertar aleatoriamente as teclas, como se fizesse disso um passatempo. Depois, fechou o aparelho e soprou um suspiro tão intenso que despertou a atenção do garçom, a quem fez um gesto de “a comanda, por favor!”. O homem assinou o papel, levantou-se, recompôs as calças na altura do umbigo e sondou o ambiente como se procurasse outro lugar onde acomodar-se. Ensaiou dirigir-se ao elevador, mas conteve os passos. Voltou-se para o restaurante, um pouco atrás, e o viu deserto de hóspedes. Ergueu a cabeça para o alto, contemplou o imponente pé-direito e tornou a baixá-la, fixando os olhos nos pés. Suspirou novamente, mas desta vez ninguém o percebeu.

Dirigiu-se à porta do hotel. Na recepção, o único funcionário em serviço naquele momento cumprimentou-o brevemente com a cabeça e voltou a entreter-se de longe com a agitação que havia na praia. Na calçada interna do prédio, os dois manobristas de plantão disputavam o mais longo bocejo. O homem também bocejou, os três se entreolharam e trocaram acanhados sorrisos. Ele ameaçou atravessar a rua larga e atingir a calçada da praia, avançou alguns passos, deteve-se… e, sentindo a brisa quente sufocar-lhe o rosto, retornou apressado ao interior do hotel, onde novamente conferiu o celular. Vinte e três horas, trinta e dois minutos, nenhuma chamada. E os três elevadores estacionados no térreo, com as portas abertas, convidavam para cima.          

O homem hesitou por alguns segundos, tornou a olhar o exterior festivo do hotel, quis dizer algo ao funcionário da recepção, a quem se juntara o garçom do bar, mas ambos conversavam entre si voltados para a praia. Decidiu-se e tomou o caminho do elevador à direita. Somente então, quando começou a atravessar as salas de estar em que se dividia o saguão, percebeu que havia um casal no mais reservado dos quatro ambientes, ocultado por uma das pilastras grossas do edifício. Ele continuou caminhando, mas seu olhar desviou-se para os dois… prosseguiu, parou às portas do elevador e, cruzando as mãos pelas costas, desenhou feições de intriga no rosto. Deu meia volta e, discretamente, acomodou-se na sala contígua.

A princípio, o homem pareceu distrair-se com as revistas que estavam espalhadas sobre o centro da sala, mas o olhar enviesado que lançava ligeira e intermitentemente para o outro sofá denunciava-lhe a verdadeira intenção. Ele sondava o branquelo de cabelos pintados e maçãs do rosto enrubescidas que trocava sorrisos com a morena de madeixas pretas e batom vermelho nos lábios; conferia o contraste da bermuda florida e da camisa levemente desabotoada que forjavam jovialidade no velho com o vestido decotado e curto que descobria os seios e as pernas viçosos da moça; flagrava a mão sorrateira que acariciava o braço, o pescoço faceiro que se entregava ao dengo, o pé inquieto que avançava sobre a coxa; captava a fragrância açucarada e a palavra lasciva, em sons estrangeiros, que lhe atravessavam os tímpanos numa corrente indiscreta de ar… deixou-se atrair pelo que observava de esguelha e, quando o casal levantou-se, não conteve a boca entreaberta e a mão estendida em forma de súplica; abandonou o recato, fixou os olhos nos dois, viu-os cruzar as palmeiras artificiais do saguão alheios a quem os notava e emburacar no elevador à esquerda; acompanhou os números dos andares sucederem-se até estacionar no mais alto; afundou no sofá, com os olhos semicerrados e um sorriso malicioso na boca, reclinou a cabeça… largou o corpo ao transe… e nada mais ouviu além de sua própria respiração, ofegante… ou um rumor distante de números decrescentes… nove… seis… quatro… dois…

…e o estrondo dos fogos ecoou pela praia, escorreu pelo lobby do Atlantic Hotel e penetrou o devaneio do homem, fazendo-o voltar a si num sobressalto! Ele inspirou ar demoradamente, soprou um longo suspiro e olhou em torno; não havia ninguém por perto, os poucos funcionários concentravam-se na entrada, contemplando o clarão colorido no céu, e o elevador à esquerda continuava parado no último andar. O homem levantou-se, recompôs as calças na altura do umbigo e, enfiando as mãos nos bolsos como se procurasse algo que lá se perdera, caminhou para o bar. Acomodou-se numa mesa, fez um gesto de “um cafezinho pequeno, por favor!” ao garçom que já retornava ao posto e, acendendo mais um cigarro, conferiu o celular. Zero hora, um minuto, nenhuma chamada.

(Conto originalmente publicado em setembro de 2009 no antigo Arriscos.)

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 Imagem disponível aqui.

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