terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Diário do Marquês de Ariús: novo trecho




Para quem não leu no Caderno B do Jornal Contraponto, mais um trecho do diário.

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7 de dezembro

Creio que já tive desapontamentos suficientes neste fim de semana para evitar, por hoje, a arte de ruminá-los nestas páginas, como se eu fosse uma rês de gado a alimentar-me da pastagem de qualquer burocracia moderna! Não tenho quatro estômagos, embora me restem dois ouvidos bons... e – hélas – ultrapassados! Definitivamente, este fim de século é muito pior que os vaticínios anarquistas de Jacó! Que venham, pois, os gurus e seus insights! Haverei de recebê-los com versos de Virgílio e... – que direi? – folhas de bananeiras!

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8 de dezembro

Ardo em febre e decepção! O que mudou? Por que mudou? Não foi ontem que saiu daqui meu bom garoto recitando poetas latinos?! Ainda posso ouvir os sons melífluos de sua récita... Entretanto, já não consigo recordar quais eram os versos, subjugados que foram por infames frases de efeito!

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9 de dezembro

Rosendo falou-me da nova sociedade instruída. Está emergindo – garantiu-me ele – e já é fato consumado nos países mais avançados; não tardará a chegar ao Brasil, depois das medidas de abertura tomadas pelo governo do janota. Mas, de que instrução se fala?! As humanidades não precisam morrer – disse-me ele – desde que se despreocupem da vida e se ocupem de como ganhar a vida.

A filosofia e a história devem polarizar seus conhecimentos em torno da eficácia e dos resultados... a administração é uma arte liberal e, por meio dela, as humanidades recuperarão sua importância...

Não posso pensar mais nesses despautérios! Disparate! Disparate!

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10 de dezembro

Rusticus es, Corydon, nec munera curat Alexis;
Nec si muneribus certes, concedat Iolas.
Eheu! quid volui misero mihi? floribus Austrum
Perditus el liquidis immisi fontibus apros.

Ainda te lerão no próximo século, Virgílio? Consola-me, ao menos! Consola-me...

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11 de dezembro

De tudo o que disseram Rosendo e sua esposa sobre fazer dinheiro e gastá-lo, pouco ou praticamente nada se aproveita. Já é ou ainda será esta a nova ordem das coisas no mundo? Que ela venha, pois! Já estou de partida, heureusement... E morrerei dando as costas para tal abandono da velha e alta cultura! Terão os artífices da nova ordem a oportunidade de descobrir-se enganados? Viverão o suficiente para ser punidos pelas consequências desastrosas das suas opções utilitárias? Haverá sequer algum artífice para esta desordem das coisas do mundo?


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12 de dezembro

Mas há algo – agora vejo – aproveitável em tudo o que se disse entre estas paredes nos últimos dias. Uma biografia... uma autobiografia... Ocupar o tempo e aproveitar a mente, foram essas as justificativas de Rosendo para o conselho que me ofereceu. Penso em fim mais elevado: registrar para a posteridade um modo de vida do qual devo ser o último remanescente e que comigo desaparecerá brevemente. Creio que ainda me restam forças para transformar estas linhas vadias em algo mais apurado...

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Outros trechos publicados podem ser lidos aqui.

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