quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O silêncio primordial





1.      “Posso ajudar, senhor?” – ouço a voz. Inspiro, expiro, repito a operação, acalmo-me. Contido, respondo: “Não, obrigado.” E ficamos de sorrisos trocados. Sim, sei que a pergunta, além de aparentemente inofensiva, deixa a mocinha simpática em dia com as normas de bom comportamento e o gerente em paz com o Código de Defesa do Consumidor. Mas, tenha paciência o leitor, que a minha já se esgotou na livraria. Deixemos a prestimosidade para as atendentes de sorveteria, cuja ajuda sempre vem a calhar diante da aquarela de sabores com nomes diversos e aparências concorrentes. Aos livreiros, o silêncio primordial! Mas há livreiros e não-livreiros...
2.      Outro dia, fui à Leitura e me perdi entre os cedês e os devedês até reencontrar-me com uma pérola de Frank Sinatra entre os dedos. Remasterização de canções antigas, de quando the end ainda não estava near e os olhos azuis zombavam dos grãos de café do Brasil. Satisfeito, estirei o achado à mocinha que me oferecera ajuda para processar a compra. Não satisfeita, ela foi da ajuda ao diálogo. “Frank Sinatra? Nunca ouvi falar! Deve ser antigo...” – a candura estampada. “Ele morreu há uns quinze anos.” – a carranca espremida. “Ah, é por isso, eu só tenho vinte!” – a gota d'água. Não me ajudem, por favor!
3.      “Ranzinza!” – esbraveja o leitor. “Ela não conhecia o cantor, mas o que isso tem a ver com livros?” – pondera outro. Ponho o adjetivo na conta do estilo e passo a mais um relato. Deu-se o fato na Saraiva. “Posso ajudar, senhor?” – dessa vez, um rapaz. “Não, obrigado.” Mas o mercador fez ouvidos de si mesmo. “Nós temos os livros da saga Crepúsculo em promoção...” Interrompi: “Obrigado. Detesto Best-Sellers.” Nova investida: “Então, temos a coleção de clássicos de bolso da Saraiva...” Segunda interrupção: “Obrigado. Não leio clássicos em edição de bolso.” O rapaz persiste: “Quem sabe, então, esses livros de autoajuda...” O fim da picada: “Não blasfeme, meu caro!”
4.      “Ranzinza!” – insiste o leitor, com redobrada má vontade. Ponho o adjetivo na sua falta de estilo e conto mais uma. Ou duas. A Companhia das Letras anunciou o lançamento e eu voltei à Leitura: “Vocês já receberam o volume 2 das entrevistas da Paris Review?” A mocinha fez careta, procurou a resposta no teto e, finalmente, deu de ombros: “As entrevistas da Paris Hilton? Não, senhor.” E foi a mesma atendente que oferecera ajuda. Mas qual?! Dias depois, retornei à Saraiva (o leitor há de ter percebido que freqüento as duas alternadamente). Desviei da pergunta, abaixei-me por trás da mesa, esquivei-me entre a coluna e a prateleira, mas não escapei do tiro: “Posso ajudar, senhor?” Agradeci e segui em silêncio. Na fila do caixa, a mesma atendente aproximou-se e pontificou com orgulho para a colega: “Escuta só, esse livro diz que o pai de Hitler era tio da mãe dele. Deve ser por isso que Hitler matou tanta gente!” Não me ajudem, por favor!
5.      Escrevi acima que, aos livreiros, deve ser reservado o silêncio primordial. Resgatei-a intuitivamente da imaginação; entretanto, agora percebo que a imagem vem a calhar. Visualizemos (ou tentemos visualizar) o espírito do deus cristão pairando sobre as águas. Ele é eterno, mas já conhece o tempo; não se move, mas já conhece o movimento incessante dos seres que existirão; nada o afeta nem interfere em sua vontade, mas ele já conhece as afecções futuras dos seres e as vontades com as quais estes tentarão demovê-lo das suas sentenças de vida e morte. Temos aí senão o silêncio primordial, sua aproximação. Pois eu afirmo que, depois do deus cristão, só os livreiros autênticos conhecem o silêncio primordial!
6.      Dir-me-á o leitor cético que, se o primeiro jamais existiu em todo o Universo, o segundo talvez tenha conhecido a luz da Terra, mas isso se deu no passado distante e em terras desconhecidas; no máximo, algum exemplar há de ter habitado o Ouvidor, no Rio de Janeiro, quando Pereira Passos ainda não desbravara a Rio Branco. Concordo com a primeira descrença, mas não posso admitir a segunda. A figura ainda existe e, em João Pessoa, pode ser encontrada na Galeria Augusto dos Anjos. Ela atende pelo nome de Henrique e, do seu banco, paira sobre livros e clientes com a indiferença atemporal que só o livreiro autêntico sabe ostentar.
7.      Em 2007, eu cursava o mestrado em Direito da Universidade Federal, que ainda funcionava no prediozinho velho no cruzamento da General Osório com a Guedes Pereira. Às quartas-feiras, o professor André Régis de Carvalho (que havia acabado de concluir doutorado na New School de Nova Iorque e estava determinado a fazer da UFPB uma Columbia) anunciava o título de algum calhamaço de quatro ou cinco centenas de páginas que deveríamos ler até a aula seguinte. A princípio, as recomendações eram fáceis de encontrar; mas, um belo dia, ele pediu O Fim da História e o Último Homem, de Fukuyama. O livro estava esgotado, não havia quem o encontrasse, das livrarias do shopping à estante virtual, passando pelo sítio da própria editora e pela biblioteca central. Foi então que soube de Seu Henrique.
8.      Um colega, Luciano Medeiros, teve a idéia recursal e apelou extraordinariamente à Paidéia (eis o nome sugestivo da livraria). Entrou no cubículo onde mal se abre uma passarela entre as pilhas de livros e os pingos de suor. Investigou. Nosso homem manteve-se no silêncio primordial. Quando já não tinha mais esperança de encontrar o volume por si mesmo, Luciano perguntou: “O senhor tem aí aquele livro de Fukuyama, O Fim da História?” Seu Henrique disparou, com a onisciência que só os livreiros autênticos possuem: “Vocês procuram os livros impossíveis no shopping e na internet. Quando não os encontram, porque estão esgotados, vêm aqui achando que eu sou a solução. Diga aos seus colegas do mestrado que eu não sou e, se estão pensando que eu só tenho os livros que os outros não têm, nem precisam mais vir aqui!”
9.      Luciano narrou o fato quando todos nós já havíamos perdido a esperança de fazer bonito diante do professor. Alguns colegas invocaram as leis consumeristas e as regras do marketing para explicar por que seu Henrique acabaria por perder meia dúzia da clientela. Invoquei as antirregras da poética para explicar a mim mesmo por que havia acabado de descobrir ouro no centro de João Pessoa. E fui ao seu encontro.
10.  Lá estava ele. Pairando sobre os livros. Entrei, driblando a pilha inicial de manuais para concurso, e comecei a serpentear por entre as estantes e a mesa, até topar com o espírito divino, mergulhado no silêncio primordial. Nenhuma oferta de ajuda nem mesmo um sorriso que convidasse ao pedido de orientação. Naveguei pela filosofia, pela história e pela divulgação científica. Por fim, arranquei a lombada de O futuro da democracia da prateleira e estendi o volume ao homem. “Vou levar.” Somente então, ele falou, como se fosse o próprio criador emergindo do caos primitivo: “Bobbio! Se você está interessado neste livro, tenho outro aqui que vai lhe servir.” Que belo estágio não faria aqui a mocinha de vinte anos?!
11.  Desde então, tenho retornado à Paidéia sempre que posso. Certa vez, perguntei por A Civilização do Ocidente Medieval. E ouvi a voz firme em resposta: “Tenho muita coisa de Le Goff, mas não poderia encontrar agora. Deixe o seu telefone, que ligo amanhã ou depois.” Nada seria mais impróprio a uma livraria autêntica do que o senso de eficácia e rapidez de uma operadora de telefonia. Passei-lhe o número com deleite e com maior prazer ouvi sua voz dois dias depois: “Ainda não encontrei nada de Le Goff, mas tenho aqui algo de Duby que talvez lhe sirva.” E o que dizer do dia em que estive lá à procura de Criação Imperfeita e vi diante de mim um leque que ia de Huxley a Dawkins? Ave, Henrique, três vezes ave!
12.  Há alguns meses – para concluir –, lamentei ao bom homem a falta de livrarias no Reino da Borborema e lhe lancei a proposta. “Por que não uma Paidéia em Campina Grande?”. Ele sorriu, coçou a cabeça, louvou os prazeres da cidade e, por fim, desculpou-se: “Gostaria muito, mas tenho que organizar primeiro essa bagunça...”. O que é uma pena; afinal, para os livreiros autênticos, a completude da criação não se dá em sete dias. Aliás, para que eles possam pairar sobre os livros no silêncio primordial, convém que os livros mantenham-se, inseparados, no caos primitivo.

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Lamento que a mocinha simpática não tenha tido a oportunidade de ouvir algo assim...

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