sábado, 9 de março de 2013

Sé vacante: um ensaio em dez minutos (I)


1.

Em seu interessante livro sobre a Igreja Católica, o teólogo suíço Hans Küng afirma que a história da instituição é uma tapeçaria rota e encardida que tem, entre seus componentes, um longo fio dourado que se utiliza renovadamente: Jesus de Nazaré. Se eu ainda acreditasse no deus cristão, resultado da metamorfose do deus hebraico Javé, e nas narrativas que se contam sobre ele e seu autoproclamado filho nos evangelhos e nas cartas apostólicas, seria possível que não me interessasse mais no catolicismo como meio de exercer a fé no fio dourado. O papa e sua corte, juntamente com a hierarquia clerical, os ritos litúrgicos e os atos de piedade formam um conjunto que continuamente tem se mostrado mais digno dos sete ais contra os fariseus (Mateus 23, 13-32) do que do maior dos mandamentos (Mateus 22, 34-40). Ocorre que sou hoje apenas um agnóstico a quem apraz de tal modo a fruição do conhecimento histórico e o gozo da experiência estética, que boa parte daquela tapeçaria me cai como luva na mão do interesse intelectual e artístico: ou não é o sumo pontífice um resquício inofensivo dos antigos césares, conduzindo uma corte renascentista através de rituais e cenários que ostentam o esplendor do barroco, tudo isso com um persistente toque medieval?

2.

Um papa que abdica é motivo de espanto até mesmo para os sempre discretos príncipes da Igreja. “Não se desce da cruz!” – protestou o cardeal Dziwisz, arcebispo de Cracóvia. “Um perigoso precedente!” – advertiu o cardeal Pell, arcebispo de Sydney. Da surpresa, qualquer fiel devotado vai intranqüilamente ao escândalo, quando escuta que o papa deixou o trono em meio ao vazamento de documentos que revelam transações nada sagradas nos corredores do Vaticano e aos rumores de prostituição masculina e ameaças de morte que exalam de um sigiloso inquérito conduzido por três cardeais, com direito à cereja o mais escarlate possível: a renúncia do cardeal arcebispo de Edinburgo, Keith O’Brien, após ter sido acusado de assédio sexual por três padres e um ex-seminarista. E o próprio papa, agora emérito, alimenta o fogo da suspeita: alude à hipocrisia no seio da Igreja, condena as divisões que comprometem sua unidade, afirma que sai para o bem da instituição e se despede falando das águas agitadas que sacodem a barca de Pedro.

3.

Li o livro de Gianluigi Nuzzi, escrito com base nos documentos extraviados por Paolo Gabriele, o mordomo. Nada nele implica qualquer vexame moral à pessoa de Ratzinger, mas muito dele atesta o que os católicos mais místicos digerem com dificuldade: não se governa a Igreja com preces nem com teologia, mas por meio de uma complexa organização formada por dicastérios, conselhos régios, embaixadas (a segunda maior rede do mundo), instituições financeiras controversas, tribunais de justiça, uma guarda real, um departamento de polícia, órgãos de imprensa e boa dose de contatos extraoficiais em lugares estratégicos, como o gabinete do primeiro-ministro ou a polícia secreta da Itália. Dirigindo uma estrutura que é simultaneamente religião e Estado, Bento XVI viu-se obrigado a lidar com problemas como a descoberta de que dioceses alemãs eram proprietárias de uma editora com cerca de 2.500 livros pornográficos no catálogo, ou denúncias de que seu secretário de Estado – o cardeal Bertone – implantara na imprensa matérias maliciosas contra desafetos e afastara de suas funções um arcebispo culpado por sanear os contratos do Vaticano, cortando superfaturamentos e vícios de licitação.

4.

Dos 24 até aos 50 anos de idade, Joseph Ratzinger foi mais propriamente um acadêmico do que um padre. Ordenado em 1951, teve curta experiência como pároco até ser chamado, no ano seguinte, para lecionar no seminário de Freising e, ato contínuo, iniciar carreira universitária como docente de teologia. Em 1977, foi nomeado arcebispo e cardeal de Munique, voltando a ter a oportunidade de atuar como ministro religioso. Pouco menos de cinco anos depois, entretanto, assumiu a prefeitura da Congregação para a Doutrina da Fé, dicastério responsável por zelar pela fidelidade de clérigos e fiéis à doutrina católica. Quando se tornou Bento XVI, aos 78 anos de idade, passara a quase totalidade da sua vida sacerdotal recolhido a sua timidez e devotado a questões puramente conceituais e doutrinárias. Não me espantaria se algum botão incômodo da batina despontasse do tapete, mas também não me surpreende que um intelectual octogenário tenha decidido voltar ao seu piano e à sua biblioteca, admitindo sua inabilidade para tratar de questões como o sumiço de Emanuela Orlandi das dependências de um convento romano ou a sensível redução das contribuições às obras de caridade de São Pedro.

5.

Antes de tornar-se um papa que abdicou, Bento XVI já era um papa que havia questionado a ausência do seu deus:

"Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal?” (em discurso durante visita ao campo de concentração de Auschwitz, em 2006). 

Antes mesmo disso, ele já era um cardeal que concordava com o diálogo entre as religiões ao mesmo tempo em que afirmava ser sua igreja a única verdadeiramente cristã; admitia a atualização da liturgia católica ao mesmo tempo em que defendia a permanência dos ritos medievais; advogava pela renovação da linguagem teológica ao mesmo tempo em que insistia na manutenção do conteúdo por ela veiculado; contrapunha-se ao que considerava ser os valores ruins do relativismo ao mesmo tempo em que, já eleito pontífice, dialogou com Nietszche em sua primeira encíclica. Passou às manchetes como o ultraconservador que não admitiu a renovação do discurso moral de sua igreja, mas determinou investigações, pediu desculpas e admitiu urbi et orbi que há descompasso entre a conduta de muitos padres e sua pregação. Talvez, o discurso sobre Ratzinger seja mais rígido que o próprio Ratzinger, deixando de captar a sutileza de certas contradições que fazem o encanto de qualquer ser humano e a grandeza dos intelectuais.

(continua na postagem abaixo)

*

Logomarca da Weltbild, editora alemã com títulos pornográficos no catálogo e dioceses alemãs entre os acionistas.

*

Nenhum comentário:

Postar um comentário