sábado, 9 de março de 2013

Sé vacante: um ensaio em dez minutos (II)


(continuação da postagem acima)

6.

Afirmei no primeiro minuto que o papa é o condutor inofensivo de um ritual tão belo quanto anacrônico. Ouço com atenção, porém, o protesto de qualquer Savonarola contemporâneo: “Como pode ser inofensivo um líder que influencia a opinião de milhões de pessoas mundo afora, pregando em desacordo com a liberdade moderna e reiterando proibições que alimentam o preconceito?!”. Paro. E reflito. Particularmente, sou um homem em sintonia com a liberdade moderna. Como não concebo a existência de um parâmetro universal que regule o comportamento humano, penso que os padrões sobre o que é correto e errado definem-se em duas instâncias: por um lado, os mecanismos discursivos das diferentes sociedades, nos mais diversos níveis e em distintas configurações de tempo e espaço; por outro, a consciência do indivíduo, em sua relação neurótica com as regras sociais discursivamente fixadas e os impulsos pessoais fisiologicamente processados. Quando o discurso moral se rompe e sofre pressões para reconfigurar-se, passam a existir dois polos de transgressão: o dos que aderem às novas regras, tornando-se infratores gradualmente inofensivos das antigas, e o dos que se mantêm partidários destas, tornando-se infratores gradualmente ofensivos daquelas; entre uns e outros, há sempre um mosaico de meios-termos, avanços, recuos, afirmações e contradições. Talvez, então, seja recomendável alguma prudência ao nosso bom Savonarola, antes de atirar o primeiro scrap pelo facebook.

7.

Mas talvez também seja recomendável mais cautela a quem se propõe a ser, por meio do Magistério, canal de comunicação entre seu deus e os seres humanos. Afinal, não foi o deus cristão quem, quando ainda era Javé, autorizou Abraão a ter filhos com uma mulher (a escrava Agar) que não era sua esposa, permitiu a Jacó ter duas mulheres simultaneamente e lhe fez promessas mesmo após ele ter passado a perna no irmão Esaú? Não foi também Javé que autorizou a escravidão, convocou guerras de conquista e prescreveu um código que, séculos depois, foi revisto por um profeta que se apresentou como seu filho e enviado para uma nova aliança que não mudaria um jota da antiga, mas lhe tirou muitas vírgulas? Se o deus que agora requer do seu vigário uma defesa da vida sem concessões é o mesmo que já admitiu retirar-se a vida de alguém pela fogueira para salvar-se sua alma, não se deveria desconfiar, pelo menos, de que sua vontade tem mudado ao longo dos anos? Se o deus que já proibiu como pecado o ato sexual realizado em cerca de 270 dias do ano agora o permite em qualquer dia, desde que praticado entre homem e mulher dentro do casamento, não se deveria desconfiar de que ele não vê com maus olhos o abrandamento das proibições? E se esse também é o deus que confunde os sábios quando estes tentam desvendar-lhe o segredo, por que não poderia confundir também o papa – a quem, agora sabemos, podem faltar as forças espirituais para conduzir a Igreja – em sua tarefa de interpretar a revelação divina?

8.

Por mais que a situação atual seja delicada, o conclave de 2013 evoca pouco do histórico turbulento das sucessões papais. Elas já envolveram morbidez, corrupção e disputas políticas mais apimentadas que a dancinha de cadeiras exposta pelo Vatileaks. Afinal, já vai longe o tempo do papa Estêvão VI, que determinou a exumação do corpo do seu antecessor, Formoso, submeteu o cadáver a julgamento e o condenou a ser atirado no rio Tibre. Um pouco mais próximo, mas ainda distante, segue o tempo em que disputas entre o partido francês e o italiano do Colégio Cardinalício – das quais se valiam reis e famílias nobres dos respectivos países – ensejavam conclaves longos e culminaram com eleições de papas simultâneos (um, em Roma; outro, em Avinhão) ao longo do cisma que perdurou por quatro décadas. E o que dizer dos papas renascentistas que ascendiam ao trono por meio de negociações de cargos e propriedades? Se ao católico contemporâneo – a quem a perda dos Estados Pontifícios fez crescer a confiança no Espírito Santo – espanta que o imperador austro-húngaro Franz Joseph tenha vetado a eleição do cardeal Rampolla del Tindaro no tão próximo ano de 1903, talvez surpreenda menos o depoimento que um cardeal anônimo ofereceu ao vaticanista Juan Arias às vésperas do segundo conclave de 1978 (aquele em que os cardeais Siri e Benelli travaram sua disputa fatal): 

"Tens que entender uma coisa, filho, e é que nenhum cardeal vai dizer o nome de outro como possível papa, pela simples razão de que cada um de nós pensa ser no seu foro íntimo o melhor candidato. Chega-se a cardeal sonhando-se com o papado. Por acaso nos reunimos a alguns cardeais mais afinados para evitar que alguém que não apreciamos seja eleito. Nada mais.” 

Fascinante!

9.

Quando certos analistas afirmam que o próximo papa terá de atualizar o discurso moral para evitar a sangria de fiéis, ocorrem-me duas indagações: se um número crescente de católicos conclui que pode orientar-se moralmente por si só, que diferença fará para ele a mudança na pregação papal? Se a Igreja alterar sua posição sobre os temas da vida e do amor, quanta garantia terá de não perder o apoio dos fiéis que hoje concordam com ela? Por outro lado, quando outros analistas asseguram que, de um conclave de eleitores nomeados exclusivamente por João Paulo II e Bento XVI, não se pode aguardar nenhuma surpresa, lembro-me de que Pio XII elevou Angelo Roncalli ao cardinalato e meus superiores hierárquicos no serviço burocrático sempre afirmam ao final das reuniões: “vocês podem discordar internamente, mas o discurso para o público deve ser único!”. Continuemos, portanto, com o depoimento do espirituoso cardeal a Juan Arias, apesar da pena de excomunhão prevista pela Universi Dominici Gregis para quem revela os segredos da Capela Sistina: 

“[...] o que fazemos, sobretudo nos dias em que nos reunimos em Roma antes do conclave, é analisar a situação em que se encontram a Igreja e o mundo durante a sé vacante e quem seria o melhor candidato para enfrentar os desafios atuais de dentro e fora da Igreja [...] Às vezes, entramos no conclave totalmente divididos em grupos com idéias e exigências diferentes, o que faz o papa dificilmente ser eleito no primeiro escrutínio.” 

E, é claro, vale lembrar que os purpurados também cantam o belo Veni Creator Spiritus.

10.

Se as fontes internas e anônimas dos principais vaticanistas europeus falam pelas Congregações Gerais, sabemos que os príncipes vermelhos têm debatido com franqueza sobre a situação da Igreja e do mundo, assim como sabemos que alguns pontos se fixaram no horizonte deste conclave: a reforma da Cúria Romana para dar transparência e eficácia às suas operações, a correção do descompasso entre a doutrina moral católica e a conduta sexual de padres crescentemente revelada, a implantação da colegialidade no governo da Igreja, a necessidade de um super-homem, digo, um papa que reúna sinceridade na fé, consistência intelectual, habilidade administrativa, experiência pastoral e – ufa! – capacidade comunicativa. Se as mesmas fontes falarem pelas urnas da Capela Sistina, sabemos que três cardeais poderão atrair bom número de votos nos primeiros escrutínios:

- Odilo Scherer, o arcebispo de São Paulo, lançado por Angelo Sodano e Giovanni Re, homens fortes da Cúria no papado de João Paulo II;

- Seán O’Malley, o arcebispo de Boston, cujo nome foi sugerido inicialmente a um grupo de cardeais por Camillo Ruini, ex-presidente da influente Conferência Episcopal Italiana;

- Angelo Scola, o arcebispo de Milão, próximo ao papa emérito e por quem há simpatia de um grupo de purpurados alemães e estadunidenses.

Mas Sodano e Ruini não votarão e isso é apenas o começo sussurrado da partida, com resultado imprevisível. Se entre os fatos, as fontes e a fumaça houver alguns desencontros, muitos escrutínios e um impasse, algum cardeal inicialmente colocado em segundo plano pode entrar na jogada – como o carismático Luis Antonio Tagle, de Manila – ou o experiente Marc Ouellet, que já liderou a arquidiocese de Québec e dirigia a Congregação para os Bispos quando da renúncia de Bento XVI. Ou, como bem lembrou em entrevista a John Allen Jr. o papável O’Malley, algum homem sequer purpurado pode contar com os favores da internet e as desculpas do Espírito Santo.

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Conta-se que Paulo VI afirmou certa vez que grandes coisas eram esperadas de dois então jovens teólogos: Hans Küng (foto acima) e Joseph Ratzinger. E, se após o silêncio que foi oficialmente imposto ao primeiro, os cardeais resolvessem destacar suas idéias entre os fios da tapeçaria?

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