domingo, 14 de abril de 2013

Pimentas e refrescos





Erigiram então uma bela estátua ao Tempo, com a seguinte inscrição: Àquele que consola.

(Voltaire, em 'Os dois consolados')





A primeira reação foi de espanto; a segunda, de indignação. Como era possível que, tendo uma casa confortável para morar e não lhe faltando os pratos mais saborosos, alguém ainda reclamasse assim da vida?! Ele tentou explicar-se: o problema não estava sob o teto nem sobre a mesa. Ocupação, é isso o que lhe falta! – concluiu a mãe. Você não entende que se trata de uma questão metafísica? – retorquiu o filho. Minha natureza está além dessas preocupações! E deram-se por controversados.

No fim de semana, a turma encontrou-se na casa de um amigo comum. Estou pensando em largar a faculdade! – ele confidenciou a um colega. Novamente o espanto e, depois, a indignação. Como era possível que, tendo ingressado em um curso tão concorrido e não lhe faltando as melhores perspectivas de emprego, alguém pensasse em jogar tudo para o alto? Ele tentou explicar-se: o problema não estava no curso, mas nas aspirações pessoais dissonantes.

Outro colega, que ouvira tudo de esguelha, penetrou na conversa. Como era possível que alguém fosse tão ingrato a ponto de lamentar o fato de usufruir uma oportunidadade que tantas pessoas gostariam de ter! Se eu fosse essas “tantas pessoas”, estaria grato. Como não sou... E o primeiro colega retomou a palavra: – aspirações dissonantes... capricho, é isso o que você tem! Ele tentou explicar-se, mas os dois interlocutores já tinham voltado os ouvidos para o caraoquê que acabara de começar.

Dali a alguns dias, o telefone tocou. Era um parente bem próximo – a quem a mãe pedira socorro em segredo – convidando para botar a cerveja no bucho e o papo em dia. Como era possível que alguém com saúde e a vida inteira pela frente estivesse pensando na morte? Ele tentou explicar-se: não falava da morte literalmente, mas da angústia do espírito. E a indignação atropelou o espanto: – não me fale de angústia quem não deve ao banco nem põe comida na mesa!

Enquanto conversavam, o telejornal começou a veicular as notícias da tarde. Havia enchentes, desabrigados, viúvas e órfãos no Rio de Janeiro. Aquilo sim é que era problema! Mas há problemas de outra natureza, mesmo para quem não perdeu a casa, o marido ou um filho... – defendeu. Nada, porém, é comparável à morte ou à doença! – replicou o parente. Você não acha que a dor é suficientemente subjetiva para desencorajar comparações tão categóricas? – foi à tréplica. E deram-se por satisfeitos com a cerveja.

Então, ele passou a freqüentar a psicanálise. Como é possível que, sendo tão afortunado por não me faltar casa, comida, saúde, educação, família, amigos e a vida inteira de oportunidades pela frente, eu me ache incompleto, infeliz, sem rumo certo? – perguntou ao deitar no divã. (...) Porque há um lado de mim que reconhece a importância de tudo isso e me faz sentir vergonha de não estar satisfeito, mas há outro lado, que não sei se compreendo e me faz ter orgulho de estar inquieto! E a sessão expirou.

Lamentos vão, conselhos vêm, ele não largou a faculdade, tornou-se bacharel e conseguiu emprego em uma grande empresa. Como é possível que alguém cogite a possibilidade de trocar um emprego promissor e relativamente bem remunerado por uma vida de mochileiro, errando pelo mundo à procura de sentido? – reagiu espantado um colega de trabalho. Mas e a experiência de vida, o contato com outras culturas... E a perda de tempo que o faria arrepender-se em seguida?! – interrompeu com indignação o colega.

Ele terminou não trocando o emprego pela mochila, mas a casa dos pais pelo próprio apartamento. Era pequeno, pouco maior que uma quitinete, mas seu tamanho era inversamente proporcional ao das responsabilidades que sua compra implicava. Como é possível que, tendo a prestação do apartamento e as contas de energia, água e telefone para pagar, além da feira, do condomínio, do gás, da prestação do carro, do combustível e dos honorários da diarista, ainda me entregue a diletantismos da juventude ao invés de empenhar-me em crescer na carreira? – perguntou a si mesmo ao final do primeiro mês vivendo sozinho.

E começou a crescer na carreira. Não demorou muito a ser promovido à chefia do seu departamento, depois passou a representar a empresa em algumas reuniões importantes. Tornou-se conhecido no ramo e terminou recebendo o convite para trabalhar em outra empresa: cargo importante, remuneração com vantagens, perspectivas mais amplas. Barganhou nos dois lados da corda, trocou de emprego. Mas foi demitido ao final de dois anos. E quase perdeu os cabelos.

Quase os perdeu, porque os cabelos continuaram no lugar e a cabeça passou a prestar serviço para uma nova empresa dali a poucas semanas. Retomou a carreira, vislumbrou as possibilidades de crescimento se reordenarem, traçou as metas e empenhou-se em atingi-las. Veio, então, um fim de semana de festa. Encontrou um antigo colega da faculdade. Como é possível que uma pessoa tão jovem, com preparo e força suficientes para se reerguer, possa jogar a toalha com tanta facilidade? – reagiu indignado aos lamentos do colega. É muito fácil dizer isso para quem conseguiu ser bem sucedido. Se você estivesse na minha situação... E nunca mais se reencontraram.

Fazia algum tempo que ele saía com uma garota. Já haviam dormido juntos várias vezes, passaram a gostar da companhia um do outro e se apresentavam como amigos. Aconteceu uma festa na família dele. Foram juntos e pergunataram se eram namorados. Ele não respondeu, ela sorriu. Depois ele foi apresentado aos pais dela no aniversário de uma tia. Um pretendente... – a mãe explicou para o pai. Dali a alguns meses, ela engravidou. E ele sentiu desatar-se da primeira das duas pontas da vida.

Ele passou algum tempo desconsolado. Como é possível que alguém esteja para ser pai e não curta a felicidade desse momento? – perguntou com espanto o irmão. E vieram os primeiros exames, as imagens da sonografia... Passaram a morar juntos no apartamento dele. As primeiras roupinhas, o berço... Como é possível que o bebê esteja para nascer e a situação dos pais não seja resolvida? – cobrou, indignada, a mãe. O sexo veio em março: uma menina... E ele a pediu em casamento. A criança nasceu em agosto, os pais se casaram em outubro.

No ano seguinte, mudaram-se para um apartamento maior. Logo em seguida, ele passou a dedicar-se a um projeto que, se fosse aprovado, poderia render-lhe alguma promoção na empresa. Certa noite, no meio de uma das jornadas extraordinárias em casa, notou o esforço da filha para engatinhar até ele. Esqueceu completamente as planilhas, acompanhou o lento desabrochar dos movimentos dela e, ao senti-la chegar aos seus braços, foi tomado por uma sensação de serenidade que jamais experimentara.

Duas semanas e alguns elogios pelo projeto depois, ele voltou para casa mais cedo com uma máquina fotográfica de última geração e a matrícula em um curso de atualização em fotografia. Como é possível que você tenha pensado em trocar a carreira pelo hobby, quando as duas coisas terminaram se mostrando perfeitamente compatíveis? – perguntou a esposa. E ambos, trocando um sorriso e um beijo, puseram a  filha no carrinho para passear na calçada da praia.
 

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O texto acima foi publicado inicialmente em 2010 no sítio da Sibila, com meu outro conto A loteria de Cartésio. Ocorre que, alguns meses depois, meus textos foram retirados de rede. Por quê? Perguntei... e aguardo resposta há mais de dois anos...

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Imagem disponível aqui.

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