quarta-feira, 1 de maio de 2013

O círculo de Lianinha (segunda parte)




O bota-fora havia sido idealizado com esmero pelo grupo das mais chegadas. Inicialmente, elas pensaram em reunião seleta, mas a notícia vazou na coluna social e a própria Lianinha, descobrindo o que seria surpresa, fez questão de coordenar os trabalhos e a lista de convidados. Minha última noite pública neste sítio do fim do mundo e vocês não querem que eu a prepare?! – protestou. Os arranjos já haviam começado, mas Lianinha tomou as rédeas a tempo de cortar poucos nomes, incluir muitos outros e, sobretudo, dispensar todo e qualquer serviço local. Não quero nada que não venha, pelo menos, de Recife! Ouviram?! Dos convites ao petit four, passando por danças e cadeiras! E assim se faria.

A mudança estava marcada para o começo de novembro. O marido teria que ir antes, para acertar os detalhes da fixação em Salvador, e Lianinha ficaria a fim de tomar as providências necessárias, quando o momento chegasse. A princípio, ela resistiu à idéia de permanecer no buraco por mais cinco meses. Depois, conformou-se à provação, diante do vaticínio de tempos difíceis. Vamos lá, meu amor, você sabe como são as primeiras semanas. Tomar café da manhã em hotel, almoçar na rua, dormir em flat... e o cachorro, onde vai ficar? Assim, fechou-se o acordo: ela ficaria durante a semana, tomaria o avião às sextas-feiras e trocaria o carro antes do Natal. Mas, então, sobreveio a crise conjugal.

Na primeira semana de julho, foi o marido quem voltou para casa. E na quinta-feira. Vinha acompanhado por um casal de amigos, interessado no Festival de Música. Um festival de música clássica nesta cidade de quinta categoria?! Onde contrataram o público?! – espantou-se Lianinha. Não adiantou a lembrança de que as edições anteriores haviam tido casa lotada, muito menos a referência ao caráter internacional do evento; Lianinha firmou pé e se negou a ir ao teatro. Encontro vocês depois, no Campina Grill. – e o silêncio consentiu. A primeira bronca no marido veio ainda no closet: Como você me faz ficar aqui no fim de semana?! A segunda, no carro: Não, você não desce com eles aqui no teatro! Na terceira, começou a crise.

Durante o jantar, o amigo perguntou:

— Então, Júnior, vai aceitar aquela proposta e ficar por aqui mesmo?

Lianinha cuspiu fogo na taça de vinho tinto, o marido dedeou desconcertado duas ou três circunferências no guardanapo, o outro compreendeu que deveria ter evitado o assunto e a esposa deste anunciou que iria ao banheiro. Eu não fico com você! O quarteto deu seguimento ao jantar em presto, entre pausas e colcheias dissonantes, até o último compasso, sem direito à sobrepauta. Em casa, ele tentou explicar. Um grupo grande, de atuação internacional, estava para abrir fábrica no estado e a cidade poderia abrigá-la. Ele havia recebido proposta de integrar a equipe que conduziria a análise de mercado e teria boas chances de ser contratado posteriormente. Mas não havia nada acertado nem mesmo quanto à instalação e ela seria consultada.

— Seria?! Mas não fui! E se fosse?! Não há consulta, Júnior! Não há sequer a possibilidade de considerar essa hipótese! Se nós não formos embora, eu... eu... eu...

O desenrolar imediato do episódio foi previsível. Lianinha não concluiu a ameaça porque desabou em lágrimas, Júnior não teve o consolo do pesadelo porque passou a noite no apertado sofá da saleta de televisão. No dia seguinte, falaram-se pouco. No domingo, o marido e o casal de amigos partiram no vôo da tarde. Durante a semana, Lianinha evitou o celular, marcou sessão extraordinária com o psicanalista e, muito hesitante, confessou ao pai suas dúvidas conjugais. O conselho paterno foi incontornável: mais vale um marido promissor na província que um divórcio desvantajoso na metrópole! A filha digeriu as palavras no fígado, embarcou no vôo da madrugada na sexta-feira e apresentou ao marido os termos do armistício:

— Há duas condições para eu... eu... admitir essa... essa... idéia. Primeira: ninguém pode saber que você está cogitando, co-gi-tan-do a possibilidade de não ir para Salvador. Todos, eu disse todos, sem exceção, devem continuar pensando que nós vamos embora. Segunda: se nós não formos embora, todos, eu disse todos, sem exceção, devem pensar que nós realmente nos mudamos.

E, à indagação perplexa do marido de como fingiriam ter partido se ficassem, ela deu de ombros:

— Pensaremos nisso se e quando houver necessidade!

Assim, Lianinha pôde retomar em fingida paz o instagram, o whatsApp e os preparativos para a Noite do Adeus. Porque bota-fora é uma palavra que não está à minha altura! – protestara desde o princípio. Julho evaporou-se em um piscar de quatro domingos e mal houve tempo de a comissão concluir qualquer acerto. Em meados de agosto, entretanto, os delineamentos se traçaram. O decorador e a banda viriam de Recife e os convites, de Curitiba. Locais, apenas os convidados e o colunista social. A data foi marcada para o segundo fim de semana depois do primeiro turno da eleição. E o salão? Lianinha ainda insistiu em fazer a despedida em João Pessoa, mas foi vencida pelo protesto das organizadoras. Garden, tudo bem, que se há de fazer?!

O plano inicial das mais chegadas era de apenas um chá para poucas, que elas próprias custeariam em regime de cotas iguais; entretanto, a intervenção de Lianinha elevara as dimensões e os custos à estratosfera. Logo, recolhidas as fraçõezinhas da sociedade limitada, foi preciso recorrer às arcas do rei e, como o príncipe consorte sequer desconfiava do que jamais aceitaria, foi o pai da homenageada quem, com um sorriso tão murcho quanto resignado, assinou os cheques e passou o lenço na testa. Assim, Lianinha e seu pequeno comitê puderam passar a assuntos mais urgentes e, quando setembro chegou, dedicaram-se a provas de vestidos e detalhes da ornamentação.

A essa altura dos fatos, a cidade se consumia em mais uma disputa eleitoral. Partidários de todas as cores em confronto pela prefeitura já se encontravam em estágio avançado do escambo de votos & favores – os prometidos e os fracassados. Depois do primeiro turno, entrou em circulação o rumor de que a vinda do grupo de atuação internacional fora mera estratégia para atrair vantagens e, não restando qualquer ganho considerável a colher do carteado eleitoral, a instalação da fábrica havia sido abortada, ou não passara de blefe. Nada se confirmou publicamente; contudo, no fim de semana entre o pleito e a festa, Júnior voltou para casa com a notícia de que não deixaria Salvador. Lianinha entregou-se com tanta pressa e intensidade à euforia que sequer percebeu a tensão com que o marido lhe falara nem mesmo buscou informar-se das causas daquela decisão; limitou-se a intimá-lo para a festa e sair para a última prova do vestido.

A Noite do Adeus veio dali a uma semana, com a pompa e a circunstância pretendidas. Na véspera, Júnior tentou dizer à esposa que tinha algo importante a ser conversado, mas ela não lhe deu ouvidos. Na manhã da festa, ele protestou contra a desproporção do evento, mas ela tinha hora marcada no salão de beleza. A caminho do Garden Hotel, Lianinha pediu ao marido que pelo menos se obrigasse a um sorriso discreto, para não parecer grosseiro com os convidados. No dia seguinte, quando ela acordou, ele já havia partido. Quando a noite caiu e a terceira xícara de café venceu a ressaca, ela acessou o sítio do colunista e se deliciou, horas a fio, com as fotografias da noite anterior, devidamente postadas e curtidas no facebook: as poses e os detalhes haviam sido tão perfeitos que nada impediria a felicidade que viria – longe dali...

No domingo seguinte, o marido não voltou à cidade para votar. Trabalho a fazer por aqui! – foi o que disse, monossilabicamente. Apuradas as urnas depois de um dia estranhamento tranqüilo, o pai de Lianinha não se desesperou em face da derrota do seu grupo político; tomado o café e engolida a borra, ligou para um amigo em comum com o candidato eleito e lembrou que também doara quantia considerável ao então adversário. Nossas diferenças, afinal, são águas passadas! – concluiu com humildade e confiança. Durante a semana, a família acionou os primeiros movimentos para oferecer um jantar ao futuro prefeito e, no feriado da sexta-feira, Júnior chegou. Encontrou caixas na sala, no quarto e na cozinha; ofereceu uma rosa a Lianinha, que espetou o dedo anelar no espinho ao segurá-la. Enfim, nossa última semana! Ele balbuciou algo em resposta. Os dois se entreolharam. Ela percebeu que em seu rosto se desenhavam feições de luto. Quem morreu?! – espantou-se. Precisamos conversar...

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Para ler a primeira parte, clique aqui. Os interessados na terceira parte devem aguardar que a musa me favoreça outra vez...

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