quarta-feira, 19 de junho de 2013

17 de junho! E depois...




Presente imediato

Comecei a acompanhar os fatos na noite do dia 13. Inicialmente, as informações dos sítios de notícia e os dados que circulavam pelo facebook pareceram-me tão contraditórios e precários que preferi suspender o juízo. Mesmo assim, reconheci de imediato a legitimidade da reivindicação do Movimento Passe Livre e anunciei a disposição para compreender humanamente ambos os lados em confronto, ainda que seus atos terminassem se revelando reprováveis e puníveis.
Na manhã do dia 15, já me dera conta de que a falta de traquejo democrático de quem detém o poder conduzira à inaceitável truculência policial da antevéspera em São Paulo, em contraste com a maioria pacífica das ruas. Já percebera também que o estado geral da coisa pública no país transfigurara a questão da tarifa em brado retumbante dos cidadãos brasileiros contra o sistema político e os efeitos perniciosos de suas falhas no bem-estar das pessoas.
Na tarde do dia 16, publiquei no facebook alguns tópicos despretensiosos em prol de uma filosofia fragmentada da moderação. Minha intenção não foi reprovar moralmente quem já tomara partidos mais extremos em favor dos fatos em curso, mas marcar uma dentre as várias posições possíveis. Disse lá, repito aqui: ordem, confronto e equilíbrio são três itens úteis para o funcionamento, a evolução e a sanidade de qualquer sociedade, respectivamente.
Quando vi cidadãos brasileiros subindo a rampa e cercando as cúpulas do Congresso Nacional na noite do dia 17, convenci-me de que os fatos em curso, embora tenham ponto de partida definido, envolvem frustrações e expectativas suficientemente plurais e até contraditórias para morrer na esquina do mês. Entretanto, eles estão marcando a época e revelando que o poder de quem decide deve ser pressionado pelo poder de quem escolhe. Decidi-me: vou à rua.
Mas, se vou à rua, irei contra o quê, em prol de quê?

Passado antigo

Enquanto imagens da quebradeira na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro e na Prefeitura de São Paulo viram manchete nos jornais, imagens da Queda da Bastilha correm o facebook e alimentam os fervores revolucionários. Vejo todas, reflito e tento extrair delas, senão o que dizem ao país, pelo menos o que sugerem a mim. Permita-me o leitor relembrar alguns momentos da história do Brasil no século XX. Voltarei a 1789 ao fim de três parágrafos:

– entre os anos 10 e meados dos 30, as ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo foram tomadas por manifestações operárias – inicialmente desconexas e tímidas, crescentemente vigorosas e articuladas – que lutavam contra a exploração selvagem do então incipiente liberalismo radical do empresariado paulista e carioca. Pleiteava-se de direitos trabalhistas dentro da ordem capitalista ao anarquismo. Getúlio Vargas soube canalizar os temores de ricos, remediados e oligarcas da periferia para implantar um regime autocrático e corporativista, que submetia o indivíduo ao Estado em paquera com o fascismo;

– depois de 1946 e até os anos 60, afloraram novas tensões sociais que não se resumiam apenas à luta operária. Em 64, depois de tentar promover a reeleição com o apoio da direita, Jango levou adiante seu plano de ser o novo e repaginado Vargas, insuflando os movimentos da esquerda com as reformas de base. O empresariado do país, a classe média nacional e os Estados Unidos assustaram-se, Castelo Branco e Amaury Kruel capitularam diante dos planos autocráticos de Costa e Silva e todos encontraram abrigo no pijama de Olímpio Mourão Filho e no traumatismo político que daí resultou;

no final dos anos 70, o movimento operário ressurgiu dos porões da tortura após a carnificina da tigrada1. . O movimento pedia direitos trabalhistas e contou com o apoio de conjunto amorfo de classes e interesses: de intelectuais radicais a líderes reformistas, de operários do ABC a quatrocentões da Paulista, de jovens e artistas contra os milicos a velhos socialistas em defesa da ditadura do proletariado. A conjuntura internacional começava a favorecer o discurso da democracia e dos direitos humanos, enquanto a nacional caminhou para as 'Diretas Já!' até desaguar na Constituição de 1988.

Agora, volto a 1789. Quando Luís XVI convocou os Estados Gerais, a nobreza, a burguesia e o povo tinham interesses completamente diversos e apenas um fator em comum: a inflação, que corroía as rendas de uma e os lucros de outra, enquanto aumentava a fome do último, em esmagadora maioria. Quando os séculos de exploração acumulada explodiram em revolta generalizada, os nobres convocaram a guerra, a burguesia buscou a monarquia liberal e o povo foi às armas para fazer a revolução.
Que cada qual tenha agido com os meios de que dispunha para chegar ao resultado desejado, é algo que se compreende historicamente. Mas não foram o liberalismo burguês dos Napoleões (o I e o III), a monarquia restaurada de Luís XVIII e Carlos X nem o "Terror" ou a Comuna de Paris que trouxeram à maioria dos franceses a maior felicidade possível. Isso só veio 160 anos depois da Bastilha, com o compromisso do pós-guerra pelo Estado de Bem-Estar. E não sem novas formas de exploração e confronto.
Penso em tudo isso para processar os fatos em curso e decidir sobre qual será minha perspectiva quando eu for à rua em Campina Grande no entardecer do dia 20. Sei que cada novo momento histórico é peculiar e, apesar das semelhanças e diferenças que possa ter com os anteriores, não haverá de ocorrer nos mesmos termos deste ou daquele. Mas a História ensina sobre o ser humano em sociedade e oferece a cada qual as lições que deseja extrair não tanto para provocar o incalculável futuro, porém mais propriamente para posicionar-se no presente escorregadio.
Penso que não somos a França feudal de 1789 nem o Brasil pré-moderno de 1930, ainda suportamos certa herança do Brasil autoritário de 1964 e já temos as conquistas do Brasil de 1988. Então, não irei à rua com clamores revolucionários no peito, embora compreenda os que assim vão e até aceite alguns desdobramentos deste ânimo. Irei à rua com a disposição de contribuir para que o poder de quem escolhe seja efetivamente introduzido em nosso sistema político, contra as decisões baseadas em conchavos para poucos e a favor do cumprimento da Constituição de 1988.

Futuro mais-que-próximo

Concluo o parágrafo anterior, paro e penso. Mas isso não seria o horizonte, o ideal a ser conquistado? Não é necessário traçar passos mais concretos e graduados tendo o cumprimento da Constituição e a afirmação do poder de quem escolhe como meta? Por outro lado, refiro-me à disposição que me move, mas há tantas e tão diversas ou até contraditórias entre as centenas de milhares de manifestantes, que só em sonho ou loucura eu poderia pretender que a minha significasse algo, singularmente, entre os protestos. Além disso, de todas as causas que levam os cidadãos às ruas, é preciso distinguir as locais, as regionais e as nacionais, as quiméricas e as alcançáveis, as maliciosamente interessadas e as ingenuamente repetidas, até mesmo aquelas que podem ser adequadamente conduzidas por lideranças seriamente comprometidas com a ordem constitucional democrática para implantar uma agenda positiva de reformas no país. Quais seriam tais causas? Como seus respectivos apoiadores se comportarão depois de amanhã, quando tarifas de ônibus baixarem, férias de julho chegarem e a rotina reinstalar-se? Haverá tentativas oportunistas e bem sucedidas, à direita ou à esquerda, de aproveitar o ensejo para projetos autoritários de poder? Acesse o leitor o facebook ou vá à rua e perceberá comigo que há tanta expectativa desencontrada que só a vaidade de pré-dizer em vão o futuro autorizaria alguém a arriscar o palpite de como tudo isso se (en/des)caminhará. Não posso prever nem posso propor, já que sou um escritor com uma platéia de não mais que duas ou três dezenas de leitores. Mas posso ir à rua, participar do que está ocorrendo e tomar o partido de algo quando a etapa seguinte se der. E se me for possível propor algo, quando isso ocorrer proporei cinco causas aos cidadãos da minha aldeia, na esperança de que elas contribuam para o país, sem perder o bom e velho humour:

-  deixar de dar ouvidos ao lero-lero de Cunha Lima, Vital do Rêgo e Quadrilhas Associadas de que "Campina sabe do meu amor pela cidade";

- não substituir sentimentalmente qualquer dos quadrilheiros acima mencionados e abrangidos por novos messias, poetas de pé-quebrado e tribunos de papo-furado;

- aproveitar o ensejo da tarifa de ônibus e eleger a mobilidade urbana como primeira questão a ser discutida publicamente para propositura de um programa de ação, a ser apresentado aos mandatários municipais, para cumprimento sob pressão das ruas;

- proceder gradualmente da mesma forma em relação a outras questões municipais importantes;

- resistir (de que forma? não faço idéia) às desavenças que as causas anteriores provocarão.

E mais não digo, porque a rua me chama para meu primeiro dia nela!


1. Tigrada: com esse termo, Elio Gaspari refere-se à turma que promoveu perseguição política e tortura sob as bênçãos de Costa e Silva, Emílio Médici, Sylvio Frota e oficiais associados.

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