sexta-feira, 28 de junho de 2013

notícia




Júlia Almeida Mota acordou no dia vinte de junho de dois mil e treze

tomou banho, comeu pão com geléia, escovou os dentes, se maquiou e só não fez a barba porque não tem uma

tirou o fusca da garagem, foi ao fórum trabalhista, fez duas audiências e um grama de justiça

passou no escritório, atendeu um cliente em processo de concordata, consultou o código civil e correu para o self service – ansiosa

conversou com uma amiga de infância, lacrimejou e confessou que ama o marido acima de tudo, mas queria dar para o promotor da quarta vara

fez outra audiência e obteve a prova do alegado, porém só espera o deferimento parcial do pedido

não se concentrou na petição que tentou escrever das duas e meia às quatro, embora o prazo estivesse escorrendo

foi ao fórum Afonso Campos, solicitou duas palavrinhas com o juiz e obteve uma, única e sêca

voltou ao escritório, organizou papéis imprevistos e vestiu o casaco para sair à rua

soube que o trânsito na Floriano estava interditado para uma passeata, mas não soube o que fazer depois disso

caminhou até a Praça da Bandeira, escutou a explosão de uma bomba e tremeu de medo

ouviu um rapaz de pano no rosto passar chamando ela de gostosa e ameaçou bater em retirada, mas foi em frente e sem notar se misturou na multidão

cantou o hino nacional e se afastou da sovaqueira de uma barba sebenta que estacionara ao seu lado

começou a marchar e dez passos depois desceu do salto pensando “ainda bem que trouxe a sapatilha na bolsa”

tremeu de medo ao estrondo de outro rojão, contudo não retrocedeu

gritou “sem vandalismo” três vezes antes de passar pelo teatro municipal e ganhou de presente um cartaz abandonado em que se lia “por minha gente contra o país da bunda e pelo país da mente”

viu dois conhecidos, acenou para eles e não foi correspondida

começou as ler os cartazes em defesa de saúde, educação, segurança, tolerância às diferenças e mobilidade e se deu conta de que estava participando da História

lacrimejou. Ligou para o marido e pediu que também fosse pra lá, mas ele acabara de sair de Recife

contornou o muro das Clarissas, a Câmara de Vereadores, a Igreja Presbiteriana e a Capela da Guia até ganhar o retão da João Moura e liberar um grito – agudo e alegre

cantou outra vez o hino nacional e gritou com gosto de gás pelo Brasil e contra a corrupção de Brasília

tomou um táxi do Açude Velho até o escritório, entrou no carro e voltou para casa

navegou por jornais, blogues e redes sociais até descobrir para seu próprio espanto que colaborara para um golpe fascista

acendeu uma vela para Nossa Senhora da Conceição e rezou as primeiras contas do terço

voltou a jornais, blogues e redes sociais e descobriu para seu próprio espanto que também colaborara para uma revolução das esquerdas radicais

rezou as contas seguintes do terço e não recebeu resposta de Nossa Senhora

não esperou o marido e pediu o jantar pelo delivery da Sapore

voltou a jornais, blogues e redes sociais e descobriu para seu próprio espanto que também colaborara para o amadurecimento da democracia brasileira

sentiu um sono gigante e adormeceu no sofá da sala durante a novela das nove

entreabriu os olhos depois de um estalo na testa, acompanhou o marido até o quarto e deixou as setas que lhe embaraçavam a cabeça para o confronto nos sonhos

descansou em paz às onze vinte e sete



Nota metalingüística

Comecei a escrever o texto acima na esperança de deixar o porto seguro da métrica tradicional e experimentar um pouco e radicalmente o verso livre. Poucos dias antes, havia feito a mesma tentativa com outro texto, intitulado petição. Quando mostrei o petição a Félix Maranganha, eu já deixara de tal forma os domínios da poesia que ele leu um conto. Quando mostrei o notícia a André Ricardo Aguiar, eu já embaralhara de tal forma a prosa que ele leu alguma experimentação na fronteira entre o conto e a crônica. Decidi considerar ambos transgênicos, ainda na esperança de que algum leitor leve em consideração os recursos à aliteração e a duas ou três imagens perdidas em meio aos fragmentos da narrativa. O petição fica para outra oportunidade, juntamente com o lei orgânica, a caminho...

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Imagem disponível aqui.

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