quinta-feira, 6 de junho de 2013

Quem não tem cão...




A primeira ligação veio no trânsito. 011... – ele viu os primeiros números e sentiu o sobressalto. Seria ele, Schwarcz, em pessoa? Não, não, seria um subordinado ou, no máximo, um editor menor. De quanto seria a tiragem inicial? E quanto receberia por cada exemplar? Aceitaria, é claro, o lançamento em São Paulo e no Rio, mas o primeiro teria de ser na cidade. O terceiro, vá lá, desde que com a mesma divulgação dos outros dois. E a noite de autógrafos na Cultura da Paulista? Na Travessa, em Ipanema! E só fazia três meses que enviara o original pelos Correios. Ele pensou tudo isso no mesmo segundo e, descuidando do tráfego com um sorriso de ás a ás, espetou o dedo na tela do aparelho:
— Alô!
— Bom dia, eu gostaria de falar com o senhor Jaques Mendes.
A voz do outro lado da linha era inconfundivelmente paulista.
— Pois não, sou eu. Pode falar.
— Senhor Jaques, aqui quem fala é a Pâmela da Itaucard...
O sorriso murchou em uma trinca de ás a três e o homem não escutou mais o que a moça dizia. Parou o carro na primeira vaga fortuita que encontrou e, pedindo licença em tom seco, dispensou a ligação e o serviço.
— Qual é a melhor hora que eu poderia estar ligando novamente, senhor?
— Depois da invasão de Washington por tropas iranianas! – e socou o aparelho de volta no compartimento do painel.

A segunda ligação veio para o telefone fixo, quando ele não estava em casa. Foi a filha quem deu o recado: um rapaz, com voz de paulista, havia perguntado pelo senhor Jaques Mendes. Inconfundivelmente paulista? – quis saber. Inconfundivelmente. – confirmou a filha. O homem desesperou-se. Por que não haviam ligado para o celular? Só podia ser coisa séria. Sim, estava claro. A operadora de cartões ligava para o móvel, mas a editora procurava o sujeito no repouso do lar. Queria surpreender o autor na altura de um parágrafo crítico, ou de uma rima preciosa. Além disso, a negociação inicial seria mais confortável no sofá de casa. E havia sido uma voz masculina. Luiz, em pessoa! Ele estava no quarto dia de ruminações quando o telefone tocou.
— Alô! – o sangue recuou mar adentro.
— Bom dia, eu gostaria de falar com o senhor Jaques Mendes.
A voz do outro lado da linha era inconfundivelmente paulista.
— Pois não, sou eu. Pode falar.
— Senhor Jaques, aqui quem fala é o Rodrigo da Itaucard...
O sangue voltou para o rosto como tsunami sobre os reatores de Fukushima. O homem lembrou que já havia dispensado os serviços da operadora. Mas o senhor ficou de pensar... – insistiu a voz do outro lado da linha.
— Como eu posso pensar, rapaz, se tenho um ladrão dentro da minha casa, com uma arma apontada para o meu rosto?! – esbravejou.
— Qual é a melhor hora que eu poderia estar ligando novamente, senhor?
— Depois do tiro! E antes do enterro! – uma lasca do aparelho destacou-se e voou longe, ao sabor do estrondo.

A terceira ligação veio na cadeira do barbeiro. 011... – ele viu os primeiros números, mas não sentiu o sobressalto. Quem seria dessa vez? A Karina, com K, da Itaucard? O papo com o espelho do salão já era suficiente. Não atenderia. Mas era sábado e já passava das quatro. Talvez, Luiz estivesse tão ocupado durante os dias úteis que tivesse decidido ligar de casa, com folga e sem interrupções. Ofereceria um contrato. Mais que isso, um jantar em sua própria residência. Sim, estava claro. Não seriam só autor e editor, mas também amigos. Por isso a ligação no fim de semana, em horário não comercial. Para acentuar a intimidade com que começariam a relação. Sentiu o sabor da culinária judaica nas papilas e espetou o dedo na tela do aparelho:
— Alô!
— Boa tarde, eu gostaria de falar com o senhor Jaques Mendes.
A voz do outro lado da linha era inconfundivelmente paulista.
— Pois não, sou eu. Pode falar.
— Senhor Jaques, aqui quem fala é a Lilia...
— Schwarcz?! – esperto, já mandou a mulher fazer o convite para a ceia.
— Não, Takemoto. Eu estou ligando da Itaucard...
Daí em diante o homem só escutou o ruído da tesoura na franja e sentiu a vista embaçada pelo tufo de cabelo que lhe caiu sobre a pupila esquerda. Espanou o olho com a mão, pediu licença ao barbeiro e disparou:
— Escute bem, minha filha, eu já disse mais de uma vez que não tenho interesse no seu cartão. Agora, digo mais: meu nome está sujo no SPC. Eu sou um estelionatário procurado pela polícia e recomendo que nem você nem seus colegas voltem a me ligar. Entendeu?
— Eu peço perdão pelo incômodo, senhor, e assim que o senhor resolver seus problemas com a justiça nós estaremos voltando a entrar em contato. Boa tarde.

Quatro meses depois da terceira e última ligação, Jaques voltou mais cedo para casa em uma tarde de quarta e topou com um envelope da editora no consolo da entrada. Atirou-se sobre a correspondência, rasgou sem cerimônia a parte colada e só na quarta releitura digeriu o que estava escrito: infelizmente, seu original não se enquadra na política editorial da empresa. Pensou em jogar a carta na lixeira, mas decidiu guardá-la como recordação. Nos dias seguintes, andou cabisbaixo. Três semanas depois, o celular tocou. 011... – a Itaucard! Diria que estava arrependido de ter dispensado os serviços da operadora e pediria desculpa pelas grosserias ditas nas ligações anteriores. Se aludissem ao estelionato, diria que fora tudo brincadeira e prometeria apresentar certidões negativas. Inspirou fundo:
— Alô!
— Bom dia, eu gostaria de falar com o senhor Jaques Mendes.
A voz do outro lado da linha era inconfundivelmente paulista
— Pois não, sou eu. Pode falar.
— Senhor Jaques, aqui é o Igor...
— Da Itaucard?
— Não, da Bradesco Seguros.
            — Fala, que eu te escuto...


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