sábado, 6 de julho de 2013

Coisas da idade





Aquele amor
Nem me fale

Oswald de Andrade


 Havia algum tempo, o garoto andava meio disperso. Em casa, a mãe se preocupava, o pai desconversava:
— Coisas da idade! – e voltava para a tinta do jornal.
Na escola, durante as aulas, os professores reclamavam do desempenho nas provas. Durante o intervalo, o motivo se insinuava:
— Você não vem jogar com a gente hoje?
— Hoje, não...
— Ontem, você também não quis. Amanhã, não vai tá nem aí. O que aconteceu?
E o olhar do garoto se desviava do amigo, acompanhava o grupo que passava e se perdia em certo sorriso.
Dali a pouco, na educação física, ela se aproximava e, com o mesmo sorriso, perguntava:
— Você não quer jogar vôlei com a gente?
O garoto se enchia de pernas. Procurava como dizer ‘sim’, mas escapava um:
— Quem sabe?
Ela dava de ombros e seguia em frente. Ele caía em si. Como é que eu fui dizer isso?! No dia seguinte, a professora de história passava um trabalho em grupo. O garoto não perdia tempo. Aproximava-se dela e, meio sem jeito, lançava o convite:
— Você não quer fazer o trabalho com a gente?
Ela não perdia tempo:
— Quem sabe?
E, com o sorriso florido em mistério, ela seguia em frente. Eles terminavam fazendo o trabalho em grupos distintos.
A professora de História planejava uma excursão, ele planejava a estratégia infalível. Sentaria ao lado dela no ônibus, conversariam amenidades e, quando a turma se dispersasse para desbravar o Forte de Santa Catarina, eles se encontrariam por trás da muralha e trocariam intimidades. Duas semanas depois, eles viajavam em ônibus distintos e ela não saía sequer na fotografia dele.
No final do semestre, a turma planejava uma festa de despedida.
— Você vai à festa na casa de Joãozinho? – ela queria saber.
— Ainda não sei... – respondia o garoto, distraído.
E, logo em seguida, arrependia-se de ter sido tão vago.
— Espera! Eu vou sim! E você?
Mas ela já ia longe, saltitando e balançando a cabeça. Chegava o dia, a festa começava. O garoto a esperava; ela aparecia, ele se aproximava.
— Vamos dançar?
— É que eu já combinei com outra pessoa...
O garoto passava a noite inteira de olha nela. Ela dançava, passeava, conversava e, aqui acolá, volvia brevemente o rosto em direção a ele. Sorria. Nesses instantes, ele se animava. Queria chegar perto e convidá-la novamente para dançar, mas terminava não saindo do canto onde estacionara, vagando entre o papo aleatório e o copo de guaraná.
Na última semana de aula, eles se encontravam na cantina.
— Gostou da festa?
— Foi boa...
— Aninha falou muito em você. Eu acho que ela está interessada.
Então, de repente, ele deixava escapar:
— E se eu estiver interessado em outra pessoa?
— Quem é essa “outra pessoa”?! – ela sorria.
Ele calava. Os dois se despediam. As férias começavam. Eles seguiam para praias distintas. E o garoto passava o verão inteiro pendurado, muito além de si mesmo, naquela interrogação sem destino. 


Esta crônica foi originalmente publicada na edição de 7/6/2013 do Jornal Contraponto.

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