quinta-feira, 18 de julho de 2013

Outro apólogo



O sagüi despontou no telhado dali a uns cinco minutos. Atrás dele, meia dúzia de companheiros, pendurados no coqueiro, emitia sinais de estímulo para que o outro seguisse em frente. Ele ameaçou recuar, o bando enfureceu, ele retomou o caminho. Desceu até o beiral, investigou o ambiente e pulou para o galho mais próximo da caramboleira. Desapareceu entre as folhas, reapareceu perto do caule e, mais uma vez, sondou o lugar. Ofegava. Enfim, saltou no chão, atravessou os pedregulhos e avançou sobre o cacho de bananas. No mesmo instante, sentiu algo mover-se acima de si e cair sobre sua cabeça.
Então, ouviu-se a gritaria efusiva de um grupo de crianças que surgiu de trás da parede de tijolos furados da casa. Os garotos correram para a caixa (um gradeado velho para transportar garrafas de refrigerante) e assentaram sobre ela uma pedra suficientemente pesada para assegurar que o prisioneiro não escaparia dali. Dentro da cela, o sagüi debatia-se contra as paredes e lançava guinchos dolorosos que, longe de despertar a compaixão dos carcereiros, estimulava-os à crueldade. E passaram a gritar com mais estridência, a dar socos e pontapés na caixa e a espetar a presa com pontas de graveto.
Atormentado, o sagüi vislumbrou uma fresta mais larga e lançou-se em direção a ela, na esperança da fuga. Mal passou, no entanto, o focinho e um chute certeiro atirou-o para trás. Então, os garotos começaram a debater o que fariam com o prisioneiro. Um deles propôs que amarrassem uma corda no pescoço do bicho e o levassem para passear na praia. Outro sugeriu que observassem quanto tempo o animal levaria para comer toda a banana. Um terceiro animou-se com a idéia de abrir-lhe o ventre e examinar suas entranhas. Estavam nisso quando uma voz no interior da casa chamou-os para o lanche. Saíram em disparada, largando o macaco no cativeiro.
O sagüi ainda forçou as paredes da caixa em vão. Tentou cavar um buraco na terra, mas deu logo na pedra. Enfim, guinchou a plenos pulmões até não suportar mais e, exausto, largar-se ao lado das bananas. A tarde avançou. Os garotos passaram do lanche aos games, completamente esquecidos do refém. O sol começava a cair quando se ouviu um burburinho que partia dos galhos da castanholeira. Dali a pouco, um a um, foram aparecendo os sagüis que haviam permanecido no coqueiro. Ao ver os companheiros do bando se aproximarem e cercarem a armadilha, o outro sequer se moveu. Após breve silêncio, desabafou:
— Eu não disse que isso terminaria acontecendo?!
Nenhum deles respondeu. O sagüi insistiu:
— Preferem ficar calados, hein?! Não conseguem sequer demonstrar remorso!
— Tenha paciência – disse um deles – que as coisas logo serão arranjadas...
O prisioneiro atalhou:
— Arranjadas?! Como?! Daqui a pouco, aqueles filhotes de humanos lembrarão que me largaram aqui e voltarão para passar a coleira no meu pescoço. Eu, um macaco livre, tratado como um cachorro doméstico! Se não me usarem como cobaia naquelas experiências nojentas que os humanos adoram fazer!
— Você sabe que os maiores nunca permitem que eles façam isso conosco. Além disso, eles sempre libertam as presas depois de alguma brincadeira. – ponderou um dos sagüis, de aparência mais velha.
O outro continuou:
— Libertam?! Depois de alguma brincadeira?! Você não diria isso se estivesse aqui dentro, no meu lugar! Querem saber de uma coisa?! Se não têm força para tirar essa pedra aí de cima, dêem o fora! De-sa-pa-re-çam! Vocês me empurraram para esta cilada e, se não podem me tirar dela, deixem-me sozinho!
— Nós não o forçamos a nada. Você decidiu vir livremente. – interveio um terceiro.
— Ora, livremente! Vocês deram sinais muito claros de que, se eu não viesse em busca deste cacho, ficaria mal visto no bando! Eu estava livre para quê?! Para optar entre pegar as bananas ou ser expulso do grupo, isso sim!
Seguiu-se outro instante de silêncio. Enfim, o mais velho retomou a palavra:
— Sejamos realistas. Você veio e, agora, não pode mais retroceder. Por outro lado, nós não temos a menor condição de retirá-lo daí. Tenha paciência. Daqui a pouco, os filhotes ficarão cansados dessa brincadeira e deixarão você partir. Nós estaremos à sua espera no coqueiro.
— Paciência, essa é boa! É fácil falar em paciência para quem não está trancafiado em um caixote do inferno e pode balançar a cauda no alto de um coqueiro!
— Sua situação até que não é má, Áporos. – ponderou um quarto sagüi. Talvez até seja melhor que você nunca saia daí. Pense bem. Aqui fora, a vida anda difícil, mal dispomos dessas carambolas minguadas com que nos alimentamos. Aí, não. Enquanto os filhotes precisarem que você os divirta, não faltará comida. Sem falar que, por trás dessas grades, você está a salvo de gaviões inoportunos.
O sagüi redobrou a raiva. Recuou dois passos e começou a arrancar as bananas do cacho e atirá-las contra os demais. Enquanto isso, esbravejava:
— Então, fiquem com as bananas para vocês! Tomem! Comam tudo! Por que não aproveitam para esperar o retorno daqueles diabos e pedir que eles os tranquem aqui dentro comigo?! Não faltarão bananas, não é mesmo? Tomem! Comam! Não quero nenhuma!
As frutas esbarravam na caixa e caíam no chão. Em poucos segundos, os sagüis guinchavam com tanta intensidade que despertaram a atenção dos garotos.
— Vejam só, os outros macacos vieram resgatar o amigo! – alertou um deles.
E, em um piscar de olhos, todos correram do interior da casa em direção à armadilha. Tão logo perceberam a aproximação deles, os sagüis dispersaram-se com rapidez ainda maior, deixando para trás o companheiro cativo.
— Essa foi por pouco! Quase soltaram o bicho! – exclamou um dos meninos.
— Afinal, o que a gente vai fazer com ele? – outro perguntou.
Debateram novamente e, enfim, concluíram que já estava tarde e escuro demais para fazer alguma coisa. No dia seguinte, pensariam melhor. Então, arrastaram o caixote pelo chão até o terraço, esconderam-no debaixo de um banco de alvenaria e o cobriram com uma toalha de mesa, subtraída da rouparia às escondidas. O sagüi guinchou e se debateu contra o gradeado o quanto pôde. Enquanto voltavam para dentro de casa, um dos garotos comentou:
— Com tanta banana para comer, esse sagüi reclama de barriga cheia!


2 comentários:

  1. Fiquei com mais raiva dos outros saguis que dos garotos.

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  2. A culpa é toda do autor!

    Grato pela visita, amigo. Abração!

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