quarta-feira, 31 de julho de 2013

Papo elevado




— Então, até a próxima sexta.

— Até lá. Boa semana.

O homem atravessou a saleta de espera, enquanto ouvia o ruído das dobradiças e da fechadura atrás de si, ganhou o corredor mal iluminado e, cinco passos depois, acionou o botão do elevador. Mal deu o segundo piscar de olhos e já viu a cabine.

— Boa noite.

— Boa... – a voz do ascensorista soou débil.

O passageiro percebeu que o condutor soluçava discretamente. Sem que tivesse feito qualquer solicitação à memória, a lembrança do catecismo que freqüentou quando criança veio à tona em um impulso e o comandou a oferecer qualquer palavra de solidariedade, qualquer gesto de apoio. Pensou no que acabara de desabafar ao psicanalista e riu. O elevador sofreu um baque.

— Dia pesado, hein?

O outro enxugou os olhos e o nariz, conferiu o corredor e sorriu.

— O senhor veja como são as coisas. Eu aqui, fazendo o meu serviço direitinho, recebendo bem as pessoas e o que ganho em troca? Xingamento!

— Alguém foi rude com você?

— Uma senhora de idade. Quem diria? Entrou aqui, olhou pra mim e perguntou por que ainda desperdiçam dinheiro com ascensorista. Pode deixar que eu mesma aperto o botão!­ – ela esbravejou. Grosseria! O senhor tinha que ver.

Outro baque.

— E você, o que respondeu?

— Nada não senhor. Deixei por isso mesmo. Dei boa noite e fiquei na minha. Depois, quando ela saltou, não agüentei e caí no choro. O senhor vá desculpando, que não tem nada a ver com o assunto.

O homem não soube o que dizer. Uma palavra de consolo, talvez. Mas temeu que a emenda piorasse a dissonância. Investigou o arsenal de piadas e frases jocosas. Nada. Nem uma anedota de salão saltou do corredor, novamente entrevisto depois de novo baque. O outro continuou a pauta, em contraponto com o elevador, que retomou o curso:

— Às vezes, eu tenho vontade de sair correndo daqui...

— Mas não vá abandonar o vôo em pleno ar, comandante! – brincou, aliviado.

O ascensorista riu, esquecendo-se das lágrimas.

— O senhor é um homem bom. Dá pra sentir só de ouvir.

A viagem prosseguiu dois andares abaixo, onde veio outro baque.

— O senhor veja como são as coisas. As pessoas apertam o botão e não têm paciência de esperar. Eu até que oriento, mas ninguém me dá ouvido. E ainda levo dasaforo pra casa!

— É assim mesmo. Eu também engulo meus sapos.

— Que mal pergunte, mas o senhor trabalha em quê?

— Sou funcionário público.

— Funcionário público?! – os olhos do ascensorista brilham. E faz o que exatamente?

— Recebo pessoas, carimbo papéis e movo processos pra cima e pra baixo.

— E deve ganhar bem pra isso, né?! – as sobrancelhas se arqueiam.

— Vivo sem aperto nem folga, na medida justa. Com conforto.

— E trabalha no fim de semana?! – o sorriso vai de uma ponta à outra.

— Só em períodos excepcionais. Raramente.

— Férias de 30 dias?! – um suspiro angelical.

— Divididas em duas partes. Uma em julho, outra em janeiro. Nada mais.

O ascensorista recompôs o costume na altura do terceiro andar, seu rosto reassumiu as feições enlutadas, seus lábios deixaram escapar um suspiro – dessa vez, grave e terreno. Sentenciou:

— O senhor é quem é feliz. Trabalha pouco e vive bem.

— Eu não disse que trabalho pouco nem que vivo bem. – as nuvens se fecharam no rosto.

— Eu quis dizer que o trabalho é manso e

— talvez não mais que o de um ascensorista apertando botões.

— Se o senhor viesse pra o emprego privado, ia ver o que é luta! – respondeu o outro, com revolta.

— Já estou vendo o tamanho do seu banquinho. – a chuva desabou do céu.

Outro baque. Térreo! – a voz do ascensorista anunciou, em pé de guerra.

O passageiro despediu-se secamente do condutor, ouviu o último disparo (É pra isso que se paga imposto! Desperdício...) escapar por entre os dentes da porta e, recolhendo o catecismo ao fundo da memória, tomou o caminho da rua.

*

Crônica originalmente publicada no Caderno B do Jornal Contraponto em 26/7.

*

2 comentários:

  1. Li no jornal. Será que é sempre assim quando se quer ajudar ascensoristas em crise existencial?

    ResponderExcluir
  2. Espero que a realidade não imite a ficção tanto quanto esta bebe daquela, Antenor. Se bem que sou (ou estou) desconfiado demais para crer nisso!

    ResponderExcluir