sábado, 10 de agosto de 2013

Moisés, o primeiro sacrílego




1.   Um velho conhecido cobrou de mim (“ateu esclarecido que és” – foi sua isca) que emitisse opinião clara e contundente sobre a profanação de imagens sacras no Rio de Janeiro durante a Jornada Mundial da Juventude. Juro por esta crônica vilipendiada que pensei em atender ao seu apelo; entretanto, o catecismo que freqüentei ainda me habita de tal maneira o guarda-por-trás-do-poste-da-esquina que logo senti o sopro da censura. Com profanoração e garotas de Manaíra no currículo, além de livro com outros poemas subversivos no útero, não poderia falar do cisco alheio sem ignorar minha trava nos dedos.

2.      Tramei sair pela tangente para retornar à circunferência depois de uma volta. Ou duas. Trataria do politicamente correto como categoria do nosso tempo, desvendar-lhe-ia pressupostos, atributos, mecanismos e limites; a certa altura do malabarismo verbal, cavaria a exceção onde abrigasse imagens e versos, ou confessaria o pecado e assumiria a culpa. Não, não, muita tala para pouco gesso, ainda que a empreitada acenasse com a promessa de um desfecho jocoso: o instante dramático no qual Moisés, arremessando com ira as tábuas da lei divina contra o pé do monte, tornou-se o primeiro sacrílego (Êxodo 32).

3.      Mas eu citei a isca com que o velho conhecido me trouxe à tona e quero dizer duas frasezinhas sobre ela. Primeira: não sou ateu, sou agnóstico. Segunda: clareza e contundência são coisas para manchete, marcha e marketing. E não me venha a senhora repetir que ser agnóstico é capricho de quem não desce do muro ou, na melhor das hipóteses, pretexto charmoso para uma frase de efeito. O agnosticismo é um método – afirmou o professor Huxley – que consiste em não tomar um dado como certo se ele não puder ser evidenciado como certo. O que não o impede – acrescento eu – de sobreviver como fraude, falácia ou ficção.

4.      Então, o que temos? No fim do século VIII a.C., Taglatfalasar III invadiu o reino de Israel, deportou sua elite para a Assíria e repovoou suas cidades com estrangeiros. Enquanto isso, o pobre e indesejado reino da Judá começava a progredir economicamente e florescer culturalmente ao sul. Na capital, um grupo de sacerdotes e escribas, talvez com a ajuda de profetas exilados do norte, começou a urdir um projeto para suplantar os cultos politeístas tradicionais pela adoração de um único deus – Javé, cuja estátua se venerava, entre outras, em Jerusalém. Começaram a compilar narrativas populares para compor um épico nacional.

5.      Um único povo, um único rei, um único deus. Quando Josias ascendeu ao trono de Judá em 639 a.C., foi a esse projeto monoteísta que ele atrelou seu programa de expansão sobre o território do devastado reino de Israel. Apresentou-se como o líder que Javé destinara para restaurar o passado glorioso de um povo que Ele próprio, quando este Lhe fora fiel, conduzira à liberdade e à riqueza em toda a Canaã por intermédio de patriarcas, juízes e reis heróicos. Munido de um livro misteriosamente achado no Templo de Jerusalém (II Reis 22), Josias implantou o culto único a Javé e a observância obrigatória do que pode ter sido a primeira versão do Deuteronômio.

6.      Mas havia um faraó no caminho do rei: Necau matou Josias. Enquanto o reino se consumia em disputas pelo trono, Nabucodonosor invadiu Judá e levou parte da população para a Babilônia. Durante o cativeiro, os exilados e seus descendentes continuaram adorando Javé e compondo as narrativas que, após o retorno permitido por Ciro da Pérsia no fim do século VI a.C., iriam constituir o que conhecemos hoje como o velho testamento. Com um detalhe: Ciro não apenas autorizou o regresso, mas também ajudou os sacerdotes a restaurar o culto exclusivo e controlar o governo local no lugar da velha dinastia.

7.      Em linhas muito gerais, essa é a história de Javé – que os cristãos meio milênio depois chamariam apenas de Deus, com inicial maiúscula – tal como as evidências arqueológicas e históricas permitem até agora e mais ou menos reconstituir. Se ela habita os pesadelos de padres e pastores, povoa os sonhos de dawkinsetes em sua campanha para desencantar o mundo dos mitos e refundá-lo sobre a translucidez de um tubo de Becker. Houvesse eu aderido a ela com a disposição de ânimo de uma madre superiora, propagá-la-ia com o fervor do lendário Josué diante das muralhas de Jericó. Mas vôo longe de tanto destempero.

8.      Menino crescido em casa de avó, ouvi desde cedo as crendices cristãs que, se me puseram certos freios danosos, foram contadas com a suavidade que o afeto imprime até mesmo no que é falso. Freqüentei igreja, fui coroinha e quis ser padre durante a adolescência. Tudo bem que, já na escola, soube da Inquisição, da venda de indulgências e da simonia; todavia, não foi o braço cruel e dominador do catolicismo que se abateu sobre mim no cotidiano da sacristia, e sim sua voz serena – que me chegava pelo canto gregoriano, pelo teatro da missa e pelas pregações bem humoradas de frei Canísio: “cuidem de suas vidas e deixem o diabo em paz”.

9.      Assim é que a razão levou-me à descrença nos deuses e nas instituições que os (re)criam, mas as vias da emoção mantiveram-me no caminho de Roma. Afinal, pode haver evento que aflore mais a sensibilidade estética e histórica de alguém que uma missa papal? O sucessor dos antigos césares, conduzindo um ritual de raízes bizantinas e folhas medievais, tendo ao fundo uma paisagem barroca e, no canteiro, uma corte renascentista! Que se dirá de ver este universo transplantado para o Rio de Janeiro e o papa recebido em uma metrópole global – com fama de libertina – como bispo em visita à matriz de Jenipapo? Tudo isso é deliciosamente cômico.

10.  Porém mentiroso! – adverte o mindinho. E anacrônico! – esbraveja seu vizinho. Além de fraudulento! – espeta o fura-bolo. Sim, queridos dedos, dou-lhes o benefício do acerto, desde que me concedam a graça de modular a tonalidade e cometer o pecadilho do gozo perante o tribunal da razão. Entrego-me, pois, ao julgamento e à infâmia, rogando apenas que se tome por atenuante uma circunstância: tão logo me tornei consciente da falsidade dos mitos judaico-cristãos, desisti de ser padre; troquei a possibilidade de estudar na Gregoriana e tornar-me cardeal pela honestidade para com o próximo. Só não pude abandonar a ficção – desde que tratada como ficção.

11.  Mas, afinal, o velho conhecido insiste em saber: “condenarás ou não as vadias?” Já disse que estou impedido e apresentei meus motivos. Se me dão crédito, dou-lhes outro: sou veementemente contra a veemência. Ou, menos que isso, sou veementemente a favor daquela velha máxima de Voltaire: “somos todos empedernidos de debilidades e erros; perdoemo-nos, pois, mutuamente – é a primeira lei da natureza”. Então, façamos assim: os católicos relevam os sacrílegos, que relevam os católicos, os quais por sua vez relevam Josias por ter destruído as imagens de Baal, todos relevamos o lendário Moisés por ter atirado a primeira tábua e passamos ao café. Sem açúcar.

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Porque continuaremos a fazer tudo o que prometemos: oferecer incenso à rainha do Céu e fazer-lhe libações, como fazíamos, nós e nossos pais, nossos reis e nossos príncipes, nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém; tínhamos então fartura de pão, éramos felizes e não víamos a desgraça. (Jeremias 44,17) - imagem aqui.

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4 comentários:

  1. Interessante essa história do politeísmo...marketing político no Reino de Judá...

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    1. Meu amigo, desconfio de que, mais antiga que a esperteza humana, só a própria espécia humana.

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  2. como um Lord, tu só podes ser agnóstico
    mas independente dos nomes
    a coisa é que tu é foda na ficção(ou do que chamem teus ensaios e crônicas), se me permites usar um termo mais caprino deste favelado
    o teu, sempre ateu e atento, fã

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    1. Meu gênio, sou eu o teu fã. Agradeço a leitura sempre generosa. Abração!

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