domingo, 10 de novembro de 2013

Dois cappuccinos




Dois conhecidos avistam-se no Aspargos durante o almoço. De suas mesas, trocam acenos e meneios. Depois de pagar a conta, sentam-se lado a lado à barra do café. Dois cappuccinos! – pede um deles, apertando o nó da gravata contra o pescoço enquanto confere o jornal. O outro arregaça as mangas da camisa até os cotovelos e solta um suspiro.

— Essa turma dos protestos em São Paulo e no Rio ultrapassou o limite. Não acha?

— Por enquanto, estou apenas investigando.

— Mas o assunto é grave. Ainda não pensa nada a respeito?

— Penso em Cadmo, Ágave e Penteu.

— Vândalos?!

— Não, tebanos.

O outro abandona o jornal, saca o iPhone do bolso do paletó e, disparando a espetá-lo em alta velocidade, faz careta:

— O que tem a ver Jesus com Genésio?

— Alguns sons em comum.

— Você é cheio de artimanha.

— Vício profissional, talvez.

— Continua insolente! Mas... por que pensa... em quem mesmo?

— Cadmo, sua filha Ágave e seu neto

— Penteu, rei de Tebas! Como não lembrar?! – atalha, voltando o olhar triunfal do aparelho ao interlocutor, que coça o cabelo por trás da orelha.

— Já conhece o mito, pelo que vejo.

— Adoro mitologia grega!

— Então, compreende o que digo? – pergunta com meio sorriso e sopra a xícara.

— Sim, claro. – responde com meia firmeza e esfrega o celular.

— Lembra-se de quando Dioniso voltou a Tebas? Ele perturbou a ordem racional da cidade e favoreceu a liberação geral dos sentidos. As mulheres abandonaram seus deveres e suas posições sociais e se entregaram ao gozo sem freio dos prazeres.

— Como esquecer tamanha baderna?!

— Penteu fez o que pôde para retomar o controle da situação. Prendeu as mulheres, expulsou-as da cidade, mandou seus soldados usarem a força para restaurar a ordem, mas nada as trouxe de volta à velha normalidade.

— Justo, ele. Loucas, elas! – exclama, espetando a tela.

— Então, Dioniso foi conversar com o rei e implantou em sua mente a idéia de ir disfarçado às montanhas para onde as mulheres haviam se retirado, a fim de observá-las durante o novo ritual que praticavam.

— Penteu era sábio. Infiltrou-se!

— Não diria que foi essa a intenção. Atente os outros detalhes do mito. Mas, enfim, interessa que ele se escondeu na copa de uma árvore e quanto mais viu o ritual, mais avançou sobre o galho para aproximar-se das mulheres. Terminou descoberto.

E o outro, dando a última espetada no celular antes de devolvê-lo contente ao bolso, completou:

— Mas elas estavam tão mergulhadas no transe que confundiram Penteu com um animal e o esquartejaram para oferecê-lo em sacrifício. Ágave estava entre elas e não se deu conta de que exibia a cabeça do próprio filho como uma taça de vinho.

— Exato. Enquanto isso, Cadmo também compareceu ao ritual, mas preferiu não se esconder. Juntou-se às mulheres com algum fascínio, mas manteve a lucidez e, quando viu que Penteu estava em risco, tentou alertar Ágave, mas não foi ouvido.

— Logo vejo aonde você quer conduzir meu pensamento.

— Aonde você deseja ir?

— Você quer que eu conclua assim: tanto a reação violenta de Penteu quanto a rebeldia desmedida das mulheres tebanas foram prejudiciais à cidade, ao passo que o comportamento de Cadmo foi exemplar: porque não rechaçou as mulheres e tentou integrar os novos ritos aos velhos hábitos sem embarcar nos excessos de ambos os lados.

— Daí para os protestos de rua, não é preciso esforço para tirar uma conclusão útil.

— Exceto por um motivo: Cadmo não salvou Penteu. Certo?

— Não. Nem a Ágave ou a si mesmo, já que ambos partiram para o exílio.

— Então, estamos todos perdidos?

— Por enquanto, falando por mim, estou apenas atrasado. – enxuga os lábios.

— Eu também tenho hora. Satisfação revê-lo! Até a próxima! – entorna o último gole. 

— O prazer foi todo meu. Até breve.

Acompanham-se até a entrada da galeria, despedem-se novamente e atravessam a praça em direções opostas.

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2 comentários:

  1. Não sei muito de Mitologia Grega. Mas que o conto é bom, isto é. Poderias, caro thiago, tornar o final algo menos contencioso, rs.

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    1. Obrigado, amigo. Quanto ao final, creio que o problema está mais nas hesitações do autor que dos personagens. Rsrs...

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