quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Carta não datada de Jacó Ceroulas ao Marquês de Ariús




em qualquer lugar, em qualquer data



Chico, estou só, muito só, mas estou bem, muito bem, vivo só, muito só, mas vivo bem, muito bem – não foi você mesmo quem me disse?! isso de ser sempre transparente ainda vai te levar à merda! sei, sei, você é nobre e não diz as coisas assim, na lata, no baixo calão, mas eu te perdôo por isso e por tudo mais, porque sempre gostei de você como se fosse meu pai e olhe que nunca bati bem com o meu natural. é assim que a vida tem que ser, Chico, por isso eu digo tudo na lata e escuto tudo na bucha, mas ninguém gosta muito disso, né? o que vou fazer? treinar pra dizer umas palavras bonitas como tu, com aquela sintaxe do caralho? fosse outro, fazia isso, mas como não sou, vou pro diabo e olhe que já tem gente lá me esperando... então é isso, Chico, eu vivo sem disfarce e minha única fantasia foi ter acreditado que um dia ia ser compreendido, mas agora nem isso eu boto mais em cima da cara e te digo mais, se você não quiser ler isso pula pro próximo parágrafo, o que incomoda as pessoas não é o que eu digo, mas como eu digo, é por isso que tu sempre foi amado e eu odiado. aliás, pensei isso outro dia, lendo uma entrevista do Borges. lá estava Borges, com aquela voz de cego velho, dizendo que a ironia é uma forma de dizer a verdade nua e crua mas fazendo as pessoas rirem e gostarem porque elas pensam que é só brincadeira. não é que ele te entendeu!
estou ficando cansado dessa merda toda, talvez até decida tirar uma soneca, então quero te dizer umas coisas inéditas. aliás, a primeira eu já escrevi lá em cima, eu te amo como os bons filhos devem amar seus pais e acho até que esse é o último bom sentimento que me sobrou. a segunda eu te digo já, mas deixa eu dizer logo a terceira que o dedo tá coçando, outro dia estava lendo umas coisas de história e descobri que o barão do rio branco continuou assinando como barão mesmo quando já era ministro da república, então pensei “cabra arrochado, zombou do sistema constituído do seu tempo enquanto usava a caneta do próprio discurso”, então pensei também “mas não é que Chico termina sendo um puto subversivo com essa mania de se chamar de marquês!”, só te faltou a caneta, Chico, só te faltou a caneta! mesmo assim, eu te respeito, cabra arrochado que és! então é isso. ah, a segunda coisa, quase esqueço, sempre soube que você sentia ciúmes da admiração de Rosendo por mim, mas acho que é hora de deixar isso de lado, os jovens se deixam seduzir pelos rebeldes mas terminam imitando o exemplo dos acomodados, não vê? nosso garoto se empolgava com qualquer asneira que eu dizia, mas cresceu, casou, teve filhos e hoje é mais careta do que você!
vou tirar uma soneca, Chico, mas não queria fazer isso antes de dar a forma final a umas idéias e terminar uns escritos, uns rabiscos na verdade. você sabe que eu não tenho pretensões de ser tido como filósofo porque me faltam a tesão pelo conceito e a paciência para o sistema, mas não queria deixar os pensamentos por aí, perdidos no testemunho fiel de um ou no depoimento traiçoeiro de outro. vou até te confessar uma coisa, ainda tenho alguma vaidade, fico imaginando se algum dia alguém saberá que eu existi e pensei assim e falei assado, mas desconfio mesmo é que só você e Rosendo me levaram a sério e continuarão sabendo de mim. bom, mas você nunca compreendeu exatamente o que eu disse e Rosendo vai estar muito ocupado fazendo filhos e dinheiro para perder tempo procurando uma editora que sepulte meu legado. aliás, você guardou aquela papelada que deixei contigo, não guardou? olha lá, hein?! eu até já esqueci de algumas máximas e aforismos, então não me diga que você perdeu ou deixou úrsula jogar fora a parte de mim que confiei a você. aquela beata cafona sempre disse que eu era uma má influência pra um velho indefeso como você. veja só! o que teria sido da sua solidão sem a minha companhia? os rosários de úrsula? paciência tem limites, Chico, e mau gosto também!
então é isso, quero te deixar mais um fragmento das minhas idéias, coisa rasa, mas importante. não é bem uma idéia, é uma profecia sobre a espécie humana. a ciência está avançando muito e nada é tão incompreensível que mais cedo ou mais tarde não encontre uma explicação racional e empírica. aliás, eu não disse isso, foi o Weber. daqui a pouco algum maluco vai descobrir que eu estava certo, mas ele nem vai ter noção disso. é o seguinte, lembra daquele nosso papo sobre o controle remoto da mente? você me chamou de maluco pela enésima vez, mas eu vejo com clareza que isso vai acontecer nos próximos anos, talvez uns trinta ou quarenta no máximo. a turma vai se dar conta que tudo isso não passa de física, química e biologia, que esse papo de alma é coisa do orfismo e do cristianismo e os dois ismos já eram, que é só bolar uma maneira de capturar os sinais elétricos da cabeça e decodificar com um programinha de computador. mas você não sabe do que eu estou falando, né? você nem ouviu falar de computador ainda, Chico, aposto, você mal usa o telefone e a televisão. em todo caso lê isso com atenção e anota aí, quando esse dia chegar vai ser possível saber o que uma pessoa pensa, mais que isso vai dar pra interferir no que ela pensa, vai ser só uma questão de botar a cabeça dentro dum capacete, dar os comandos e capturar o pensamento ou injetar outro no lugar. e quando isso acontecer, Chico, ainda bem que eu já vou ter escapado, porque vai ser o máximo, porque vai ser o fim. imagina comigo, essa técnica vai ser logo comprada por algum governo ou empresa e o que eles vão querer? fomentar a diversidade? o caralho! eles não vão precisar mais de discurso bonito e propaganda bem feita, vai ser mais rápido e barato enfiar um chip programado em alguns bilhões de cabeças e deixar tudo igual, como uma abelha é igual a outra abelha e existe só pra colméia. e aí você já entendeu, Chico, Jacó Ceroulas já era e todo mundo vai ser careta como o Marquês de Ariús. só te digo uma coisa, vai ser o fim da nossa espécie e o começo de outra, você vai ver, ou melhor, você e eu, a gente não vai tá mais aqui pra ver.
então é isso. só mais uma coisa, sabe o que eu sempre pensei da nossa amizade? que você está pra mim e eu pra você como Penteu pra Dioniso e Dioniso pra Penteu, você sempre sentiu repulsa por mim, por minha inconstância, minha liquidez, minha incivilidade, minha loucura, por eu ser um não-sujeito, sempre diferente de mim mesmo, uma partícula quântica cheia de vida e energia criadora, mas foi isso mesmo que fez você se aproximar de mim como quem quer jogar a primeira pedra, foi isso mesmo que fez você esticar o pescoço pra me espiar até cair no meu terreiro e ser devorado pelo meu delírio como um bode em uma oferenda aos deuses, porque você no fundo sempre se sentiu igual a mim, mas nunca teve coragem de assumir isso, Chico, nunca teve coragem de sair da sua zona de conforto, da sua certidão de nascimento e do seu título de nobreza com prazo de validade vencido. mas você sempre me amou como se ama um irmão gêmeo e eu sempre te amei como se ama um pai de quem se herdam os vícios mas não a covardia. então é isso. adeus. Jacó

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2 comentários:

  1. Vamos ver o que Chico tem a dizer a Jacó...cenas dos próximos capítulos

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    1. Estou revirando os papéis do trio, à procura das cartas de um e das folhas de diário do outro. Vamos ver o que encontro. Obrigado pela visita e forte abraço, amigo!

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