sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Em pânico




— Nós vamos chegar atrasados

— Outra vez?!

— por sua causa.

A mulher trincou os dentes, o homem tomou o caminho da sala e o sapato voou de encontro à parede. Dez degraus abaixo, a filha não escutava nada além dos fones de ouvido. O pai fez mímica. E a garota:

— Já pedi uma pizza.

Pelo menos, ainda fala. Ele suspirou e ligou o televisor. Bandidos fazem arrastão em restaurante e matam o segurança a tiros. Aonde vamos parar? Onda de violência na cidade já é a maior registrada nos últimos anos. No regime militar, quem sabe? Comandante da polícia diz que a população deve ficar tranquila. Ou no retorno do Mão Branca! Mas os policiais cobram aumento salarial e reforço do efetivo. Toque-toque-toque: estou pronta. Vamos!

— Tchauzinho, filhota.

Uma mão emergiu das almofadas e acenou.

— Não gosto de deixá-la em casa sozinha neste clima de insegurança.

— Ela tem o alarme, dois telefones e dezenove anos.

— Assaltaram outro restaurante e mataram o segurança.

— Já estão fartos por hoje, não vão querer o iPhone de uma adolescente.

— Você não acha melhor voltarmos para casa logo depois da missa?

— Pelo amor de Deus, Peixoto! Não vamos virar bichos!

— É você quem sabe, meu bem. Só estou alertando.

Ele abriu a porta da garagem. Ela caminhou para o carro lentamente. Ele já estava a postos, injetando o motor, quando ela bateu a porta. Marcha ré, portão abrindo, carro em caranguejo (Você sabe quem eu encontrei hoje a) ’té que:

— Uma moto! Trancou nossa saída!

— Faça alguma coisa, homem!

E o homem fez: cantou os pneus e ainda ouviu o motoqueiro buzinar duas ou três vezes antes de acertá-lo em cheio com o bagageiro e sepultá-lo em baixo do carro.

— Merda! Merda! Merda!

— Será que ele está morto?!

— Q-q-quem sabe?! Merda!

— Desça do carro e verifique!

— Mas se ele est-t-tiver vivo?! E armado!

— Então, ligue para a polícia!

— Mas se ele est-t-tiver morto?! Serei p-p-preso!

— Foi legítima defesa, homem!

— Eu não lhe d-d-disse que deveríamos t-t-ter ficado em c-c-casa hoje?!

— Peixoto, faça alguma coisa útil e não ponha a culpa em mim!

— Sim, mas fazer o quê?!

— Calma, vamos pensar!

Ambos permaneceram um piscar de olhos em silêncio, voltando-se em pânico para a traseira do carro.  

— Ele não se mexe, deve estar desacordado.

— Vou l-l-ligar para o Samu!

— Ótimo! Vamos começar por aí.

— D-d-disque o número, eu não c-c-consigo cont-t-trolar os dedos.

— Passe aqui.

— Meu d-d-deus, uma luz, p-p-por favor!

Então, a luz escapou do terraço, ondeou o muro e se espraiou na calçada. O portão começou a abrir-se.

— Mãe? Pai?

— Minha filha, cuidado!

— O que aconteceu?

— Volte para dentro e ative o alarme!

— Vocês tão bem?

— Feche o portão! Corra!

— Então, tá. Só ouvi umas buzinas de moto e vim ver se tinha chegado a pizza. Beijo!

Os dois se entreolharam inquietos. O portão começou a fechar-se. Pelo retrovisor, Peixoto sentiu o cheiro de cebola com ovos estalando no asfalto. Arregalou-se.

— O que foi que você fez?!

E o outro, represando e liberando ar em súbita paz, suspirou:

— Meu bem, esqueça o Samu, ligue para doutor Ramos.

*

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