domingo, 19 de janeiro de 2014

Só que não




— Ah, Osvaldo, você está aí.

— Vim fumar um cigarro.

— Não preguei o olho. Aceita companhia?

— Claro.

— Que é isso, um filme?

— Parece que sim, liguei a(bo)go(ce)ra(jo) a tevê.

— Qua(bocejo)se duas horas. Vocês vão voltar mesmo pra cidade?

— Sim, amanhã, ou melhor, mais tarde.

— Vão porque querem, a casa continua à disposição.

— Obrigado.

— Osvaldo, tem um minuto?

— Tenho a madrugada inteira.

— Sabe o que é? A gente se conhece desde a faculdade, tem os mesmos princípios, a mesma visão de mundo, por isso você pode me entender sem julgar.

— Claro, claro. É sobre aquele episódio?

— É, é sim. Até agora, não entendi direito o acontecido. E aquele vídeo na internet, então...

— Eu acho que você tem é que ficar sossegado. O vídeo só mostra o desatino do troglodita, não prova nada contra você. E esse rebuliço todo é assim mesmo, coisa de facebook, a poeira baixa na esquina do mês.

— Sim, sei, concordo, mas não é disso que eu estou falando.

— Então, é de quê?

— É que eu não consigo entender o que deu errado. Fiz tudo dentro dos conformes, mas aí vem uma tolice como essa e ameaça minha posição.

— Não se atormente. Foi o mundo que mudou, e pra muito pior, ficou de pernas pro ar. Você só tem que continuar fazendo seu papel, a História vai lhe dar razão.

— É, é isso mesmo. Ainda bem que com você eu posso falar sem receio, dizer o que passa aqui dentro sem o temor de ser recriminado por essa turminha irritante do politicamente correto e dos direitos humanos.

— É lógico, é lógico.

Um, dois, três minutos de olho-no-filme depois:

— Eu fui um bom filho, fiz tudo o que meus pais esperavam de mim. Estudei, colei grau em Direito, ralei com muita dificuldade e passei em concurso pra juiz. Quando eu fui aprovado, minha mãe colocou minha foto no oratório, ao lado da imagem do Sagrado Coração.

— Dona Mariquinha, santa mulher.

— Quando eu voltava pra casa, depois de ter tomado posse, meu pai reunia os vizinhos em torno de mim e enchia a boca pra dizer: “este é o meu filho muito amado, em quem me comprazo!”. Os vizinhos só faltavam dar nó nos meus cadarços.

— Seu Zezinho, homem de fibra.

— E quando eu conheci minha primeira mulher? A mãe dela espalhou pela cidade inteira que a filha tinha encontrado o melhor partido da região. Meu sogro então, nem se fala. Quando precisava resolver qualquer problema insolúvel, invocava as quatro palavras mágicas e os solventes caíam do céu: meu genro é juiz. Meu-genro-é-juiz!

— Lá em casa, não foi diferente quando você passou a ser genro.

— Foi até melhor, porque eu já estava por dentro do metiê. Mas, muito antes disso, você se lembra da turma da faculdade quando eu passei no concurso? O pessoal babava, todo mundo queria saber: “e aí, quando é que a gente vai ver a cor do dinheiro de um juiz?” Eu ainda nem tinha tomado posse, mas já sabia que até a cor dos meus cruzeiros seria diferente.

— Aceita um cigarro?

— Não, obrigado. Na minha primeira comarca, fui recebido por prefeito, bispo e delegado de polícia. O escrivão se curvava diante de mim como coroinha diante do altar, até os advogados tremiam dentro do paletó quando eu descia o martelo na mesa de audiência. Havia respeito, Osvaldo. Havia respeito! As pessoas respeitavam a toga de um magistrado até fora da comarca! Que dizer na padaria da esquina?!

— Mas não se exalte, que você ainda precisa repousar. E as crianças estão dormindo.

— Foi a mesma coisa em todas as comarcas, só mudou um pouco quando eu cheguei à capital. Sabe como é, né? O povo é metido a esclarecido. Ninguém tira o chapéu na esquina, mas é só mostrar o anel em certos círculos que a coisa já muda de figura. Eu já lhe falei que os meus vizinhos até hoje, não todos, uns dois ou três, lambem meu anel de rubi como se eu fosse o papa em pessoa?

— Eu vou tomar um pingado. Aceita uma xícara?

— Não, não, obrigado.

Um sachê, dois dedos d’água e três sopradas depois:

— Está quente?

— Tinindo. Mas você ia dizendo...

— Sim, é isso. Alguma coisa saiu dos conformes, mas eu só fiz tudo o que sempre foi tido como certo. Veja só o modo como as pessoas me tratam no tribunal. Excelência pra cá, excelência pra lá. Não abro uma porta, não puxo uma cadeira, não me levanto até o filtro, não apanho uma caneta que caiu no chão. Reverência, Osvaldo, as pessoas têm reverência. Privilégio? Não. Respeito, respeito à jurisdição. E só! Mas ninguém entende mais isso, ninguém quer entender! E começam a fazer questão por ninharia, meu Deus!

— Delícia. (O outro arregala os olhos). O café.

— E os convites pra festa de debutante, casamento de grã-fina e inauguração de loja de grife? E as colunas curvadas, os sorrisos subservientes, as pernas abertas? Eu já lhe disse quantas mocinhas de universidade dão bola pra mim só por causa da gravata e do carro oficial com motorista? As faculdades privadas que me oferecem uma nota alta só pra terem no quadro um desembargador. A turma enche a boca para anunciar: o de-sem-bar-ga-dor! Eu tenho prestígio e confiro prestígio. É só isso, Osvaldo. Simples assim. As pessoas querem venerar alguém. Então, elas me veneram e eu correspondo às suas expectativas. Eu tenho uma função social a cumprir. E cumpro bem. Mas aí vem um garçomzinho de merda, quebra as regras do decoro – e quem é punido? Eu! Tenha santa paciência!

— Mas você não sabe que isso não vai dar em nada? Então, relaxe, homem!

— Sim, o episódio não vai dar em nada, mas o fato é que as coisas estão ficando difíceis pra gente como nós. Isso é o que me dói! De que adiantará ter o status, se as pessoas em torno não acreditarem mais nisso?! Seremos apenas motivo de piada? Eu me recuso a aceitar isso! É preciso que alguém apareça e ponha o pingo no i!

Nisso, a luz do corredor foi acesa, uns passinhos riscaram ligeiros o chão, uma cabecinha de anjo despontou na porta e uma mãozinha esfregou o olho. A criaturinha lançou o traque:

— Vocês dois ainda estão aí? Fazendo o que, meu Deus?

— Conversa fiada, dona Raimunda. Nada demais não. E a senhora, perdeu o sono?

— Vocês viram Neco? Ele sumiu do quarto.

Os dois se entreolharam entre o riso e a lágrima.

— Dona Raimunda, seu Neco já morreu. Não lembra?

E a criaturinha, enchendo os pulmões, lançou o rojão:

— Osvaldo, diga a esse sem futuro que ele está é gagá. Onde já se viu? Quem morreu foi ele, mas se esqueceram de enterrar!

— Vamos, dona Raimunda, tenha calma. Seu Neco teve que sair e não volta hoje não. Eu vou ajudar a senhora a deitar. Vamos.

Assim, os dois deixaram a sala, enquanto o desembargador, desligando o aparelho de tevê e apagando as luzes, deixou-se ficar no sofá, fitando a noite sem lua e moendo por uns bons minutos o eco da voz de dona Raimunda: quem morreu foi ele, mas se esqueceram de enterrar!

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