terça-feira, 29 de abril de 2014

O troco




Passo de turista, mão no bolso, ele despontou na esquina e hesitou quanto a que rumo tomar. Pela Comendador Araújo, chegaria à praça e daí ao calçadão da XV, mas um ponto de táxi à direita o fez enveredar pela Benjamin Lins. Os pés ardiam depois de cinco dias de perambulação. Desceu a discreta ladeira, quase arrastando a perna esquerda, cruzou a rua fora da faixa e se aproximou do táxi mais adiantado.
Mão na maçaneta, ouviu o taxista ao rádio:
— Passa para o seguinte, que vai chegando um passageiro.
Olho no sinal, viu o vermelho no alto.
Recou três passos. Os dois se encararam. O carro de trás deu partida. O taxista bufou. Sinal demorado, o trânsito se acumulando até quase a esquina. No verde, ele esperou o tráfego fluir e, quando não havia mais carro, embarcou no táxi.
— Largo da Ordem, por favor.
O outro voltou a bufar.
— Vê como são as coisas, troquei uma corrida boa por um pulo no centro e ainda perdi a posição no ponto.
— O senhor me perdoe. Se puder fazer algo para
— Esquece. Só paga a corrida, e daí.
O sinal fechou na Brigadeiro Franco. O motorista prosseguiu:
— Tá vendo essas marcas no meu braço? Passageiro que não pagou corrida. Fico irado quando isso acontece. Não pagou a corrida e ainda deixou machucado. Eu corri atrás, não podia deixar assim. Não pagaram, na verdade. Três moças. Foi na sexta à noite. Começaram a corrida ali mesmo, no Crystal. Destino: largo da Ordem, também. Veja só. Coincidência, e daí. Sexta à noite, sabe como é, né? Aquilo lá no fervo. Parei o carro na altura da Garibaldi, olhei o taxímetro e, nem acendi a luz, as gurias saíram correndo. Não contei conversa, puxei o freio de mão, saltei do banco e corri atrás. Daí que duas foram mais rápidas e sumiram na direção da Kellers, mas a outra era mais gordinha e foi cansando logo, pulei pra cima dela e segurei pelos cabelos. Tinha que ver. Puxei por aqui, ó. Ela gritou, mas as outras duas nem aí, vadias. Daí eu pedi: meu dinheiro, eu quero meu dinheiro. E ela: me solta, senão eu digo que você me bateu. Todo mundo começou a olhar. Sabe como é, né? Sexta à noite, no fervo. E eu firme: paga a corrida, que te solto. Mas ela resistindo.
O motorista fez uma pausa para engolir a saliva e o passageiro aproveitou para dar sinal da vida – e interesse na história:
— Vixe!
O outro espiou pelo retrovisor.
— Vem da banda do norte?
— Da Paraíba.
— Logo percebi, pelo vixe!. Veio a trabalho?
— Não, a passeio.
— Curioso, e daí. Só pra conhecer a cidade?
— E acompanhar o festival.
— Festival? De quê?
— De teatro.
— Ah, é? Não sabia. Realmente, tem muita coisa boa pra se ver por aqui.
A torre da Catedral anunciou a hora.
— Já estamos chegando. Quer que pare aqui embaixo ou lá pra cima?
— Pode ser na praça.
— E quando vai embora?
— Amanhã, às seis.
— Tá precisado de táxi para o aeroporto?
— Talvez sim, ainda não sei se pego o ônibus ou se
— Anota aí, então, meu número e me liga quando tiver uma posição. Eu te deixo no aeroporto por sessenta e cinco, taxa de retorno inclusa.
— Pode ser. Quando decidir, eu ligo. Qual é o número?
— Toma aqui meu cartão.
— Obrigado. Mas, afinal, em que terminou a corrida?
— Termina aqui, chegamos. Treze reais.
Pé no freio, táxi parado debaixo do sinal vermelho. O passageiro meteu a mão no bolso, tirou duas cédulas.
— Aqui está. Mas eu me referia às três moças. O senhor pegou a gordinha pelos cabelos e
— Ah, bom.
E, acrescentando um sorriso malicioso ao verde que acendera no ar:
— Tenho que seguir. Conto o final amanhã, se tu me ligares.
Mão estendida: 
— O troco.

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