terça-feira, 8 de abril de 2014

Sim, senhor, major!




A intimação chegou às nove, mas o rapaz não estava. Alarmada, a mãe se apressou a explicar: nos últimos dias, ele vinha saindo para a Poli antes de a casa acordar, aplicado que só vendo, ela bem que tentava persuadi-lo a descansar, mas ele só pensava que o tal Armstrong iria botar os pés na lua, por isso não podia perder tempo, vivia para os estudos o garoto, não pensava em política, só no futuro profissional, na namorada, uma moça bonita e de boa família, aparentada do governador, enfim, não movia uma palha contra a ordem e os bons costumes – então, por que, afinal?
O sargento insistiu,
— O major quer vê-lo, madame.
acrescentou
— Só mandou convite em atenção ao seu marido.
e bateu os coturnos, rumo ao portão.
A mulher acendeu vela, puxou o terço do bolso e chamou o motorista. Que fosse buscar Miltinho na faculdade e voltasse com ele sem falta. Nem demora! Caiu no choro e, apoiando a mão esquerda no joelho do padre Cícero, reergueu-se em súplica – mão direita para o queixo da estátua. Que se apiedasse do padecimento da mãe e intercedesse pela vida do filho; se atendida, saberia demonstrar gratidão.
Daí a três tempos:
Meu filho, o que foi que você fez?!
Nada, minha mãe. Só tenho tido tempo pra propulsão de foguetes.
Miltinho, Miltinho, olhe lá! - as lágrimas voltaram.
O pai, avisado por telefone, estava a caminho de casa. E o lanche, servido na saleta de costura. Que comesse bem antes de ir. Não tinha vista o caso de Arnaldinho? Dois dias, a pão e água. Mas a Virgem e o padim Cícero haveriam de interceder por ele. Voltaria são e salvo.
— Não tem como ser diferente, minha mãe. Não fiz nada. Vou e volto num pulo.
O pai chegou. Abraçaram-se. Já tinha ligado para o coronel, no Rio de Janeiro. Averiguações de rotina. Que ficassem tranqüilos e deixassem o menino atender ao chamado. Sem medo.
— Graças a Deus. Nossa Senhora já está ouvindo minhas preces!
Pai e filho subiram juntos a ladeira da Conceição. No portão do quartel:
O senhor desculpe, mas o assunto é com seu filho. Vá trabalhar, volte pra casa, aguarde.
— Mas o coronel
— Ordens são ordens! Só entra o rapaz.
Os dois se abraçaram. O pai se despediu. Que fosse forte e se comportasse à altura do homem que já era. Lá dentro, chá de cadeira. Mais de três horas passadas, sem sinal de vivalma. Por volta das duas, um grito escapou não percebeu Miltinho de onde. Tremeu. Lembrou-se das conversas truncadas nos banheiros da universidade. Mas com ele seria diferente, estava limpo, além disso, pelo que se falava, não era ali que desciam o cacete. É verdade que quase tinha recebido senha para o congresso da União, mas aquilo não passara de curiosidade e festa, não era engajado, muito menos militante. Se bem que a fama do major. Silêncio. Quase cochilou, embalado pela estufa da sala. Tremeu novamente quando a porta se abriu lá pelas quatro e a voz do oficial trombeteou:
Milton Lins de Albuquerque Júnior!
Entrou na sala e topou com o major, do outro lado da mesa.
Sente-se.
O oficial folheando uns autos, com o semblante de esfinge. Miltinho investigando a sala, com o redemoinho no ventre. No silêncio calculado, ouviam-se apenas os ruídos das narinas de ambos. Até que:
Fui informado de que o senhor tem conduzido atividades potencialmente subversivas, as quais podem colocar em risco a segurança nacional, a partir de um laboratório que lhe serve de fachada no campus da Universidade.
Mas, major
Não me interrompa! Você só pode falar se e quando autorizado. Em atenção ao seu pai, que é homem de bem e pessoa bem situada na cidade, decidi alertá-lo.

“Mas, major, é apenas JÁ um DI clu SSE be QUE de NÃO es ME tu IN dos TERROMPA!”

O punho fardado desceu brutalmente sobre a pilha de papéis à direita da mesa.
NÃO É UM CLUBE, NÃO É UM LABORATÓRIO, É FACHADA, É TUDO E SIMPLESMENTE UMA FACHADA!
Sobreveio o silêncio. O major se recompôs. Miltinho de queixo tão erguido, quanto trêmulo.
Vou lhe dar uma chance e apenas esta. Como disse, em atenção ao seu pai. Encerre as atividades do que você chama de clube, disperse seus comparsas e eu o deixo em paz.
Mas, major
MAS MAJOR UMA PORRA! VOCÊ NÃO ME OUVIU?! UMA CHANCE! NÃO MAIS QUE UMA! SE CONTINUAR, VAI EM CANA! ENTENDEU?! EM CANA!
...
ENTENDEU?!
Outro grito escapou de tão longe, tão perto. Miltinho segurou o choro no queixo, piscou os olhos sem controle de si, inspirou fundo – suspirou.
Sim.
Sim, senhor, major!
Sim.
Sim, senhor, major! Diga!
— Sim, major.
Insolente!
O major desceu a mão no rosto do rapaz, que desabou da cadeira.
SIM, SENHOR, MAJOR! VAMOS! DIGA!
O choro no queixo, Miltinho engoliu a saliva. Pensou na mãe, no pai, na namorada. Armstrong iria botar os pés na lua, mas ele teria que tirar os seus do quartel. E a propulsão de foguetes? Mas uma carreira promissora à espera. Não choraria. Resistiria, porém. O major acocorou-se.
— Vamos, filho, fale. Não vai doer.
Sim...
Isso.
— ... senhor...
— Só mais uma.
— ... major.
Ótimo. É assim que se faz, meu jovem. Vamos, levante-se. Está dispensado. O sargento vai cuidar desse machucado em seu rosto. Leve minhas recomendações aos seus pais. E não se esqueça de dizer em casa que sentimos muito por você ter tropeçado no degrau.

*

6 comentários:

  1. Uma reprodução fidedigna da paranóia da caserna tentando fazer a sociedade engolir sua doutrina de horror. Um tributo aos tantos Miltinhos que nunca voltaram. Uma lembrança dos tempos sofridos pra que não se repitam, um apelo para que as mudanças se façam dentro da forma democrática e nunca ao sabor de quarteladas e idiossincrasias.

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  2. Thiago, o texto nos dá uma ideia da dimensão existencial.
    Fico feliz por te ver não sucumbir ao carimbo.

    Abraço,
    Mário Maia.

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    1. Agradeço a leitura, meu caro Mário.
      Quanto ao carimbo, a luta é diária.

      Abração!

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  3. nice post,, thank for information

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