sábado, 21 de junho de 2014

Três contos breves




Concorrência



Terceira vez que o homem mal encarado aparecia no portão em menos de três meses. Sempre a mesma história: tinha saído da penitenciária, não queria mais roubar, mas com duas filhas em casa passando fome o sujeito termina perdendo a cabeça. Na primeira vez, foi por pouco, ainda estava fechando o portão, mas deu tempo de entrar em casa, trancar a porta e ligar para a empresa de segurança. Na segunda, teve medo e atirou do terraço um pacote de biscoito – o homem saiu regando vento e plantando palavrão. Agora, apareceu pálido na janela, ouviu a ladainha e mandou voltar outra vez, que estava impossibilitado. Dali a menos de dez minutos, ouviu-se um ruído na porta da cozinha, o estrondo de uma panela no chão e a respiração ofegante despontando na sala. De mãos atadas, o dono da casa sorriu. Ao seu lado:

— Perdeu, playboy, cheguei primeiro! Vaza senão eu te arrebento!



*



Cruzamento



Droga! Bem que Claudinha havia pedido. Não voltasse na sexta, quase madrugada, no outro dia matariam saudade e o que mais os consumisse. Vozinha dengosa, só ouvindo. Ele bem que prometera, mas quis fazer surpresa, flagrá-la no sono e - uma luz no fim da estrada! Ainda bem que havia parado, pneu furado e celular descarregado, ali no cruzamento de duas rotas. Se bem que o breu - não via três metros além do nariz. Noite sem lua e com nuvens. Acendeu o pisca-alerta, desceu do carro e fez sinal. As lanternas se aproximaram, ele encobriu os olhos com a mão livre, o carro parou. Ele se aproximou e já ia no i de boa noite quando deu pela mulher dormindo no passageiro:

— Cláudia?!



*



O Iluminado



Foi como eu disse, acordei pesado e saí pra deixar o carro e o tédio na oficina. Aí, voltando pra casa, ouvi um grunhido saindo de um monte de panos e, quando dei fé, era uma mulher sobre quem tinham brotado todos os sinais possíveis da decadência de um corpo humano, inclusive uma mosca... depois, vi um flanelinha agitado e falando sozinho ser abordado por dois policiais que meteram a mão do bolso dele e foram embora às gargalhadas... na altura do hospital, passei por quatro homens que estavam acomodando um caixão no carro da funerária... por isso estou lhe perguntando, você conhece alguém que traduza cartas pro tibetano?



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